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A nossa Impotência diante do Autismo

Nossa proposta ao realizarmos esse trabalho, é a de percorrer uma jornada através dessa que, entre tantas outras, é uma das patologias com relação às quais nos defrontamos e que se nos apresentam como um enorme desafio e que, concomitantemente, nos trazem as maiores frustrações quanto ao prognóstico.

Pensamos tratar-se muito mais de um artigo de caráter informativo, sem termos nenhuma esperança de estarmos trazendo algo de novo, além de algumas reflexões de caráter pessoal e profissional.

O que vem a ser Autismo: autismo é uma doença grave, crônica, incapacitante, que compromete o desenvolvimento normal de uma criança, e se manifesta tipicamente antes do terceiro ano de vida. Sua característica é a de lesar e de diminuir o ritmo do desenvolvimento psiconeurológico, social e lingüístico. Suas reações às sensações também são anormais, como: ouvir, ver, tocar, sentir, equilibrar e degustar. A linguagem ou é atrasada ou mesmo nem se manifesta. Seu relacionamento com pessoas, objetos ou eventos ocorrem de uma maneira não usual, levando-nos a acreditar que haja um comprometimento orgânico do Sistema Nervoso Central (SNC). O que se sabe é que esse comprometimento está relacionado

a alterações no funcionamento de enzimas que levam as células cerebrais a não funcionarem adequadamente.

A incidência de autismo é considerada baixa, ocorrendo em cinco entre dez mil crianças, além de ser quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas. Estudos mais recentes demonstram que esta doença tem características de herança autossômica recessiva, existindo, portanto a possibilidade de um irmão apresentar algo semelhante, ainda que seja uma hipótese extremamente remota.

Autismo e esquizofrenia: na literatura encontramos autores que consideram o autismo como uma forma precoce de esquizofrenia infantil. Segundo uma das maiores autoridades no assunto: E. Christian Gauderer, formado pela Faculdade Nacional de Medicina do Rio de janeiro e, com um enorme currículo feito no exterior: "pessoalmente, acho que existem mais dados confirmando a hipótese de serem diferentes. A esquizofrenia tem um aparecimento mais tardio, e no autismo o comprometimento é mais geral, inclusive motor. Já na esquizofrenia, a área mais afetada é a do pensamento, além do que o sentir se encontra alterado. Uma outra diferença é que o autista tem um atraso mental e o esquizofrênico não. Conclui-se que o autista é bem mais comprometido que o esquizofrênico."


Abordagem psicoterápica em relação ao autismo:

Devido ao grau de comprometimento do autista, a psicanálise não se encontra indicada. Existem abordagens psicoterápicas que visam uma reeducação, facilitando o contato interpessoal, porém o profissional tem que ter um treinamento específico para desempenhá-las, além de que o funcionamento intelectual cognitivo específico tem que ser levado em conta, para que se possa dimensionar adequadamente a psicoterapia. Na verdade, o tratamento visa a capacitação do sujeito para as funções básicas como vestir, comer, higiene, etc.


A utilização de medicamentos no tratamento:

Muito embora não exista um medicamento determinado para esse tipo de tratamento, existem muito boas respostas com a utilização de fenfluramine, uma droga que visa a diminuição dos níveis de serotonina, um neurotransmissor cerebral. Existem também outros medicamentos não específicos como os antipsicóticos ou tranqüilizantes maiores (major tranquilizer), como a thioridazine (Melleril), clorpromazina (Amplictil), haloperidol (Haldol), os quais atuam controlando os sintomas de auto-agressão, acessos de raiva. Isso visa tornar a criança mais calma, aumentando indiretamente o seu potencial para o aprendizado.


Benefício de uma psicoterapia para os pais:

É absolutamente indiscutível o sofrimento dos pais que tem filhos com problemas desse nível, sendo necessário que obtenham ajuda não só por razões humanitárias, como também para poderem melhor ajudar os seus filhos, já tão necessitados de ajuda. Dessa forma acreditamos que a psicoterapia pode ajudar e muito a esses pais, propiciando-lhes a possibilidade de compreensão, discussão e entendimento, além de poder trazer à tona sentimentos universalmente presentes, como negação, culpa, frustração, impotência, ressentimento, raiva, além de outras tantas fantasias presentes.

Sabemos que Freud, em "Introdução ao Narcisismo", trabalho fundamental de 1914, denominou a criança de sua majestade a criança (his majesty the baby), além de enfatizar que os pais de forma geral, tentam, através de seus filhos, recuperar o seu próprio narcisismo perdido. Aqui surge a pergunta: "Que narcisismo perdido esses pais dessas crianças poderão tentar recuperar, se além de seu narcisismo perdido, terão que acrescentar uma enorme "ferida narcísica" pelo fato de terem tido filhos com esse nível de problemática?". Queremos enfatizar também que além das fantasias citadas acima, numa enorme quantidade de casos, existem também presentes fantasias de cunho agressivo dos pais em relação a essas crianças. Nesse sentido, uma abordagem psicoterápica poderá muito lhes auxiliar ao poderem dar-se conta de que não é pela existência desse tipo de fantasias agressivas, que os tornam menos pais ou mesmo que amem menos a seus filhos, mas sim que sua existência faz parte do interjogo de variáveis de uma problemática desse porte. Isso, além do fato de que, muitas vezes, a raiva e a hostilidade são um dos lados de uma mesma moeda, na qual de outro lado estão a depressão, a tristeza e o desânimo frente a um tipo de desventura de que a vida os fez reféns.


Bibliografia Consultada Preferencialmente:

E. Christian Gauderer, EC – Autismo: uma atualização para os que atuam na área, do especialista aos pais. Editora Almed.

A Transferência e os Roteiros de Infanticídio – artigo publicado em 11/12/07, no item "Colunistas" do site da RedePsi.

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