Qual é o sentido da vida?

O sentido da vida é que ela acaba.

Franz Kafka

Concebo, por enquanto, três respostas fundamentais:

1. O sentido da vida é a morte.

2. O sentido da vida é viver e se reproduzir.

3. O sentido da vida é uma construção eminentemente individual.

Por sentido pode-se entender direção específica, significação ou finalidade.
No primeiro caso podemos assim traduzir: qual é a direção para a qual a vida ruma, seu destino? Para onde vai esta vida? Neste caso a resposta mais concreta e simples é espantosa, porém, verdadeira (mesmo que em parte): o sentido da vida é a morte. Esta é a direção ou destino concreto de todo e qualquer ser vivo.

Contudo, o senso comum geralmente está perguntando por uma outra coisa. É mais ou menos a indagação de Paul Gauguin, a qual é o título de um de seus quadros, de 1897: "De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?”. Ou seja: qual é a função, a finalidade da vida? Por que e para que estamos aqui?

Em termos biológicos, é a resposta de número dois, a qual dei acima: o sentido da vida é viver, autopreservar-se, manter-se vivo, e se reproduzir, gerar descendentes. Uma compreensão hedonista ainda acrescentaria: o sentido da vida é o prazer. Tudo o que fazemos é em busca de prazer e em fuga da dor, do sofrimento. Mesmo nossos maiores sacrifícios teriam como meta última, seja real ou fantasiada, uma situação mais confortável, a satisfação de algum desejo ou impulso.

Contudo, estes sentidos universais, impostos pela biologia, não costumam satisfazer o sanguinário anseio metafísico das massas. As pessoas, de um modo geral, estão perguntando se há uma missão, um plano programado para nossa estadia nesta parca e frágil existência. E não querem ouvir uma resposta que seja negativa. Dizer que não há sentido algum para a vida, neste caso, é ofensa mortal.

Em termos racionais não é possível dizer que existe uma finalidade predeterminada intencionalmente para a vida de todas as pessoas. As pessoas que acreditam nesta tese, porém, insistem: “Não é possível. Não estamos aqui por acaso. Deve existir uma razão, um motivo”. Encontrar o motivo seria encontrar a causa, e esta não é certamente uma só. Nossa existência é um somatório de inúmeras e pequenas causas.

Com certeza, não estamos aqui por acaso: alguns fatores agiram como causa. Mas, e o acaso, não é justamente isso: um somatório de inúmeras e pequenas causas, ao ponto de já não podermos determinar o que ocorrerá? Um lançamento de dados é o exemplo clássico: determinar com precisão que número sairá é impossível. Pois não há uma única causa. São inúmeras e incontroláveis. Só para citar algumas: a força com que se arremessa os dados, a aspereza da superfície de contato, a altura do arremesso, a posição do dado nas mãos, a posição em que cairá, etc. Se pudermos controlar já não é acaso. A predeterminação, neste caso, é sempre uma probabilidade.

Mas o grande problema é saber aceitar esta impotência fundamental, coisa que a maioria das pessoas não é capaz: não podemos controlar, não podemos, nem nunca poderemos saber precisamente o que produz o que para que nossa vida tenha surgido tal como ela é. Ou seja, o acaso existe. E o grande drama é que ele não nega que tudo tem causa. Ele nega que podemos controlar as causas e produzir exatamente o que desejamos, ou descobrir uma finalidade transcendental e única para vida humana. Se não é possível saber precisamente porque estamos aqui, “de onde viemos”, pois não há uma única causa, também não podemos saber qual é a finalidade de nossa existência.
E é exatamente isso que deixa as massas desconfortáveis: não poder controlar, não poder explicar, não encontrar um sentido predeterminado, único e universal para a vida. Porém, após escrever esse texto, uma única coisa me vem à cabeça: a pergunta sobre o sentido da vida, ansiosa pela resposta de que haveria uma “missão” para cada um de nós, já é a indagação de quem não quer ouvir outra resposta que não esta mesma, a da “missão”.

A terceira resposta, no início do texto, diz o seguinte: o sentido da vida é uma construção eminentemente individual. Cada um dá o sentido que lhe cabe. A concepção de qual é a finalidade da vida irá variar de pessoa para pessoa (ou de grupos para grupos de pessoas) segundo as circunstâncias, possibilidades, concepções, costumes e sonhos de cada um. Assim, o sentido não é universal, mas particular. Não é dado, e sim construído.

Comments are closed.