A Transferência Negativa em Reich (1926-1933)

Seguindo a linha dos questionamentos que partem da técnica psicanalítica, de sua aplicação, e mais uma vez juntando esforços a convite do colega colunista Tovar Tomaselli, esse artigo elaborado para o site RedePsi abordará o tema da transferência negativa a partir da análise de questões propostas por Wilhelm Reich.

Agradeço a oportunidade que esse convite me trouxe de estudar esse tema tão complexo e interessante.

Denise Deschamps

Os trabalhos de W. Reich tiveram início no Seminário de Terapêutica Psicanalítica, em 1926-7, e foram publicados e reunidos a outros artigos em 1933 em “Análise do Caráter”. Podemos entender a obra de W. Reich como uma tentativa de sistematização. Sabemos que ele fora criticado por estabelecer uma simplificação esquemática, como nos conta Fenichel, em seu trabalho sobre os “Estudos sobre Técnica Psicanalítica”.

No tratamento das neuroses, Reich destaca a análise dos traços de caráter, considerados por ele, como defesas permanentes do ego, e pauta a sua argumentação retornando sempre à idéia de que a análise sistemática das resistências deve sempre preceder a interpretação das “significações” do Id, e de que de uma maneira regular conduz sempre aos conflitos infantis, sem que seja necessário qualquer esforço particular por parte do analista.

Para Reich, a diferença entre a resistência de caráter e a resistência ordinária é que a primeira é indireta, consistindo em traços como a cortesia e a submissão, sendo que a resistência exprime-se pela dúvida e a desconfiança a respeito do analista. Registra que essa diferença fenomenológica não representa uma diferença psicológica fundamental. Essa análise comporta dois tempos: no primeiro, o psicanalista dedica-se a objetivá-las, a desligá-las do ego, ao qual encontram-se aderidas, e demonstrando o que significam na situação presente. Ressalta que a dissolução propriamente dita só é obtida quando a resistência de caráter é relacionada com as suas raízes infantis. Assim, fica evidente que por suas origens e pelo seu modo de ação, essas resistências devem ser vinculadas à transferência negativa.

Queremos deixar claro que a posição de Reich quanto à transferência negativa é muito transparente. Quando ele concebe o tratamento de uma forma geral, ressalta que a sua finalidade é a obtenção da concentração da libido genital, a qual deve encontrar-se livre de todos os entraves narcisistas, agressivos e pré-genitais, na pessoa do psicanalista de modo a permitir aquilo que denominou de “transferência da transferência”.

Desde essa época, para Reich a cura deve exigir o investimento e a consumação da libido genital em um objeto adequado a essa finalidade. Notemos que Reich é decididamente contrário à existência de uma transferência positiva autêntica no início do processo da análise. Essa afirmação é verdadeira em seu pensamento, pelo menos no tocante às neuroses, e suas razões são em primeiro lugar teóricas, ou seja, recalcamento sexual, ausência ou insuficiência da libido objetal, “couraça do caráter”. Refere-se também ao fato de que se desprezar um resíduo de libido objetal, as aparências de transferência positiva inicial acabam por ter três funções conhecidas:

1-) defesa contra a transferência negativa latente.

2-) expressão da culpa e do masoquismo moral, servindo eles mesmos como defesa contra o ódio.

3-) aspiração narcisista a ser amado, o que, por decepção, acaba se convertendo em hostilidade.

W. Reich observa que todas essas motivações, com o que comportam de positivo, podem permitir o início da análise; porém elas acarretam infalivelmente dificuldades ou mesmo a interrupção da análise se não forem analisadas em tempo adequado, isto é, precocemente, uma vez que se tornam claras e com intensidade suficiente.

Dessa forma, a concepção de W. Reich é a transferência negativa e, sobretudo, a transferência negativa latente. Uma conseqüência lógica seria a assimilação da transferência negativa e da resistência. Reich designou como transferência negativa a toda forma de defesa do ego, e justifica-se através de duas razões:

1-) a defesa do ego faz uso, mais cedo ou mais tarde, das pulsões de ódio pré-existentes.

