O adolescente e o stress


O adolescente e o stress

Por: Gisele Cristine Tenório de Machado Levy
Mestre Educação UERJ – Psicologa
www.giseletlevy@hotmail.com

A adolescência é uma etapa do desenvolvimento humano caracterizada por alterações físicas, psíquicas e sociais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o adolescente é aquele indivíduo que se encontra entre os dez e vinte anos de idade. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, estabelece no Art. 2º o seguinte: “… Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade…”. Atualmente o conceito mais aceito é o de que não existe adolescência e sim adolescências em função do panorama político e social do momento. Nesse sentido o tema do stress na adolescência vem chamando a atenção dos especialistas. Devido às mudanças drásticas que estão ocorrendo em diversos setores da sociedade, os casos de stress nesta população são quase comparáveis a média registrada entre os adultos.

A adolescência é um dos períodos mais importantes da vida do indivíduo, é nela que a criança se transforma em adulto, delimitando seu potencial psicológico, físico e social. Na evolução da infância para a fase adulta, o indivíduo atravessa muitos estágios, devido ao crescimento acelerado de seu corpo acompanhado pelo funcionamento vigoroso dos sistemas endócrino e nervoso.

Os aspectos físicos da adolescência, como crescimento e maturação sexual, são componentes da puberdade, vivenciados de forma semelhante por todos os indivíduos. Mas no que tange às dimensões psicológicas e sociais, estas são vivenciadas de maneira diferente em cada sociedade, geração e família. E nesse contexto, onde a subjetividade e os aspectos sócio – culturais assumem um caráter significativo, que pode surgir o stress do adolescente. Nesta fase ocorrem períodos de extrema instabilidade emocional, é o momento em que o novo se faz presente, através do surgimento de um novo corpo, novas idéias, relações e experiências. A busca por uma identidade torna-se questão de honra e para isso é necessário desafiar as autoridades e as regras.                        

Ciulla (1976) aponta que há 6000 anos atrás um certo sacerdote egípicio já se referia ao comportamento adolescente com um certo pesar, ele escreveu que “…Vivemos numa era de decadência onde os jovens já não respeitam mais os pais. São grosseiros e impacientes…”. Parece que de lá para cá nada mudou, as queixas sobre o comportamento do adolescente são milenares. 

Essa fase turbulenta por vezes é caracterizada por crises religiosas, conflitos familiares, principalmente no que se refere às questões relacionadas à imposição de limites, agressividade, introspecção e dificuldades sexuais.
           
A presença do stress na adolescência é capaz de intensificar este quadro, Arnett (1999) considera que apesar de que nem todo adolescente tem stress, a probabilidade de desenvolvê-lo é maior na adolescência do que em qualquer outra faixa etária, dependendo da cultura e de diferenças individuais existentes (CALAIS ET AL 2003).

Nesse período existe uma predisposição ao desenvolvimento de quadros patológicos e fatores ambientais desfavoráveis podem ser responsáveis por desencadear alguns desses processos, manifestados por estados depressivos, fobias, comportamentos obsessivos – compulsivos, consumo de bebidas alcoólicas e drogas. 

O` Gata (2004) afirma que a modernidade trouxe muitos benefícios e avanços para a sociedade, mas junto com eles, vieram uma série de pressões, vida acelerada, tensão constante, desafios, competições e a violência. Não é de hoje que a adolescência é reconhecida por ser caótica, rebelde e inovadora, porém é necessário considerar que ao fazer parte de uma sociedade que esta em constante transformação, todos os seus integrantes,  inclusive os adolescentes, sofrem com as conseqüências desse estado.             

As mudanças drásticas que vem ocorrendo em diversos setores, valores éticos, econômicos e políticos, e o crescente fenômeno da globalização, que se alastra através do mundo todo, têm um papel determinante na evolução do stress entre todos os indivíduos, inclusive dos adolescentes.           

A organização mundial de Saúde alerta que as doenças neuropsiquiátricas atingem uma a cada quatro pessoas em todo o mundo, chegando a 40% se forem incluídos os distúrbios ligados ao stress. Além disso, de cada dez adolescentes, estima-se, três são vítimas do stress. É quase a média registrada entre os adultos – 50%.            

Apesar desses dados alarmantes, poucos estudos têm se dedicado à investigação do stress no adolescente. Mulatu (1995) em uma pesquisa com crianças de 6 a 11 anos da Etiópia, pesquisou 317 meninas e 294 meninos, para verificar a prevalência de fatores psicopatológicos nessas crianças, gerada pela situação de carência vivida pelo país. O estudo revelou que, em ambas as amostras, existiam problemas como: agressividade, incomunicabilidade, ansiedade, depressão, hiperatividade, imaturidade e delinqüência. A presença dos sintomas de stress foi verificada em 21,45% dos meninos e 25,17% das meninas.           

Dessa forma, considerando-se que a adolescência se constitui em uma população suscetível e influenciável às estimulações externas psicossociais, conhecer como o stress se manifesta neste grupo é de fundamental importância para os próprios adolescentes, pais e professores.  

Fatores contribuintes para o stress do adolescente

A palavra stress foi empregada inicialmente pela física, para traduzir o grau de deformidade sofrido por um material quando submetido a um esforço ou tensão. O médico endocrinologista Hans Selye (1936) transpôs este termo para a medicina e biologia, definindo o stress como síndrome de adaptação.            

