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Não existe esse negócio de “Comunidade Virtual”

Costuma-se falar muito em comunidades virtuais de parceiros de jogos na internet, de comunidades virtuais do Orkut, de comunidades virtuais de alunos em ensino a distância, etc. Mas como pode existir uma comunidade virtual? Estamos falando de um fenômeno comunitário inédito ou de uma nova modalidade de formação de grupos através de tecnologias?

Comunidade Virtual ou Sociedade em Rede?

Manuell Castels, em "A Galáxia Internet", questiona a existência de comunidades de pessoas na internet. Diz o pesquisador, que como a internet não oferece um sentido prosaico de espaço, as relações virtuais não se dão por vizinhança, mas por afinidades de interesses (logo posso me sentir muito mais próximo de um amigo virtual na Alemanha que goste das mesmas músicas que eu do que de um amigo virtual em São Paulo que tenha um gosto diferente). Nesses grupos, prossegue Castells, a amizade/coleguismo é a chave de compreensão da dinâmica social em questão, e não relações verticais de parentesco ou a já citada e determinística vizinhança, como costuma ser em se se tratando de comunidades.

Também não há propriamente convívio nas comunidades virtuais, mas apenas comunicação mediada. Enquanto nas comunidades prevalece um sistema de trocas, muitas vezes por escambo, nas comunidades virtuais o que costuma ocorrer é o compartilhar de informações, que não implica em trocas, mas em cópias distribuídas gratuitamente.

Por tudo isso o fenômeno psicossocial que a maioria prefere chamar de "comunidade virtual" é visto por Castells tão somente como uma nova forma de criação de grupos possibilitada pela telemática. O autor declara que não se trata de uma nova forma de sociabilidade, como muitos se apressaram em preconizar: seria apenas uma nova roupagem da vida social moderna, um reflexo de como já somos no mundo real. Por isso a preferência de Castells por falar em "sociedade em rede" ao invés de "comunidades virtuais".


Anarquia e Poder

A criação do termo "comunidade virtual" ocorreu na pré-história da internet. Por volta de 1960 os cientistas do Departamento de Defesa dos EUA planejavam a ARPANet (ancestral da internet atual) como uma comunidade acadêmica a distância, onde pesquisadores poderiam trocar gratuitamente informações. Logo, o início do termo "comunidade virtual" na verdade é uma referência ao ambiente de pesquisa universitária, do qual definitivamente a internet se emancipou há no mínimo 10 anos.

A comunidade auto-gerida de livres pensadores idealizada pelos cientistas norte-americanos dos anos 1960 tem muito da contra-cultura daquela época, especialmente do conceito utópico de Anarquia enquanto ausência de poder coercitivo e absoluta liberdade auto-determinativa. Nas comunidades virtuais prevaleceria um ambiente horizontal onde todos seriam iguais. Sabemos, contudo, que nas ditas comunidades virtuais de hoje é comum haver papéis de liderança: o Orkut tem owners e moderadores; e as comunidades de ensino a distância têm professores, tutores, etc; e em diversas "comunidades virtuais" de games on line prevalece uma rígida hierarquia de autoridade determinada pelo desempenho no jogo.


Do que estamos tratando, então?

Se não existem comunidades virtuais então como entender pessoas que se comunicam regularmente e se comportam como um grupo na internet?

Castells apenas aponta que esses grupos são reflexos da sociedade real e que são formados pelos mesmos princípios psicossociais que qualquer outro grupo. A maioria dos agrupamentos virtuais bem sucedidos existem por conta de uma dinâmica de grupo bem regulada. Processos de tomada de decisão, liderança, coesão, cooperação e operacionalização. Todos esses elementos integrados e focados nos objetivos do grupo.

Tomemos por exemplo uma "comunidade" do Orkut como "Fãs do Bob Esponja" (da qual eu faço parte). O objetivo maior de todo membro é apenas declarar seu interesse por esse desenho animado ao se adicionar na comunidade. Eventuais trocas de informações sobre Bob Esponja podem ocorrer, mas o sucesso do grupo está tão somente no número de membros que faz parte dela. Já um grupo formal de ensino a distância tem objetivos específicos de aprendizagem, precisa tomar decisões, comunicar-se regularmente, realizar tarefas, tudo visando o objetivo maior de aprender e se capacitar. Nos dois exemplos, contudo, não há elementos que permita declarar se tratar de algum tipo de comunidade: o primeiro é um ajuntamento de fãs de dinâmica difusa; o segundo é um grupo operativo (ambos estudados pela Psicologia Social).

OBS: Além desses dois tipos citados certamente há outras modalidades de agrupamentos virtuais.


Conclusões

Usar o termo "comunidade virtual" para designar as novas formas de grupos sociais na internet é fazer uso de um apelido antigo cujo significado está desatualizado. Se queremos, de fato, entender os processos psicossociais que ocorrem no cyberespaço devemos tratar esses fenômenos partindo de termos e, principalmente, conceitos corretos. Tratar um grupo operativo como se fosse uma comunidade, por exemplo, apenas geraria confusão no proceder tecno-científico.

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