“A vida é curta”?

Nem curta, nem longa. Sem ensaio, replay, nem prorrogação, ela é o que é: uma só. Esse "uma só" é negado por muita gente. E aí pode ser que advenha o lugar comum de que ela é curta. Como não podemos ensaiar, nem fazer de novo (recomeçar do zero), parece que é curta. Como não podemos viver outra vez, uma segunda vez, pode parecer que é isso: curta. Eis o juízo de valor, a definição particular, subjetiva. Curta? Pra quem? Comparado a que? O que é curto para uns pode não ser para outros. O que as pessoas estão tentando dizer quando assim enunciam?

Não há coisa mais subjetiva e individual do que a vivência do tempo. É a temporalidade, o como cada um experencia a passagem do tempo. O que demora mais: uma hora namorando ou uma hora a padecer na cadeira do dentista? Ah, sim, "tudo o que é bom passa rápido"…

Cena típica: imagine uma criança a se divertir intensamente em uma festa ou parque de diversões, quando chegam os pais e anunciam que o tempo acabou, que já é hora de ir embora. Ela já vai aprendendo cedo o lugar comum: "tudo o que é bom acaba rápido". Assim como os adultos que vivem a dizer que a vida é curta. Não querem deixar o parque de diversões da vida ou tudo aquilo que ela poderia ter sido e não foi. Ainda não se satisfizeram. A insatisfação com tudo o que a vida poderia ter nos dado pode nos fazer dizer: "a vida é curta".

Sim, curta. "Não fiz tudo o que eu poderia ter feito". "Não tive uma segunda chance, ou um tempo a mais, para tentar de novo". "Não aproveitei o suficiente". Mas também que saco esse mandamento atual de aproveitar ao máximo, tirar tudo o que a vida pode dar. Parece maximização de lucros. Quanto mais você tirar da vida, mais lucro você tem.

E nessa trilha não faltam também as imagens estereotipadas do que seja aproveitar a vida: viajar para tudo o que é lugar, explorar todas as infinitas distâncias do planeta (e acima de tudo, gabar-se por isso, mesmo que de modo disfarçado); enfrentar as maiores adversidades em espírito esportivo e elegante de aventura, com demonstração suprema de saúde e superação do restante dos mortais (enfim, poder…); viver as emoções intensas todas que a vida humana, ou sobrehumana, pode proporcionar; arriscar, estar sempre um passo além; sentir-se vivo em toda a intensidade possível; estar no cume dos mundos e pode urrar de prazer ou alegria. Eis o estereótipo mais comum do que seja aproveitar ou viver bem a vida.

Costumo fazer essa pergunta às pessoas: "O que é aproveitar a vida pra você"? Grande parte, obviamente, traz este estereótipo: viver o máximo possível em altíssima intensidade. Costumo pedir por imagens: "Que imagem lhe ocorre quando você pensa no que é aproveitar a vida, pra você?". Há quem cite imagens de coisas totalmente distantes de seu cotidiano ou mesmo ausentes em sua própria história de vida. Citam coisas absurdas, megalômanas, que nunca fizeram. Como se a imagem do que é aproveitar a vida estivesse somente estampada nas revistas de celebridades. Outros citam imagens do que já viveram e padecem de nostalgia. E há também os que citam coisas de seu próprio cotidiano, muitas vezes bem simples, as quais habitualmente visitam ou realizam.

Os primeiros, convenhamos, não devem estar felizes. Os nostálgicos, por sua vez, não se cansam de dizer que eram felizes e não sabiam (o que também, penso eu, está carregado de ilusões). E os últimos são os que, de modo geral, sem muitos artifícios ou arsenais de felicidade, estão aproveitando a vida em sua simplicidade e dentro do que ela pode dar.

Agora, se me perguntassem o que é aproveitar a vida, pra mim, em uma imagem, eu responderia: "Pra mim, aproveitar a vida é boiar". Sim, boiar. Quando estou flutuando, na água, com os ouvidos imersos e a cabeça imersa no universo, sinto que estou aproveitando a vida em sua plenitude. Isso mesmo, desse jeitinho: quieto, isolado e casado com o universo, seja lá como isso tiver de acontecer: boiando, correndo, namorando, escrevendo, comendo, conversando, dormindo, caminhando, capinando ou mesmo lavando louças.

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