Segundo a definição de Lipp (2004), o stress é uma reação normal do organismo e indispensável para a sobrevivência, caracterizando-se por ser um processo complexo, com componentes psicobioquímicos e que tem seu mecanismo desencadeado em resposta a uma necessidade significativa de adequação, frente a um estímulo estressor. Em doses moderadas fornece motivação e o aumento da produtividade, mas em doses excessivas resulta em destruição e desequilíbrio orgânico, prejudicando a qualidade de vida, atingindo as áreas social, da saúde e profissional.           

De um modo geral, para que ocorra uma situação de stress é necessária à influência não apenas de um único fator, mas de vários fatores. Estes irão se constituir numa fonte de pressão que levará a angústia do indivíduo e do sistema que o cerca (família, grupo de amigos e escola), desencadeando um estado crescente de tensão e desequilíbrio.  
           
As circunstâncias que contribuem para o desenvolvimento do stress nos adolescentes  podemos sem classificadas em dois tipos, os fatores externos e internos. Os fatores externos são aqueles relativos ao meio social em que vivo o indivíduo, são eles, exigências familiares, grupos de amigos, excesso de responsabilidades, exames escolares, escolha profissional, violência, padrões rígidos de beleza, entre outros.
           
Quanto aos fatores internos, são aqueles que se referem às características pessoais de cada um, como a vulnerabilidade biológica e psicológica, representada por certa predisposição a depressão, perfeccionismo e senso de responsabilidade exagerados e baixa auto–estima.
           
É importante lembrar que relatos de agitação, euforia, insatisfação, queixas constantes, presença do sentimento de falta de compreensão e um desconforto com as mudanças que estão ocorrendo com o próprio corpo, são comuns nesta fase da vida, não representando necessariamente um sintoma patológico. Porém é preciso cautela ao banalizá-los.
           
Quando o adolescente começa a apresentar determinados comportamentos, que de uma forma ou de outra estão afetando negativamente suas relações cotidianas é preciso averiguar. Se com relação ao grupo de amigos, ele preferir ficar sempre sozinho no computador, ao invés de sair para encontrá-los, na escola, ficando muito isolado, envolvido em confusões e apresentando baixo rendimento escolar, e na família, evitando de toda o contato com os pais, é preciso investigar a possibilidade de ele estar apresentado um quadro de stress.
 

Sinais do stress no adolescente

Um dos principais sintomas observados nos consultórios dos especialistas é a presença constante do quadro de insônia. Este fenômeno gera inquietação por que nesta fase do desenvolvimento, o funcionamento fisiológico e psicológico de seu corpo é muito intenso, por este motivo, o adolescente apresenta muita necessidade de sono para poder recarregar suas baterias para o dia seguinte. Além da insônia outros sintomas podem ser observados, tais como:
 
* Desânimo,
* Impaciência,
* Dores de cabeça,
* Falta de concentração,
* Cansaço excessivo ou entusiasmo exagerado e repentino,
* Uso de drogas
* Isolamento social.
 
Há solução para o stress?      
Não existe uma receita infalível, principalmente no que se refere ao adolescente, mas alguns passos podem ser adotados como medidas de preventivas ou de enfrentamento dependendo do caso.
    
* Alimentação saudável.    
* Atividades físicas e em grupo.
* Controlar o uso do computador, estipulando um tempo para seu uso.
* Sempre que possível o adolescente deve estar ao ar livre, em contato com a natureza.
* Ter um espaço junto aos pais, escola ou amigos, onde o adolescente possa se sentir seguro para expor seus medos e angústias.
* Aprender técnicas de relaxamento.
* Evitar o uso de medicamentos, álcool ou outro tipo de drogas, tais recursos podem mascarar o stress, e não irão auxiliar no tratamento do problema.  No caso do stress já estar instalada é recomendado procurar um especialista, psicólogo ou psiquiatra, para uma avaliação e se necessário um acompanhamento psicológico.  

Considerações finais

A adolescência é uma fase de rara beleza, nela tudo floresce, o corpo, as possibilidades intelectuais, o sexo e a vida nessa etapa é experimentada de forma urgente e intensa. Mas não nos esqueçamos que em pleno séc. XXI, este indivíduo é arrebatado por centenas de conceitos, modismos, crises econômicas e tudo mais, pois é um cidadão do mundo e como tal sofre todas as desventuras advindas desta realidade. Portanto, nada mais justo que oferecer a esses futuros adultos suficientes condições para que possam usufruir de um estilo de vida produtivo. E para isso uma das opções é que pais, educadores e o próprio adolescente, tenham conhecimento sobre as questões pertinentes ao stress, suas causas, sintomas e possíveis soluções. Dessa forma estaremos trabalhando juntos para que ele possa seguir em frente em condições de usufruir de forma criativa e inovadora sua bela jornada de vida.    

Referências bibliográficas

CALAIS, S.; ANDRADE, L.B. e LIPP, M. E. N. ( 2003).  Diferenças de sexo e escolaridade na manifestação de stress em adultos jovens.  Psicologia: Reflexão e Critica, vol.16, no.2.  RS, Porto Alegre.
CIULLA, L. (1976). SAÚDE MENTAL: nas etapas da vida. RS, Porto Alegre: Movimento.Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei 8.069/90 – Apresentado por Sírio Darlan (Juiz da 1ª.). Vara da Infância e da Juventudo. Rio de Janeiro: DP&A, 4ª. Ed, 2002.
GATA, A O. (2004).  Prefácio. In: LIPP, M. E. N. (org.). O STRESS NO BRASIL: Pesquisas avançadas. Campinas, SP: Papirus.
PEREIRA, A. I. (2005). Stress escolar percebido pelo aluno.  Revista Bienal, Ed. 7.
ZAGURY, T. (2000) Limites sem trauma. RJ, Rio de Janeiro: Record. 

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