Integração

Pegue, por favor, uma máquina fotográfica ou uma filmadora. De preferência antiga, que não focalize os objetos automaticamente assim que for ligada. Coloque a lente na posição da distância mais curta. Se você olhar pelo visor para algo a uma distância maior, verá tudo inteiramente desfocado. Verá uma tela cinzenta, sem nada que possa ser discernido. Agora vá girando a lente devagar até chegar a focalizar o objeto. Esse movimento da imagem, do ‘tudo cinza’ até o foco, dá uma idéia do que Winnicott chama de ‘integração’.
A diferença é que o cérebro é muito mais complexo que a câmera, e por isso trabalha com várias imagens simultaneamente – ou sucessivamente, não importa. Com cada uma delas, no entanto, ocorre o mesmo processo – do cinza ao foco. Não estou, porém, discutindo apenas um aspecto da visão – e sim da psique como um todo.

Winnicott propõe que o funcionamento cerebral do recém nascido não está pronto, nem mesmo próximo a isso. Ele imagina um processo do tipo que descrevi acima. Para Melanie Klein, o ego nascia junto com o bebê – mesmo que um ego em estado primitivo. Para Winnicott falta muito, no nascimento, até o ego funcionar como o quer Klein.

No princípio, como diz a Bíblia, era o ‘caos’ – a ausência de qualquer ordem. Há um equipamento biológico capaz de entrar em ação, mas só aos poucos. E o que entra em funcionamento primeiro é o que, na idade adulta, chamamos de ‘loucura’: alucinações e delírios.

Pois é: uma das primeiras coisas que aprendemos com Winnicott é que o ser humano primeiro inventa – e só muito depois começa a aprender (Atenção professores!!!). A ‘tabula rasa’ dos antigos não é ‘rasa’ coisa nenhuma, e não é uma ‘tabula’ (tábua) – é algo que se parece com aquelas pranchetas digitais, capazes de criar imagens no computador sem ter ‘visto’ nada antes. Existiria, segundo ele, uma ‘primeira mamada teórica’ – que não é primeira mamada em termos cronológicos, mas o somatório de várias mamadas iniciais levando à concepção (por oposição a percepção) de algo que, sempre que for preciso, resolve o desconforto (o que, bem mais tarde, o bebê chamará de ‘fome’).

Assim, o bebê primeiro concebe um seio, e só depois, bem depois, percebe que o seio ‘existe mesmo’ – lá fora, no mundo ‘externo’. Mas é preciso um longo trabalho do processo da integração para chegar lá.

O que não se deve imaginar é que esse processo funciona no vazio. Não há vazio aqui, e sim um ser que está vivo – e por isso necessita, e por fim deseja. A vida é um processo químico de transformação de substâncias (agora eu diria, diferentemente da Bíblia – ‘No princípio era a química’…), e o que Bergson chamou de élan vital é um químico misturando coisas em seu laboratório para produzir combustível. Uma espécie de Lula com o biodiesel… Mas isso é brincadeira minha. Fica, porém, dessa brincadeira, a idéia de que a vida (qualquer vida) é, em si, uma máquina de desejar, porque se trata de um motor que, para funcionar, precisa de combustível. (Metáfora para os tempos atuais: há dois tipos de vida – a vegetal e a animal, e o que é combustível para uma é dejeto para a outra, e portanto, queimar florestas é destruir não só a vida vegetal, mas a nossa também.)

Bem, voltemos ao assunto. O processo da integração inicia-se, portanto, com uma alucinação, segundo Winnicott. Ao mesmo tempo, justamente porque a tal ‘tabula’ não é ‘rasa’, está em funcionamento também um delírio. Pelo fato de não haver inicialmente quase nenhum contato com o mundo externo, a psique do bebê vive naquilo que chamamos de ‘isolamento’ (palavra que só tem sentido para quem já está em contato com algo mais que não o si próprio). Por isso, inicialmente essa psique se imagina ‘tudo’. A Bíblia Hebraica (o original) diz, nos Dez Mandamentos, ‘Não haverá para ti outros deuses salvo Eu’, e é assim que o bebê se sente ao nascer: um ‘eu’ sozinho, reinando absoluto sobre o Grande Vazio dos taoistas. Um Deus. E como todo Deus, esse ‘eu’ se sente onipotente, onipresente e onisciente – pelo simples fato de não ter a menor idéia sobre o esmagadoramente imenso cosmos que está fora dele…