 2-) a interpretação da resistência, se partir da defesa do ego, provoca invariavelmente ódio.

Contudo, não é correto chamar de “transferência negativa” à defesa do ego: trata-se, antes disso de uma reação narcisista de defesa. Da mesma forma, a “transferência narcísica”, não é uma transferência narcísica “stricto sensu”.

Os biógrafos lamentam que se Reich viu o problema, não chegou a se interessar o bastante por ele para esclarecê-lo. A bem da verdade o que primeiro o impressionou foi o fato de que toda a análise de uma defesa do ego culminava, de uma forma tão rápida e tão fácil, em uma modalidade de transferência negativa. Para Reich, a transferência negativa latente, existente desde o começo, apenas se produzia em dois tipos de casos:

=== o caráter feminino-masoquista

 e

=== o bloqueio afetivo.

 

Para esse autor, a transferência positiva, isto é, genital, simultaneamente amorosa e sexual seria o resultado espontâneo da análise sistemática das resistências, sendo que o único caminho possível seria “a transferência da transferência para um novo objeto”. Argumenta que nessa etapa final, o analista depara-se com dificuldades variadas, sentimentos de culpa não-resolvidos em relação a fixações sádicas em objetos infantis, persistência da fixação no analista como sendo o representante da mãe protetora, medo da vida sexual, o que ocorreria, sobretudo nas moças e nas mulheres não casadas.

Para Reich a atividade do analista consiste essencialmente na interpretação das resistências e no manejo da transferência; ocorre, porém que essas duas fórmulas tendem a confundir-se, uma vez dada a importância que Reich confere à detecção e a dissolução da transferência negativa. Sabemos que em relação a Reich, foram-lhe prestadas as devidas homenagens quanto às suas argumentações e aos seus pontos de vista. Foi-lhe censurado no sentido de que sua técnica era demasiado agressiva, além de suas preferências pelas crises, as emoções teatrais, preferências essas que teriam suas raízes em seu amor pela magia.
De forma geral, não é essa a impressão que causam as observações analíticas que conhecemos. Ele se exprime acerca da contratransferência com maior precisão clínica que os trabalhos psicanalíticos da mesma época. A contratransferência sádica foi expressamente descrita.

O realismo clínico de Reich incita-o a rechaçar uma interpretação demasiado crédula da regra do analista-espelho, ou seja, não se pode tratar todos os pacientes da mesma maneira, nem o mesmo paciente da mesma maneira desde o começo até o final do tratamento.

O grande mérito reconhecido de Reich está em ter desenvolvido as implicações do conceito de transferência negativa. Dizem que nisso ele deu provas do mais autêntico freudismo, embora se observe no próprio Freud e nos psicanalistas da época em darem maior ênfase ao aspecto libidinal da transferência, uma vez que nos parece que a importância dada ao conceito de resistência teria reduzido proporcionalmente o da transferência negativa.

Reich também teria se mostrado um discípulo muito coerente de Freud no tocante à questão da técnica e da transferência e a desenvolver as novas concepções sobre os instintos de morte e de agressão. Embora não desconheçamos seus desvios ulteriores, e sua discordância no que tange à construção da teoria que trouxe a Pulsão de Morte para seu interior, ou seja, a definitiva teoria pulsional freudiana. Entendemos, ainda assim, que W. Reich foi um dos que contribuíram para a teoria e a prática do tratamento psicanalítico em sua fase psicanalítica. Sabemos que suas discordâncias teóricas, e, talvez seu posicionamento político tenham tornado insustentável sua continuidade dentro do grupo de psicanalistas de sua época, onde se pode pensar em um Freud já exaurido e preocupado em alinhavar os achados psicanalíticos até ali.

Reich traz o corpo para o setting analítico e funda uma clínica onde sublinha a importância da estrutura do caráter, que dentro de sua concepção, será mais importante do que voltar o foco para os sintomas, desenvolvendo, então técnicas voltadas para a Análise do Caráter e depois para o que ficou conhecido como Vegetoterapia-caractero-analítica(A).

