O papel da música em instituições de longa permanência para idosos

Existem hoje cerca de 15 milhões de idosos concentrados nas cidades do país, submetidos e mais vulneráveis que os demais adultos aos impactos do ambiente urbano e da cidadania incompleta.
O envelhecimento da população requer políticas de saúde específicas para esse segmento, voltada para manutenção da capacidade funcional do idoso, como alerta Romano Veras (2000): Quando o idoso procura o serviço de saúde é preciso priorizar a prevenção, preferir os cuidados familiares às internações e buscar o acompanhamento de um cuidador para o idoso.

Em nossa sociedade , quando idosos necessitam de cuidados, seus familiares normalmente assumem o papel principal, pois culturalmente cabe a eles assumir tal responsabilidade, mas, frequentemente, membros dessas famílias enfrentam diversas dificuldades relacionadas à complexa tarefa de cuidar de seus enfermos, sendo a comunidade então desafiada a participar do atendimento a essas demandas.

A internação do idoso vai surgindo como única alternativa a distintas situações: estresse e esgotamento físico do cuidador, depois de longa doença do idoso, falta de tempo, intolerância em relação a velhos. A impossibilidade de lidar com tais situações podem levar famílias a optar pela institucionalização.

Com a decisão da internação, o idoso enfrenta sérias mudanças em sua vida cotidiana. Entram em cena inúmeros fatores de desestabilização, desde a existência de novas regras e normas do cotidiano até a convivência diária com outras pessoas até então desconhecidas e que não foram escolhidas para compartilhar sua vida.

A instituição, por melhor que seja, exclui o individuo da sociedade, o idoso perde o vinculo com o mundo, com seus vizinhos, seus amigos, lugares preferidos e atividades preferidas.

Com o afastamento de suas atividades e rotina, da convivência diária com seus familiares e amigos, os idosos se sentem isolados, sós, sua auto-estima diminui, sentem-se desvalorizados, chegando à perda da identidade.
    
Junto aos desafios do envelhecimento buscam-se novas modalidades de tratamento que ao se unirem em uma equipe multidisciplinar atuam como coadjuvante do tratamento médico e vem conquistando resultados positivos, pois objetivam tratar o velho em sua totalidade, unindo estrutura física e mental. Dentro desse contexto, a utilização da música mostra-se um tratamento eficaz na elaboração e resolução dos conflitos internos e emoções, trazendo-os à tona, podendo então ser expressos por meio da música. Além de ser um estímulo potente para a evocação de lembranças e reavivamento de fatos inconscientes que ampliam o significado do “ser velho”.
    
A memória, reativada pela música, faz a senescência ser encarada como tempo de lembrar. Momento em que o idoso pode reconstruir e reviver passagens significativas de sua mocidade e resgatar sua identidade.
    
Lembrar, não é só reviver, mas refazer, reconstruir, repensar com as imagens e idéias de hoje as experiências do passado. Memória não é sonho, é trabalho. Esse trabalho que emerge, através do fazer musical, além do prazeroso, os leva a elaboração consciente do material inconsciente que surge, impulsionado pela música. Em ILPI’s, todo esse trabalho é bastante significativo e desafiador pois a música tem o papel de aumentar a auto-estima desses idosos frente às suas potencialidades e de mostra-lhes que são úteis dando a esperança de uma melhora através desse “tratamento”.
    
O idoso quando presencia o declínio e impotência de sua estrutura física, ou seja de seu corpo, acaba deixando de realizar projetos e isto consequentemente contribui para a diminuição da auto-estima e em alguns casos para o surgimento dos sintomas da depressão, que está presente em 49% dos idosos que vivem em instituições de longa permanência. Isto geralmente tem relação com abandono da família, solidão. Desvalorização, dependência, perda dos papéis sociais.
        
A utilização da música como terapia, como lazer e ocupação em instituições de longa permanência para idosos é fundamental para prevenir, reabilitar, readaptar o individuo biopsicossocialmente, promovendo sua saúde mental através do canal som-música-emoção e junto a outras profissões em um trabalho multi e inter disciplinar promover uma melhora na qualidade de vida do idoso, trabalhando com respeito, valorizando sua história, suas angústia e frustrações e dando espaço para que esse idoso se expresse através da música.  

Referências

BARANOW, Ana Lea. Musicoterapia uma visão geral. Rio de Janeiro: Enelivros, 1999.

SOUZA, Márcia. G. C. Musicoterapia e a clínica do envelhecimento. In Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 2002.

DEBERT, G. G. Velhice ou Terceira Idade? Rio de Janeiro, Ed. FGV, 1998

RUUD, E.: Música e Saúde. São Paulo, Summus, 1991.

TAME, D.: O poder oculto da música. Rio de Janeiro, Cultrix, 1997

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