Pitágoras, “o bruxo grego”

Origem do Daimónion

Em breve perfil sobre a vida de Pitágoras, tem sido impossível deixar de nos atermos a fatos incontrover­sos porque, como é comum no caso de figuras do mundo primitivo, os fatos são tão escassos que poderiam ser contidos em poucas sentenças. Neste caso, nem mesmo os fatos de que dispomos estão livres de certa dose de controvérsia. Em vez de seguir uma única linha de informação, prefiro apresentar as diversas versões oferecidas por aqueles cujas credenciais são mais dignas de confiança, indicando, sempre que possível, a razão pela qual, em minha opinião, uma deve ser preferida sobre as outras.

Pitágoras, além de ser o professor de um sistema filosófico, era considerado profeta. Durante o Renascimento, o título de mago era aplicado a ele de uma forma bastante liberal. Na verdade, a palavra nada mais é do que um eufemismo para "mágico" e, em grego, onde se encontra sua origem, ela significa precisamente isso. A palavra era empregada na Europa do século XV porque a magia lembrava a bru­xaria e a conjuração dos maus espíritos, que não apenas a colocava além dos limites da intelectualidade respeitável, mas também podia atrair a ira da Igreja. Um dos grandes desapontamentos do Renascimento esteve no fato de que a revolução nas crenças religiosas que ele havia forjado não estendia uma tolerância muito grande na direção do ocultismo. Neste aspecto, assim como em muitos outros, a Igreja reformada mostrou-se tão obstinada como a não-reformada.

A característica principal do mago era o seu relacionamento especial com as forças universais – os elementais – que lhe permitiam comunicar-se e até unir-se com elas. Ele via, sentia e ouvia coisas intan­gíveis, invisíveis e inaudíveis por outras pessoas. Podia dirigir-se aos membros do mundo animal e, por esse meio, exercia poder sobre eles.

Essa capacidade por certo estava compreendida no título de dai­mónion, que se deu a Pitágoras, com a finalidade de expressar o favor demonstrado a ele por ApoIo, cuja marca ele carregava em sua famosa "coxa dourada".

Existem alguns sinais por meio dos quais, em geral, as pessoas escolhidas pelo destino são reconhecidas por seus semelhantes. De ma­neira invariável, sua chegada ao mundo se faz acompanhar de algum acontecimento maravilhoso. O nascimento de Buda foi anunciado no sonho de sua mãe, Maia, em que o sagrado elefante branco tocava o seu lado esquerdo com um lótus. O nascimento de Cristo, filho do Espírito Santo, foi anunciado pelo anjo Gabriel. No caso de Pitágoras, encontramos sua mãe, Parthenis, a virgem, tornando-se grávida pela intervenção de ApoIo.

Em geral é esperado que estes seres refinem os seus dons inatos através de um longo e difícil período de aprendizado, a iniciação, sob a orientação daqueles que possuem conhecimentos secretos e esotéricos. Assim, nós encontramos Pitágoras partindo para suas viagens, em uma ausência de vinte anos de duração que corresponde ao período de aprendizado dos druidas, dos brâmanes e dos magos. A ausência de Cristo foi de dezoito anos.

O aprendizado sempre é coroado por um tempo de contempla­ção solitária. Foi por intermédio da contemplação meditativa que Buda conquistou a Iluminação, ao passo que Cristo passou os seus quarenta dias e quarenta noites no deserto. A experiência que se registra é de fome, sede e terríveis alucinações, levando de maneira gradual à fusão com as forças do meio. Culmina em uma morte e renascimento ritualizados, eventos que são simbolizados no batismo cristão e na circuncisão judia. No caso de Pitá­goras, o período de contemplação teve lugar em Creta, onde ele foi ini­ciado nos rituais secretos do Zeus do monte Ida.

Poderes mágicos

A verdadeira magia mostra suas credenciais através dos mila­gres que realiza e, também nisso, Pitágoras vai ao encontro das expecta­tivas. A descrição disponível dos atos que ele teria supostamente realiza­do não se limita apenas às fontes mais ingênuas. Seus atos chegam a ser mencionados por Aristóteles, apesar de que, como sua obra sobre Pitá­goras desapareceu no tempo, não temos como determinar o seu grau de ceticismo a respeito.

Afirma-se que, uma vez, ao cruzar um rio, o genus loci teria gritado: "Ave, Pitágoras!"