Postulará através dessa, ter observado que o fluxo da energia corporal ocorre no sentido longitudinal, ou seja, de cima para baixo e vice-versa, enquanto que as contrações se formam no sentido transversal. Ainda classifica as couraças musculares formadas por esses sentidos que descreveu, como em sete anéis: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico.

Em sua obra “Análise do Caráter” encontramos ainda toda a questão psicanalítica bastante bem representada.  Na obra de Otto Fenichel sobre a teoria psicanalítica das neuroses, muito bem aceita para toda espécie de estudo sobre a psicanálise, o autor dedica um capítulo ao estudo dos transtornos caracterológicos, citando ali várias passagens da obra reichiana, em uma evidente demonstração de aceitação desta, dentro do corpo psicanalítico, chegando a falar em “caráter do ego”, citando Sandor Rado (International Journal of Phsychoanalysis): “Talvez algum dia, se chegue a ver que os elementos individuais que participam na operação da função sintética são o núcleo daquilo que se pode chamar, em psicanálise, o ‘caráter do ego’”.

A inserção de Reich na psicanálise de sua época pode ser vista como uma contribuição, que será sempre importante situá-la como uma teoria desenvolvida por Reich dentro do contexto do desenvolvimento da psicanálise, assim como do contexto histórico onde esta estava inserida. Por conta dessa necessidade trazemos ao longo desse texto, dados sobre Reich e sua teoria, para que possamos compreender sua concepção de recalque, corpo, transferência e terapêutica.

Wilhelm Reich foi recebido na Sociedade Psicanalítica de Viena quando contava com apenas 23 anos(2), nessa ocasião chegou a causar forte impressão em Freud e outros psicanalistas. Porém, sabemos que em 1929, lançou um manifesto intitulado “Materialismo Dialético e a Psicanálise” onde acusava a psicanálise através de seus adeptos de estar cedendo às pressões sociais e econômicas de então.

Filiou-se ao partido comunista e desenvolveu um programa abrindo seis clínicas para o tratamento sexual para jovens operários.

“A plataforma político-sexual era das mais avançadas: opunha-se às leis que proibiam o aborto, homossexualidade, controle de natalidade e educação sexual. Pregava a liberdade conjugal para presos e o uso de anticoncepcionais  (2)

Reich começa a trabalhar via psicanálise, introduzindo aos poucos o que é conhecido como a análise caracterológica, onde se observariam esses traços, assim como toda forma que se comporta a pessoa, com atenção a essas contrações. A respiração no trabalho reichiano é fundamental.

“Ao bloquear o diafragma diminui-se a possibilidade de prazer. A respiração é a base da própria vida”.  (1 pág. 18)

Seu trabalho era visto com desconfiança tanto pela sociedade e pensadores psicanalistas, como pelo movimento comunista ao qual se ligou, nestes último, por pensarem que o trabalho sobre a sexualidade da juventude poderia desviá-los da verdadeira luta.

Sua discordância em relação ao postulado da Pulsão de Morte marca definitivamente sua separação da psicanálise de Freud. Para Reich toda a questão do sofrimento humano estaria posta pelo uso da repressão, no sentido de impedimento, pelos mecanismos de poder da estrutura social quanto à realização da busca humana de prazer, visto como atrelado ao movimento de expansão e contração e o desprazer ao movimento que impede essa pulsação.

A transferência então assumiria dentro da relação terapêutica o próprio caminhar dessa busca de libertação para a realização da libido em seu objeto adequado, uma vez que repetida e não realizada na figura do analista, se encaminharia para a busca da relação objetal adequada.

Veja-se que para a terapia reichiana a busca se dará no sentido de um restabelecimento do reflexo do orgasmo, ou seja, o restabelecimento de um fluxo energético adequado e contínuo em direção ao que ele nomeou como genitalidade.

