Tratamento psicanalítico de adolescentes psicóticos

"As psicoses" constituem uma temática desde sempre desafiante em relação às abordagens psicoterápicas, sejam elas psicanalíticas, psiquiátricas, neurológicas, etc. A proposta desse artigo é referente à instituição de uma abordagem interacional múltipla, como um approuch psicoterápico possível.

Objetivamos com a realização desse trabalho enfocar a problemática das psicoses, as quais sempre têm sido motivo de controvérsias entre psicanalistas, psicoterapeutas, psiquiatras e mesmo de neurologistas.

Para darmos início à execução desse trabalho, queremos afirmar que se impõe o estabelecimento de uma relação dialética entre a teoria e a clínica. Aqui, não estaremos nos referindo às psicoses reativas, nem mesmo aos quadros psicotóxicos. Nosso foco de análise serão aqueles quadros que comprometem profundamente tanto as estruturas psíquicas, quanto biológicas do indivíduo em questão (alterações do equilíbrio catecolamínico, etc.).


Psicose na adolescência

Sabemos que existem psicoses que possuem etiologias variadas, as quais se inter-relacionam, além de potencializar-se entre si. Essa somação de fatores chega a configurar uma "microcultura psicótica". É aqui que normalmente encontramos os indivíduos chamados de "o psicótico", ou mesmo "o paciente identificado".

Notamos também a existência daqueles casos onde se verifica em sua etiologia, a existência de um condicionamento genético ou constitucional, além da possível presença de "situações traumáticas infantis", geradoras de processos psicóticos. Dessa forma, estamos autorizados a falar de um "clima familiar psicotizante".

Exemplo 1

Uma mulher perturbada mentalmente que engravida, podendo vir a criar um déficit nutricional por suas atitudes patológicas quanto à alimentação, se constituindo num fator patogênico, e/ou que pode estar ingerindo medicamentos, cigarro, álcool ou drogas que são transmitidas ao feto.

Verificamos também atualmente, repercussões no feto, em relação ao estado de stress materno. Dessa forma, um ou vários fatores, vão ocasionando uma "labilidade" nas suas estruturas psicobiológicas. Sobre esse tipo de criança, adquirem uma significação especial, fatores como, por exemplo: – o momento da história familiar quando nascem.

– seu "lugar" na constelação familiar.

– seu nome

– seu significado "mágico-animista", etc.

Exemplo 2

O recém-nascido pode representar para a sua mãe, a reencarnação de um irmão morto anteriormente, e, assim, recria-se todo um universo de significações, o qual pode chegar a ser intensamente patogênico.

Segundo Theodor Litz: "Temos aqui um modelo cultural, onde predomina aquilo que chamei de "transmissão da irracionalidade", os quais são induzidos através dos "mitos familiares" das "profecias auto-cumpridas", etc. No tocante a essa temática, indicamos o trabalho: "Interación Familiar". Buenos Aires: Editora Tiempo Contemporáneo, 1971.

Note-se que estamos falando, então, de um "clima psicotóxico", o qual tem sua repercussão no nível biológico e que, por sua vez, influi sobre as condutas psicológicas. Nesse momento de nossa exposição, estaremos trazendo algumas reflexões de Eduardo Kalina: "Insisti em que, apesar de na Biologia não existirem sistemas fechados, essas famílias funcionam como tal, e é possível de explicar-se o 'surto psicótico', como sendo resultante da saturação do sistema, e a criação de uma 'via de drenagem' ".

Deve estar claro, após a realização das considerações acima, que as mesmas objetivaram a aquisição de um modelo de pensamento interacional e psicobiológico.

Mas, qual o papel da psicanálise?

Para Kalina: "A psicanálise nos brinda com uma perspectiva muito significativa para o estudo das psicoses, além de nos oferecer a possibilidade de trabalharmos 'parcialmente', numa abordagem terapêutica". Esclareçamos porque parcialmente: isso ocorre, uma vez que a terapia psicanalítica deve estar complementada com um modelo interacional, com um estudo da bioquímica cerebral, assim como com o estudo e o tratamento do núcleo familiar, por vezes, claramente patogênico. Podemos concluir, então, que em se tratando das psicoses, a conduta de escolha recai sempre sobre aqueles tratamentos de abordagem múltipla.