Em outra ocasião, quando uma serpente venenosa atravessou o seu caminho, ele a teria apanhado com as mãos e matado com uma mor­dida. Mas nem todos os seus contatos com membros do mundo animal eram tão fatais para essas criaturas. Quando os soldados de Sybaris apa­nharam uma serpente, ele a libertou. Em Croton, estabeleceu uma ami­zade tão grande com uma águia que a ave se aproximava todas as vezes que ele a chamava e permitia que acariciasse sua cabeça. Uma vez ele sussurrou alguma coisa na orelha de um touro que estava a ponto de alimentar-se em uma plantação de feijão, e o animal obedeceu sua ordem e afastou-se. Em outra oportunidade, teria ensinado um urso a não comer carne, e o animal teria imediatamente abandonado o deplorável costume.

Na verdade, estas últimas duas histórias procuram transmitir uma mensagem moral consistente com o ensinamento pitagórico, já que era tabu comer carne ou feijão. As lendas em questão também podem ser interpretadas como indício de que Pitágoras tinha conhecimentos de hipnotismo. Os heróis capazes de colocar os animais em transe são abun­dantes na mitologia e nas lendas de todo o mundo, e a atribuição desta habilidade a Pitágoras serve para reforçar o ponto de vista de que ele era possuidor de poderes ocultos.

Mas, ao mesmo tempo, os milagres pitagóricos também tinham um significado alegórico mais profundo. A água era vista como um ser vivo, e as lendas na qual ela fala ou é agente de atos maravilhosos são particularmente comuns entre os povos indo-europeus. Muitos dos deu­ses celtas eram associados com a água, e, segundo Heródoto, os magos sacrificavam cavalos brancos aos deuses de seus rios.         

A narrativa sobre o ato de matar uma serpente também pertence à mitologia primitiva. Um caldeirão de prata de origem indiscutivelmen­te celta, encontrado na Dinamarca, mostra em um dos seus painéis a imagem de um deus segurando uma serpente em sua mão esquerda, como se a estivesse estrangulando. E não devemos nos esquecer de que Apolo tomou posse do santuário oracular de Gaia depois de destruir a Píton, ao passo que, para Orfeu, a serpente foi a criatura responsável pela morte de sua mulher, Eurídice.

Assim como a serpente é vista como um habitante do mundo inferior, a águia é uma criatura dos céus e, sendo o pássaro que podia voar mais alto do que qualquer outro, era sagrado para o deus do céu, Zeus, que sempre a empregava como sua mensageira. Mas esta idéia tampouco é uma exclusividade grega. Ela ocorre também na Escandinávia e nas terras célticas. Geoffrey de Monmouth refere-se a uma ilha em Loch Lomond, onde se encontravam sessenta ninhos de águia, aos quais elas se dirigiam "juntas todos os anos para prever qualquer acontecimento prodigioso que estivesse a ponto de ocorrer no reinado".

O touro, por sua vez, é o animal vinculado à imagem de Dioní­sio, sendo a criatura na qual ele entrava durante as festas a ele dedicadas e através da qual, comendo sua carne, os seus adoradores absorviam a divindade do deus. Também é uma das manifestações do mesmo deus nas Rapsódias Órficas.

E o urso, apesar de ser uma raridade na mitologia grega, tam­bém está vinculado a Apolo, através de sua irmã, Artêmis, cujo nome contém o elemento urso, Art-. Durante um ataque de ciúme, ela transfor­ma sua ninfa Kallisto em um urso, e as jovens que serviam em seu tem­plo, em Atenas, eram carinhosamente chamadas de "pequenas ursas". Apesar de ser identificada em primeiro lugar com a lua, isto parece vin­culá-Ia também com a constelação da "pequena ursa" (a Ursa Menor), o que não é de todo improvável, considerando a existência de laços seme­lhantes entre seu irmão e a "grande ursa" (a Ursa Maior), em especial em sua manifestação hipérbore.

Como prova de que Pitágoras de fato era um daimónion para sua própria época, da mesma forma que passou a ser considerado um mago nos períodos posteriores, as histórias a respeito de seu domínio sobre os animais servem à dupla função de demonstrar um dom mágico específico, assim como o seu íntimo relacionamento com as deusas e deuses irmãos. Ao mesmo tempo, outras habilidades de natureza oculta eram atribuídas a ele. Ele fazia horóscopo, uma arte que lhe teria sido ensinada por Anaximandro, supostamente o primeiro grego a ter essa habilidade. No entanto, é bastante provável que a tivesse aprendido du­rante suas viagens pelo oriente. Os sacerdotes magos e babilônios eram destacados neste campo, e é crença geral que estes últimos, em particular, teriam sido os inventores do zodíaco, tendo dado às várias constelações os nomes que ainda usamos.