Então, o Homem nasce gloriosamente absoluto. (Qualquer semelhança com a descrição que fazemos da nossa divindade talvez não seja mera coincidência…)

A integração o leva, porém, da concepção à percepção, e o resultado é um tanto decepcionante. O poder total do início começa a se mostrar ilusório, e a liberdade total inicial começa a se revelar puramente imaginária (lembremos do conceito de ‘Imaginário’ cunhado por Lacan).

Nesse período, portanto, o que antes era ‘dependência absoluta’ (porque, como diz Winnicott, não havia qualquer consciência dessa dependência, e portanto ela não existia) torna-se ‘dependência relativa’ – não porque é menor, em termos factuais, mas porque agora, que há um ser percebendo-se dependente, há também o início de uma existência em si mesma, e assim, o início da vida individual.

Uma das primeiras conseqüências do processo de integração, porém, é a de levar o homem recém nascido à percepção de sua mais que miserável dependência. Um Deus que se descobre escravo. (As velhas especulações sobre o ‘trauma do nascimento’ deveriam ter sido feitas sobre o ‘trauma da integração’: teriam acertado num alvo bem mais importante – ver o artigo de Winnicott sobre isso em O Brincar e a Realidade).

Mas essa passagem leva tempo. Nesse meio tempo, nosso pimpolho atravessa o ‘reino da natureza’ – onde não há lei, não há ‘outro’, não há nada a não ser necessidade e depois desejo. A única outra ‘coisa’ que existe é o terror. O terror de deixar de existir. Winnicott chama a isso ‘angústia impensável’, e diz: ‘O bebê é um ser permanentemente à beira da angústia impensável, e a tarefa mais importante da mãe é a de mantê-lo longe dali’. (No meu entender, essa ‘angústia impensável’ é o medo da morte. Não a morte como nós, adultos, a conhecemos, mas aquela que até os insetos conhecem. Quem já tentou matar uma barata deve ter percebido o esforço que ela faz para não morrer. E se for um leão então,… Mas se até uma barata sente isso e pode isso, por que não um bebê? Aposto que nisso vocês nunca tinham pensado…) (Isto, porém, nada tem a ver com o/a célebre ‘instinto – pulsão – de morte’ de Freud. Winnicott achava esse conceito ou uma grande besteira (‘o único erro que Freud teria cometido’, diz ele) ou uma total inutilidade para a psicanálise, porque se ele existe, é um fenômeno biológico com o qual o psicanalista não tem nada a fazer).

Bem, aí está o nosso rebento aos berros fugindo da morte (que Winnicott, para evitar polêmicas – impressão minha – chamava de ‘aniquilação’.) Se a figura materna for eficiente, evitará que esse medo se torne real (Lacan falou também em ‘Real’, lembram?) e se transforme em ‘mera fantasia’ (quer dizer, que o bebê o perceba assim).

Assim, a mãe – com sua piedosa mas deslavada mentira – permitirá ao bebê dar o próximo passo na integração,* que é a de uma percepção mais precisa de algumas coisas simultaneamente. Primeiro, do fato de que ela, mãe, existe fora dele e não é mero delírio (concepção) do bebê; segundo, que muitas outras coisas existem fora dele; terceiro, que ele, bebê, é ele próprio algo que existe nesse mesmo espaço em que estão as outras coisas – inclusive a mãe; quarto, que existem duas mães: uma que dá a comida (o combustível para manter a vida em funcionamento), e outra que acalenta, dá banho, faz cosquinhas, ri e brinca; quinto, que existem dois bebês: um furioso, brigando para não morrer, e massacrando a comida (a ‘presa’) quando ela surge – e outro, brincalhão e sorridente, que acolhe a mãe maravilhosa, agora centro do seu universo; sexto, que ele depende miseravelmente dessa mãe, apesar de adorá-la (e depender é perigoso: aquilo de que a gente precisa pode deixar de existir – aí estão as breves mas terríveis experiências de sua ausência (na verdade, demora, mas o bebê ainda não sabe que é apenas ‘demora’ e não ‘ausência’) para deixar claro que, em princípio, isso é possível. Daí o pensamento de Freud sobre o famoso carretel e a ‘posição depressiva’ de Klein); sétimo, coroando essa longa fase final do processo de integração, a descoberta impressionante de que os dois bebês são um só, ele mesmo, e as duas mães são uma só – ELA. (Como diz Winnicott: 1 + 1 = 1!!!).