De qualquer maneira podemos concordar que:

“Uma coisa é discordar das opiniões de Reich quanto à sua teoria da genitalidade, sua psicossomática ou ainda a tentativa de conciliar Marx e Freud. Outra coisa é ignorar os 14 anos de importantes contribuições à psicanálise, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento da técnica analítica”. (E)

Essa, de qualquer maneira será uma questão a ser trazida para dentro do debate que envolve o desenvolvimento da técnica psicanalítica, e sua derivação de um consistente corpo teórico. A transferência dentro da concepção final proposta por Freud, como o objetivo da psicanálise em sua clínica, é o meio por onde tudo pode acontecer, onde pela repetição seremos encaminhados para a possibilidade interpretativa ou ainda de construção aonde se encontrar fendas ou falhas, impossibilidade de alcançar traços de memória. Entender a temática contida no aparecimento da transferência na forma que se designa como negativa, torna-se bastante importante na prática, no manejo da técnica.

Para Freud toda questão sexual propriamente dita, trazida para a neurose de transferência, estaria classificada dentro da transferência negativa, ou seja, que impede a elaboração pela atividade interpretativa, o paciente ficaria “surdo” diante da atividade da paixão contida nela.

Fato é que hoje, dentro das novas pesquisas e avanços feitos pelo manejo da transferência, poderíamos supor, talvez algo próximo do que Reich demonstrou quanto ao que dizia respeito a essa presença desde sempre, de conteúdos que estariam relacionados ao que se conhece como transferência negativa, e que toda interpretação através da positiva acabaria levando a essa que estaria sempre latente  na relação inicial e que traria à tona a transferência conhecida como negativa na tese freudiana.

Percebemos na prática o “apaixonamento” pela análise que sempre se encontra em sua fase inicial e a subseqüente movimentação da resistência, que denota o curso de uma análise.

“O caráter como um todo reflete o desenvolvimento histórico do indivíduo”.  (III)

Otto Fenichel em seu capítulo sobre os transtornos caracterológicos diferenciará ainda estes das neuroses sintomáticas, mesmo que ainda se questione “se alguma análise existe que não seja ‘análise do caráter’”.  (III)

O que então está posto aqui, enquanto análise da transferência, é que:

“Em sua experiência clínica, a partir da análise do caráter, Reich surpreendeu-se pela intensidade do ódio e rechaço vividos pelos seus pacientes sempre que a condição de caráter era abordada.Essa destrutividade manifestava-se em formações reativas do tipo "paciente cooperativo", etc. Quando essas atitudes eram desmascaradas surgiam intensas experiências de sofrimento e frustração amorosa e erótica.”  (A)

Isso implicará em questionamentos no manejo da técnica que, pensamos, ainda não foram suficientemente discutidos e nos remeterá a toda discordância que se encontrará na teoria reichiana em relação à freudiana a partir, principalmente do postulado da Pulsão de Morte.

Essas são as principais questões levantadas a partir da compreensão da transferência negativa relatada por Wilhelm Reich.

 

Bibliografia

I     Análise do Caráter  – Wilhelm Reich

II    Revolução Sexual    – Wilhelm Reich

III –  Teoria Psicanalítica das Neuroses    Otto Fenichel

IV    Neurose e Classes Sociais    Michael Schneider

 
Revistas:

1 –  ORGON –  Ano I Nº 1   Artigo: “Os segmentos das Emoções”

2 –  Rádice –  Ano 2 Nº 8  – Artigo: Reich na luta

 

Links consultados:

A –  http://www.reich.psc.br/pdf/reich_um_freudiano_radical.pdf

B –  http://teses.ufrj.br/ip_d/joseignaciotavaresxavier.pdf

C –  (ler “Revisando a Tradução do Análise do Caráter”)

http://ibpb.com.br/textos_ricardo.htm

D –http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000032006000100006&lng=es&nrm=iso

E – http://www.comciencia.br/reportagens/psicanalise/psique10.htm
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F  http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932002000300004&lng=es&nrm=is


G –  Livro: Escuta Zé Ninguém
http://www.geocities.com/projetoperiferia4/escutazeninguem1.htm

H –  Instituto:
http://www.orgonizando.psc.br/c/cereich/cereich.htm
            

Autores:  Denise Deschamps & Tovar Tomaselli

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro "Cinematerapia - Entendendo Conflitos".
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