Sobre Pitágoras, dizia-se ainda que possuía poderes como os de Orfeu, que conseguia mover rochas apenas com o poder da mente ou pelo efeito de sua música. Algumas vezes isto é interpretado como psico­cinese, apesar de os exemplos de que dispomos serem bem diferentes do fenômeno conforme é hoje reconhecido, sendo mais provável que se destinava a servir como prova da doutrina de que "os semelhantes se conhecem"; em outras palavras, de que toda a natureza era formada por um único elemento de união, que certos indivíduos especialmente dota­dos eram capazes de influenciar. Como se sabe, Thales realizava expe­riências com pedra-ímã e com o âmbar, elementos dotados da característica de poder atrair outros corpos, para demonstrar isso. A pe­dra-ímã e o âmbar também estão vinculados a Apolo. A primeira por causa de seu poder de indicar o norte, que era onde ficava a terra de nascimento do deus, e o segundo por causa de sua coloração dourada e seu misterioso caráter de "pedra que queimava", já que todo fogo era considerado como derivado do sol. Como conseqüência, o âmbar era quase sempre chamado de "lágrimas de ApoIo". Os habitantes das margens do Báltico, onde o âmbar é encontrado, eram tidos como dotados de afinidades especiais com Apolo, e Tácito fala jocosamente da crença supersticiosa dessa gente, de que podia ouvir o barulho feito por ApoIo pela manhã, quando ele surgia do meio das ondas, com a cabeça coroada pelos raios do sol.

Mas temos ainda de considerar dois outros atributos de Pitágo­ras. Um deles é a crença na transmigração da alma. Apesar do que Heró­doto afirma, a crença não existia entre os egípcios ou os persas. Portanto, é possível deduzir que Pitágoras a tivesse aprendido com os druidas cél­ticos. A crença druídica tinha duas formas. Em sua constituição mais moderna e refinada, restringia-se a determinados heróis que, depois da morte, não entravam em outro corpo, mas "dormiam" até que alguma grande crise nos assuntos do povo os chamasse da sepultura. Esta idéia talvez tenha sido copiada dos citas, que influenciaram os celtas de muitas maneiras e que enterravam os seus chefes tribais em carruagens com cavalo e tudo, em seu fardamento militar e levando consigo as armas, como se estivessem preparados para uma volta futura.

A forma mais antiga e primitiva da crença parece ser anterior à descoberta do vínculo entre o intercurso sexual e a concepção. Segundo tudo indica, uma mulher ficava grávida quando algum espírito, desaloja­do pela morte, entrava no corpo dela, valendo-se de todos os subterfúgios e artimanhas para conseguir isso – disfarçando-se de mosca, que era engolida por acidente em uma xícara, ou assumindo a forma de um pe­daço de comida.

A crença nos espíritos dos mortos vagando à procura de um novo lar, que era conhecida como animismo, ainda hoje pode ser encon­trada e, sem dúvida alguma, era geral nos períodos primitivos da história humana. Assim, é bastante provável que, na Grécia, estas idéias estives­sem entre aquelas transformadas e sistematizadas pelo cuidado reformis­ta de Orfeu, da mesma forma que, na Índia, foram transformadas primeiro pelo hinduísmo e depois pelo budismo. Assim, o orfismo, e não o druidismo, talvez tivesse sido a fonte do ensinamento pitagórico.

Claro que a crença na transmigração da alma não está restrita aos sistemas esotéricos ou ocultos, apesar de ser freqüentemente encon­trada nestes contextos. No entanto, temos razões para concluir que as descrições das existências anteriores de Pitágoras destinavam-se a refor­çar a afirmação de que ele era um daimónion.

Da mesma forma que Apolônio de Tiana, supõe-se que ele era anamnésico, isto é, capaz de recordar todas as suas vidas anteriores. He­ráclides de Ponticus (cerca de 390 a.C.), diz que esse dom tinha sido concedido a um ancestral como pagamento por algum favor prestado ao deus Hermes. A primeira encarnação de Pitágoras teria sido como Aethalides, e a seguihte como o herói Euphorbus, de Homero, ferido por Menelau em Tróia e capaz de lembrar as existências intermediárias como plantas e animais, assim como suas permanências no mundo inferior, entre as diversas vidas. Depois, teria sido Hermótimus de Klazomenai, que era capaz de dar provas de sua existência anterior como Euphorbus por meio da identificação do apodrecido escudo de Menelau, no templo de ApoIo em Brachidae. Daí, ele nasceu na figura do pescador Pyrrhus, de Delos. Finalmente renasceu como Pitágoras.