Uma crítica

"Note-se que o tratamento psicanalítico, baseado no critério normativo 'adultocêntrico', não se encontra apto para o tratamento das psicoses. A maioria dos tratamentos psicanalíticos, que se pretenda 'oficialmente aceito', omite as outras alternativas." Diz-nos ainda Kalina: "Aconteceu comigo, escutando analistas ingleses de inspiração kleiniana como Herbert Rosenfeld, H. Segal, W. Bion e outros, que quando falam de psicanálise de indivíduos psicóticos, omitem relatar o que ocorre quando o paciente, em certos momentos do processo, requer uma série de manobras terapêuticas complementares."

Alguns psicanalistas, como é o caso do relato de Donald Meltzer, seguiam o tratamento psicanalítico de seus pacientes na clínica quando da internação, mas a grande maioria não assume essa mesma conduta. Nos Estados Unidos, por exemplo, quando um paciente em tratamento psicanalítico se descompensa, é imediatamente hospitalizado, ficando sua análise suspensa enquanto permaneça internado.

Quando o próprio W. Bion esteve proferindo palestras em Buenos Aires, foi perguntado por Kalina, se este curava os seus pacientes com a psicanálise, ao que respondeu, que com a psicanálise, os investigava.

Como uma conduta terapêutica em relação a esses pacientes, entendemos que não é viável a instituição de uma abordagem que aponte para uma sessão diária, por 3 ou 4  vezes por semana, mas sim, que o tratamento de escolha seja de abordagem múltipla.

Componentes básicos desse tratamento:

— terapia individual

— terapia familiar

— internação em comunidades terapêuticas, onde se trabalha e se pensa de acordo com o modelo psicanalítico e interacional

— utilização da moderna psicofarmacologia.

Outros recursos complementares

— acompanhante terapêutico

— terapia ocupacional

— musicoterapia

— terapia educacional, etc.

Gostaríamos de ressaltar que a base para este modelo terapêutico reside nas teorias de José Bleger (Ver: "Simbiose e Ambigüidade"), em especial a tudo aquilo que se refere à simbiose, já que em se tratando das psicoses, notamos uma resolução patológica do processo de "dessimbiotização" necessário para evoluir para uma individualização, assim como para uma personificação adequada.

Uma posição de Eduardo Kalina

"Quero assinalar também, que o terapeuta individual deve fazer parte como co-terapeuta da condução da terapia familiar do psicótico, junto com outro terapeuta, pois assim pode ajudar o paciente nas sessões individuais a processar o que ocorre nas sessões familiares".

"Os psicóticos dissociam e projetam segundo distintas modalidades em diferentes pessoas e/ou lugares, e como conseqüência, quando toda uma equipe processa esse material, logo, através do analista individual, pode-se ajudá-lo a favorecer a re-introjeção e conseqüente reorganização de seu mundo interno, evitando a perda de material e favorecendo a possibilidade de chegar a estados restitutivos, nos quais a pessoa possa desempenhar-se na vida com um grau muito maior de capacitação e adaptação".

Concluindo, lembremos que à época de Freud, os casos de psicose não poderiam, segundo ele, receber o influxo da psicanálise. A justificativa para essa posição, era porque o paciente psicótico não possuía condições para o estabelecimento do processo transferencial.

Através dos estudos posteriores, como, por exemplo, os de Einrich Racker e Horácio Etchegoyen, os quais trabalharam intensamente sobre as temáticas da transferência e da contra-transferência, além de vários outros autores, conseguimos identificar uma modalidade de transferência, denominada de "transferência psicótica", a qual deverá ser abordada tecnicamente como tal.

Para uma ilustração clínica dessa modalidade de transferência, queremos remeter o leitor ao nosso texto, publicado aqui na Rede, e denominado: "Uma modalidade de transferência: a transferência psicótica".

Assim, penso ter concluído uma primeira aproximação da temática vasta e profunda das psicoses, sobre a qual tenho a intenção de continuar escrevendo sobre, vindo a publicar oportunamente.

About TOVAR TOMASELLI

SUPERVISOR CLÍNICO E CONDUTOR DE GRUPOS DE ESTUDO SOBRE PSICANÁLISE, ESPECIALMENTE SOBRE AS OBRAS DE FREUD E LACAN.
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