Você tem fome de quê?

Transtorno alimentar é qualquer tipo de mudança que afeta a relação do paciente com a comida, trazendo alterações graves na conduta alimentar e também distorção de sua auto-imagem corporal.

Dentre os transtornos alimentares, a anorexia e a bulimia são os mais conhecidos e possuem uma clara relação entre eles, que é a insatisfação com o corpo que se tem – ou que se acredita ter – e a busca por um ideal de beleza inatingível para a maioria das pessoas. A anorexia se caracteriza pela recusa do alimento, ocasionada como já foi dito, pela imagem corporal distorcida. O paciente dessa forma não suporta ingerir nas quantidades necessárias, nenhum tipo de alimento, que é visto como um verdadeiro invasor de seu corpo e possível destruidor de sua forma física e beleza: leia-se, magreza. Nos casos mais graves, o paciente precisa ser internado e alimentado contra a sua vontade para que não venha a óbito.

O anoréxico não tem fome? O anoréxico tem fome de quê? O exame físico desses pacientes pode mostrar amenorréia (supressão de menstruações), queixas de intestino preso (constipação), dor abdominal, intolerância ao frio e letargia. Também pode haver queda significativa na pressão arterial (hipotensão), hipotermia e pele seca. Alguns pacientes ficam com os pelos do tronco mais finos e a maioria dos pacientes com anorexia nervosa apresenta pulso lento (bradicardia). A anorexia nervosa exige uma constante avaliação clínica, psicológica e laboratorial, pois pode levar à morte. Os primeiros sinais tendem a surgir no final da infância e início da adolescência. A criança e o púbere estão definindo a sua auto-imagem e passando por transformações físicas, hormonais e emocionais importantíssimas.

Daí a importância da presença da escola e da família, atuando como parceiros e de forma ativa. Acompanhando a alimentação, desenvolvimento e programas feitos pela criança e desenvolvendo nela, principalmente através do exemplo, bons hábitos alimentares. Uma criança ou adolescente que esteja desenvolvendo anorexia tende a se isolar nos momentos das refeições, fazer manha para não se alimentar, optar sempre por alimentos não nutritivos e se alimentar fora de hora. Alguns padrões familiares tendem a agir como um mantenedor desse comportamento, além de em muitos casos, ter relação direta com o início do quadro. Dessa forma, pais muito exigentes (por exemplo, em relação ao peso e a imagem do filho), ausentes emocionalmente, opressores ou que vivam em constante conflito têm como resposta a formação de um sintoma. O paciente precisa ser assistido por uma equipe multidisciplinar – nutricionista, endocrinologista, psicólogo, psiquiatra e família, formam uma rede de proteção e de apoio de forma a diminuir as exigências e autocríticas do paciente e também de fortalecer suas tentativas de se alimentar. A terapia surge nesse momento como um espaço de discussões, vivências, troca de conceitos e de mecanismos de sabotagem (das refeições) e também de construção de uma auto-imagem mais de acordo com realidade. É preciso trazer à consciência que a imperfeição, o feio, o "fora dos padrões" faz parte da vida de todos nós e que é possível ser feliz independente do peso que se tem.

Um outro transtorno alimentar é a bulimia, tão grave e preocupante quanto a anorexia, possui outros mecanismos e funcionamento. Ao contrário da anorexia, na bulimia não há a recusa do alimento, embora a relação do paciente com ele seja extremamente delicada também. O paciente bulímico está amparado no mecanismo da compulsão periódica, o que o faz ingerir uma quantidade de alimentos muito acima do indicado num curto espaço de tempo, para logo em seguida lançar mão de mecanismos compensatórios (indução ao vômito e laxantes) para não engordar. O relato do paciente bulímico é carregado de culpa por não conseguir ter controle sobre a compulsão. Há sempre uma sensação de que é urgente comer muito, mesmo que não sinta fome. De uma maneira geral, esse limite não existe ou ao menos não é muito claro para esses pacientes. Relatam que não sabem se comem porque estão com fome ou porque estão angustiados, ansiosos, tristes, carentes.

Por isso, há também um sentimento muito forte de inadequação, ocasionado não só pelo descontrole e compulsão, mas também por terem uma auto-imagem distorcida, assim como os anoréxicos. Nesse caso, como não poderia deixar de ser, a família é chamada a participar de todo o processo terapêutico para que possa falar de suas expectativas, medos, ansiedades e trazer para a terapia a relação daquela família com a comida. O primeiro contato externo do bebê com a sua mãe se dá através do alimento, o leito materno, que alimenta não apenas fisicamente, mas emocionalmente, enchendo o bebê de satisfação e segurança. Conforme a criança cresce é comum os pais acharem "bonito" ter um bebê "gordinho", e associar essa aparência com saúde. Essa visão, além de ser distorcida e errônea, traz conseqüências na forma dessa família se relacionar com a comida e com a criança. Em média, aos três anos, espera-se que ela comece a emagrecer com o próprio crescimento, o que nem sempre acontece.

Com isso, o bebê, que antes era motivo de orgulho, passa então a ser alvo de críticas, pressão para emagrecer e de piadas. Está então formado o panorama familiar e alimentar de uma pessoa suscetível a algum tipo de transtorno alimentar. O bulímico tenta preencher o seu buraco interior com alimento. Mas, o bulímico tem fome de quê? Do leite materno? Do colo da mãe? Do amor incondicional? Da perfeição? O tratamento psicoterápico pode ajudar o paciente a organizar a sua rotina, de forma a incluir as refeições no seu dia a dia, acompanhamento de uma agenda e diário alimentar e também antidepressivos (psiquiatra) para a diminuição dos episódios bulímicos. O paciente e sua família são convidados a refletir que sempre teremos fome de algo, nunca estaremos totalmente saciados e que essa fome precisa nos auxiliar na busca por melhorias e não nos aprisionar num círculo vicioso, de colocar o mundo para dentro, para em seguida, não o suportando, vomitá-lo. É preciso saber digerir o mundo ao poucos.

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