Temos de comparar tudo isso com a narrativa de Platão sobre os destinos da alma. Nela, depois de deixar o Outro Mundo para entrar no mundo dos vivos, cada alma toma um gole da Água do Esquecimento, razão pela qual só temos lembranças muito vagas de nossas existências anteriores. Antes da nona e final encarnação, a poção preparada com a Água do Esquecimento não é usada, de modo que a memória do passado permanece. O recém-nascido então retorna como membro de uma das classes mais destacadas: como sacerdote, poeta ou – significativamente – como filósofo. Assim, Pitágoras parece encontrar-se em sua encarna­ção final, destinado a assumir total divindade após a morte. Talvez esteja nisto, e não na história de Heráclides sobre a recompensa do deus Her­mes, a explicação para sua habilidade de lembrar as encarnações passa­das.

O segundo atributo de Pitágoras que ainda temos de considerar é sua suposta capacidade de deixar o corpo e viajar com toda a liberdade como espírito, um dom associado ao xamanismo. Segundo Aristóteles, Pitágoras teria sido visto em dois lugares ao mesmo tempo. Mas essas viagens não o levavam apenas através do mundo físico. Ele também desceu ao Reino de Hades, ou seja, fez precisamente a mesma viagem que Orfeu, em sua tentativa de salvar a falecida Eurídice.

O nome de Pitágoras não é o único ao qual se atribuem essas histórias. Heródoto lembra que Aristeas de Proconnesus, inspirado por ApoIo, decidiu deixar sua ilha natal no Mar de Marmara e partir em busca dos hiperbóreos. Não teve maior sucesso do que seus predecessores, mas parece ter chegado às terras citas, onde foi iniciado nas práticas dos Ena­rees, uma elite bastante semelhante aos druidas.

Heródoto continua sua narrativa dizendo que, anos mais tarde, Aristeas teria caído morto quando foi a uma loja em sua cidade natal. O comerciante, assustado, fechou imediatamente as portas do estabeleci­mento e foi levar a notícia à família do homem morto. No caminho, encontrou-se com um visitante, vindo da cidade vizinha de Cyzicus, que lhe deu a surpreendente informação de que acabara de ver e falar com Aristeas em sua cidade. O comerciante não acreditou e prosseguiu em sua missão. Mas quando a família foi à loja para reclamar o corpo, ele havia desaparecido. Sete anos depois disso, Aristeas reapareceu, mas acabou sumindo de novo.

Sua epifania final foi em Metapontum, no sul da Itália, a cujos cidadãos ele ordenou que construíssem um altar em honra de Apolo, com uma estátua sua ao lado. Isto foi feito depois de consultas ao Oráculo de Delfos e, segundo declaração de Heródoto, as estátuas ainda se encontra­vam ali em seu tempo.

Uma capacidade semelhante de deixar o corpo foi atribuída a outro dos personagens encarnados antes por Pitágoras, Hermótimus de Klazomenai. Afirma-se que ele era capaz de viajar através de grandes distâncias e, na volta, trazer consigo "muitos conhecimentos e a sabedo­ria do futuro". Morreu quando os inimigos, encontrando o corpo quando a alma estava em uma dessas viagens, acharam que estava morto e o levaram à pira funerária.

Estas descrições nos fazem lembrar os transes mediúnicos, atra­vés dos quais também seria possível realizar contatos com o Outro Mun­do. Teria Pitágoras sido um médium psíquico? Existem provas suficientes para sugerir que, se não era, pelo menos era bastante grande o número daqueles que o desejavam apresentar dessa forma. Também está bem claro ser uma crença da época que o dom do transe, assim como o da divinização e o da profecia, era concedido pelo ApoIo hiperbóreo, já que não apenas Pitágoras, mas também Aristeas e Hermótimus são associados a ele.

