Psicologia e Acupuntura – Ciência e Tradição

A Acupuntura ramo da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) vem sendo amplamente absorvida pelos profissionais da saúde ocidentais, que buscam uma compreensão e terapêutica baseadas na visão holística destas abordagens.

A partir da resolução do CFP (Nº 005/2002) a Acupuntura torna-se mais uma estratégia terapêutica no leque profissional do psicólogo brasileiro. A criação da Sociedade Brasileira de Psicologia e Acupuntura (SOBRAPA) em 28/06/2002 e seu reconhecimento pelo Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB) e do Conselho Federal de Psicologia (CFP) promoveram um rápido desenvolvimento do ensino, pesquisa e extensão da Acupuntura em Psicologia. As consequências destas ações já são visíveis na quantidade de contribuições científicas que foram apresentadas no "I Congresso Latino-Americano da Psicologia (ULAPSI)" em São Paulo – SP (2005) e no "II Congresso Brasileiro da Psicologia: Ciência & Profissão – Enfrentando as dívidas históricas da Sociedade Brasileira" em São Paulo – SP (2006) que contaram com mais de 30 apresentações de psicólogos-acupunturistas.

A Acupuntura como método terapêutico milenar é baseado nas concepções cosmogônicas da antiga cultura chinesa. Como um dos ramos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) com mais de 5.000 mil anos de história, a Acupuntura baseia-se em três grandes princípios: (1) o homem é estudado como indivíduo completo; (2) o homem responde ao Céu e à Terra (noção do Yin e do Yang) e (3) a vida do homem é regida pela regra dos Cinco Elementos (noção de concordância).  

1- O homem é estudado como indivíduo completo

A medicina grega (Hipócrates) também via o homem como um todo. O meio ambiente, a dieta e suas emoções faziam parte da avaliação e cuidados médicos. Há pelo menos 100 anos no ocidente, a psicologia influenciou profundamente a medicina atual com teorias sobre o papel das emoções, pensamentos e comportamentos no processo de saúde-doença. Diversas abordagens, tais como: psicossomática, psicofisiologia, psicologia médica, psiconeuroimunologia etc. enfatizam o modelo biopsicossocial defendido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e a conexão mente-corpo passa a ser estudada com profundidade e através das metodologias científicas atuais.

2- O homem responde ao céu e à Terra

Para a Acupuntura (MTC) a energia vital (QI) é incluída na ídéia de unidade, base da filosofia e da MTC. Tanto o macro, quanto o microcosmo são regidos pelo QI (energia vital, sopro) que se manifesta em duas formas diferentes e complementares: a energia Yang (ex. positivo, forte, dinâmico, quente, claro, leve, homem) e a energia Yin (ex. negativo, fraco, estático, frio, obscuro, pesado, mulher). A MTC incorporou o princípio do Yin-Yang para explicar a fisiologia e a patologia humanas, considerando o corpo um todo organizado, composto de duas partes ligadas intimamente, porém opostas. Por exemplo, o coração, como estrutura anatômica é Yin, enquanto os batimentos e a circulação do sangue são Yang. No livro "Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo – Nei Jing" (475-221 a.C.) o processo saúde-doença é resultado do equilíbrio entre as energias Yin-Yang.

3- A vida do homem é regida pela Teoria dos Cinco Elementos

A teoria dos cinco elementos (madeira, fogo, terra, metal e água), fundamentada na observação e interpretação dos fenômenos da natureza, em que cada órgão tem suas funções representadas pelo elemento correspondente, como, por exemplo, o coração que, relacionado ao estado mental, é representado pelo Fogo, que, por sua vez, interfere na função do baço-pâncreas; e este é responsável pela re-absorção de nutrientes do organismo, equivalendo à Terra, produtora de alimentos, e assim por diante. Desse modo, um indivíduo estressado ou ansioso registra como consequência o aumento do apetite – logo é dito como "o Fogo (coração) afeta a Terra (baço)".

A acupuntura é uma modalidade terapêutica que se utiliza de agulhas, moxas, massagem e outros instrumentos nos acupontos, atualmente se descobriu que estes métodos agem por meio da liberação de substâncias químicas no organismo. Como conseqüência, produz efeito analgésico e/ou antiinflamatório, aliviando assim a dor e outros sintomas decorrentes de determinadas doenças. A ciência atual vem apenas confirmando muitas das afirmações milenares da Acupuntura, ainda existem muitos mistérios que a ciência não consegue explicar. A visão da Acupuntura tradicional chinesa, baseada nas concepções de energia vital (QI), Yin-Yang e Cinco Elementos continuam a fundamentar a prática da acupuntura no mundo.

A Organização Mundial da Saúde (1979) apóia e recomenda a utilização da Acupuntura para diversas doenças, entre elas: ansiedade, depressão, insônia, neurose e nervosismo, doenças cardiovasculares, dor crônica, doenças psicossomáticas etc.

Como a idéia central da Acupuntura é conseguir fortalecer a pessoa como um todo (biopsicossocial), equilibrando a energia vital, através de estímulos sobre os acupontos, a resolução do CFP (005/2002) possibilita ao psicólogo-acupunturista associar mais este recurso terapêutico para o re-equilíbrio do ser humano.   

A relação entre a Psicologia e a Acupuntura também é defendida por acupunturistas de renome internacional, tais como:

Jeremy Ross – “Quando o acupunturista for treinado e experiente nessas modalidades, o aconselhamento e a psicoterapia podem ser integrados ao sistema, caso sejam apropriados às necessidades do paciente. O autor realmente acredita que um dos desenvolvimentos mais promissores da acupuntura é a combinação flexível do trabalho de energia, meditação e aconselhamento” (2003, p. 5).

Giovanni Maciocia – "Assim, a Acupuntura apresenta uma influência profunda sobre os problemas emocionais e mentais, mas com limitações. No que se refere a problemas graves de ordem mental, a Acupuntura somente poderá auxiliá-los se combinada com o trabalho de um psicoterapeuta adequadamente treinado” (1996, p. VIII).

About Armando Ribeiro

Coordenador do Programa de Avaliação do Estresse do Check-up do Hospital São José – Beneficência Portuguesa de São Paulo. Professor convidado e supervisor clínico de Terapia Cognitivo-Comportamental da USP e UNIFESP.

Comments are closed.