O processo não termina aí, mas esse é o ponto culminante. Dali segue-se um platô até o momento seguinte – a descoberta de que além de ELA há também ELE (papai) e de que ELES dois se relacionam entre si e de que ‘eu’, o bebê, não passa de ‘resultado’ dessa outra relação, a principal, pelo visto – o que não estava previsto nos planos iniciais da Criação. Mas desse momento final falarei em outro artigo – sobre o famoso Édipo. Aguardem.

Chegamos, então, ao ponto culminante da integração – a transformação do animal humano* em gente. Essa transformação se dá pela entrada em funcionamento do fenômeno que Winnicott chamou de concern – termo que passou a ser chamado, em português de ‘concernimento’ (contribuição de Zeljko Loparic e Elza Oliveira Dias). O sentido desse termo pode ser compreendido a partir de uma célebre expressão usada e abusada por Jânio Quadros em sua época: ‘Isto não me concerne’, dizia ele quando tratava de se livrar de alguma acusação. Ou seja: ‘Isto nada tem a ver comigo’, portanto, ‘Não me interessa’. O concern é isso: o bebê deixa de ‘interessar-se’ apenas pelo que lhe falta – o ‘combustível’, e passa a interessar-se pela mãe, e pelo pai, e por quem mais estiver por perto. Ele dirá agora, ao contrário de Jânio Quadros: ‘Isto me concerne’.

Winnicott diz que esse ‘corte epistemológico’ é que responde por aquilo que chamamos de ‘socialização’ (ele não usa o termo, mas é óbvio que ele se refere a isso).

O bichinho que, até então, só queria saber do que ele queria (em inglês há a expressão ‘amor de tigela’, usado para descrever a relação entre um animal e seu dono) agora quer saber do que ele gosta. Esse ‘gostar’, eu diria apud Winnicott, é a marca do humano. E daí segue-se (quase) todo o resto.** O ‘quase’, aqui, fica por conta das confusões que podem ocorrer na passagem do Édipo – mas disso falarei depois.

Bem, fora as brincadeiras e as digressões (necessárias para que o texto não ficasse com gosto de comida de hospital…), tentei contar a história da integração com o menor número de palavras que me foi possível. Certamente deixei lacunas e provoquei dúvidas, mas quem quiser esclarecimentos mais precisos pode me enviar um e-mail – ao qual responderei com toda a boa vontade. E provavelmente escreverei antes do capítulo sobre o Édipo um novo artigo complementando o atual, a partir das perguntas que me fizerem nesses próximos dias.

* ‘Animal humano’ é um ser pertencente, biologicamente, à espécie humana, mas que (ainda) não alcançou o status de membro da humanidade, por faltar-lhe esse ingrediente imprescindível – o concern. Sem isso, ele poderá até aprender a comportar-se como um ser humano (superego), mas assim que tiver chance jogará fora o que aprendeu e porá as manguinhas de fora. Freud chamou a essa fantasia de ser humano de ‘verniz de civilização’…

** Mas não, com certeza, necessariamente. Muita coisa pode acontecer para impedir que o bichinho se torne gente com direito a esse título. O trabalho da mãe é, ao mesmo tempo, a mais natural e a mais difícil das tarefas humanas. Qualquer acidente antes desse momento, e a integração não se completará. Escrevi sobre isso um artigo – ‘Simbolização e Fundamentalismo’, e o coloco à disposição de quem pedir.

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