Além de sua capacidade xamanista de aparecer em dois lugares ao mesmo tempo e de suas visitas também xamanistas ao Outro Mundo, ainda encontramos associada a Pitágoras a figura sombria de Abáris. Nós o vemos descrito como hiperbóreo, que vem ao encontro de Pitágoras por ordem de ApoIo, reconhecendo-o de imediato, por causa de sua coxa dourada. Ainda mais instrutiva, no entanto, é a afirmação de que Abáris possui uma flecha de ouro que lhe permite viajar de modo invisível, para qualquer lugar. Talvez se trate do projétil que ApoIo perdeu de seu pró­prio arco de ouro. As viagens realizadas por meio de flechas mágicas representam uma metáfora usada com freqüência pelos xamãs em rela­ção a seus deslocamentos espirituais, fazendo-nos lembrar também dos vôos realizados pelas bruxas européias em suas vassouras mágicas. As viagens desse tipo ainda são praticadas pelos xamãs das regiões altaicas da Sibéria e, conforme explica Geoffrey Ashe, a palavra Altai na verdade significa "de ouro". Por outro lado, Heródoto menciona a lenda de uma montanha que produzia ouro, guardada por grifos, que teria sido descrita pelos anfitriões citas de Aristeas. Aqui pode-se arriscar a opinião de que o próprio Abáris era médium e, mesmo não tendo ajudado Pitá­goras a desenvolver sua mediunidade, pelo menos o teria reconhecido como semelhante a ele próprio, a Hermótimus e a Aristeas, que desfru­tavam dos favores especiais de Apolo.

Mas podemos ir mais longe ainda e sugerir que os filósofos gregos dessa época encaravam o cultivo dos dons psíquicos como uma parte essencial de suas tarefas, e a tal ponto que representava uma carac­terística peculiar de sua vocação. E, como a palavra grega ekstasis, raiz de nossa palavra "êxtase", na verdade significava "deixar o corpo", po­demos suspeitar de que a capacidade de fazer isso era coisa corriqueira. Na obra Phaedo, de Platão, Sócrates passa o tempo, antes do momento em que tem de tirar sua própria vida, tentando convencer os amigos de que não existe razão alguma para se temer a morte. Em uma passagem, que tem sido o pesadelo dos tradutores e mistificado os comentaristas, ele diz que a alma do filósofo procura a verdade "por si mesma", aban­donando o corpo, e deixa implícito que a morte só vai tornar permanente essa condição transitória. Vai representar a libertação final da prisão física. Guthrie observa que isto talvez queira sugerir a possibilidade de haver outros meios de adquirir o conhecimento, além daqueles normal­mente aceitos. E, sem dúvida alguma, é bastante sugestivo o fato de terem estado entre os visitantes de Sócrates dois tebanos qoe teriam es­tudado com Philolaus, um dos pitagóricos originais.

Mas temos outra pista sobre a natureza de Pitágoras: o seu su­posto costume de tomar kykeon. A receita de Porfírio pode ou não ser a verdadeira, já que se trata de uma droga em geral considerada do tipo farmacologicamente classificado como "ego-supressora", um alucinóge­no que produz naquele que a ingere a sensação de não ser mais uma entidade isolada, mas capaz de uma tal expansão que lhe permite mes­clar-se ao ambiente, fazer parte de todo o universo ou viajar com total liberdade, desde as profundezas do oceano até as mais altas estrelas do firmamento.

Deve-se notar que a sensação do indivíduo de poder misturar-se ao ambiente que o circunda pode também ser produzida pela exposição prolongada a certos ritmos produzidos por tambores: esta é uma das ca­racterísticas das cerimônias vodu. E não podemos deixar de imaginar se a preocupação de Pitágoras com a música não seria em parte devida a sua capacidade de produzir sensações assim, já que a percussão sempre de­sempenhou um papel importante na música grega.

Também se sabe que a ingestão de alucinógenos era praticada de maneira generalizada. Além do haoma ingerido pelos persas, havia o soma branco como leite que era tomado pelos brâmanes com finalidades rituais. E existem evidências de que o "hidromel", que Odin, o "Grande Xamã", teria roubado de Asgard e distribuído à humanidade, a bebida não era considerada inócua, feita apenas de mel fermentado, mas uma poção muito mais forte e poderosa, conhecida e usada pelos druidas em uma forma bastante semelhante. De qualquer maneira, existem inúmeros exemplos do uso de drogas rituais, entre as quais estão as dos astecas, derivadas das sementes de uma planta conhecida como Glória da Manhã, assim como da fruta do cactus peyote, fonte do mescal, consumido na América Central. Por fim, temos o cogumelo de ponta vermelha conhe­cido como chapéu-de-sapo, que é mascado pelos xamãs do norte da Europa e produziria a sensação de se poder voar.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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