Novas Perspectivas da Pesquisa Psicodélica – Ayahuasca em Questão

José Arturo Costa Escobar*

Antonio Roazzi*

*Programa de Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva

Resumo:

As substâncias psicodélicas, conhecidas popularmente como alucinógenas, ressurgem como objeto de pesquisa a partir da década de 90, refutando achados anteriores à década de 1970 acerca dos potenciais psicoterapêuticos e, contrariando as classificações do Controled Substance Act. A Ayahuasca é uma dessas substâncias, condenada pelo documento supracitado e utilizada como sacramento por religiões brasileiras, tendo o uso assegurado legalmente. Apresentam-se em caráter revisional, estudos importantes realizados até então com ayahuasca e a DMT, visando proporcionar a divulgação dos achados e ampliar o debate sobre o uso de tal sacramento e da necessidade de incursões investigativas desse fenômeno.

Palavras-Chave: Alucinógenos; Psicodélicos; Psicoterapia; Serotonina; Dimetiltriptamina.

Apresentação

A Ayahuasca é uma bebida sacramental, de uso ritual, perpetuada na América do Sul por milênios, primeiramente utilizada por xamãs de diversas etnias da Amazônia sul-americana, e secundariamente propagada na pós-modernidade na forma de religiões sincréticas e recriações do mito da ayahuasca. Do início a meados do século XX se estabeleceram os primeiros usos rituais não indígenas, sincréticos, miscigenando a cultura indígena original aos ideais cristãos e cultura afro, surgindo assim as primeiras religiões ayahuasqueiras brasileiras.

Essas religiões permaneceram relativamente desconhecidas por muitos anos até o momento de expansão maior, a partir da década de 80, gerando visibilidade e controvérsias do uso da ayahuasca por conter uma substância reconhecidamente banida pelo Controled Substance Act, em 1971, de onde se afirmara sobre a inexistência de qualquer propriedade biomédica ou terapêutica dessa substância, enfática acerca de sua periculosidade à saúde humana e à sociedade.

 Atualmente, o fenômeno da religiosidade ayahuasqueira brasileira se compõe de dezenas de igrejas das primeiras religiões ayahuasqueiras, distribuídas em todos os estados da nação, com milhares de seguidores, além da multiplicação de religiões dissidentes nos últimos 15-20 anos e a migração da religião para outros países. Desde o ano de 1986, o governo brasileiro tem buscado regulamentar da melhor maneira o uso ritual da ayahuasca. Como modo de garantir o direito de liberdade religiosa, estudos clínicos, antropológicos e psicológicos tem sido realizados desde a década de 90 em busca de desvendar e caracterizar possíveis malefícios do uso agudo ou prolongado dessa beberagem nos âmbitos clínico, psicológico e sociocultural. As pesquisas nacionais e internacionais até então realizadas não encontraram base científica para se contrapor ao uso da bebida, de efeitos psicoativos e característica enteogênica[i], isto é, que confere experiências pessoais, no contexto religioso, de ordem divinal ou da realidade divina[ii]. A regulamentação mais recente é exposta no Relatório Final do Grupo Multidisciplinar de Trabalho do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas/CONAD, que regulamenta o uso deontológico[iii] da ayahuasca e prevê além de outras coisas o uso restrito em rituais, com proibição da venda e comercialização, bem como da propaganda da bebida (Silveira-Filho, Soares et al., 2006, 23/11; Felix, 2010). A legitimação da formação de grupos neo-ayahuasqueiros, os recentes incidentes trágicos envolvendo pessoas freqüentadoras de instituições ayahuasqueiras, bem como o agravante de uma política nacional proibicionista acerca das drogas, são alguns fatores que tem reacendido o debate da legalidade de uso da ayahuasca.

Breve Histórico

O conhecimento acerca do consumo da bebida sacramental ayahuasca[iv] entre diversos povos sul-americanos existe há milênios, com registros datados de 2000-1500 a.C. (Naranjo, 1979; 1995; Schultes, Hofmann et al., 2001). É atualmente empregado no Brasil em diversos contextos religiosos sincréticos, em intensa atividade de expansão, seja daqueles grupos religiosos considerados pioneiros da religiosidade ayahuasqueira brasileira (Barquinha, Santo Daime e União do Vegetal), ou de grupos dissidentes recriados, legitimados ou em busca de legitimação como grupo religioso ayahuasqueiro (Macrae, 1992; Labate, 2004; Barbier, 2009; Lira, 2009). Recentemente, a aprovação em 25/01/2010 do Relatório Final do CONAD estabeleceu a regulamentação e legitimação do uso religioso da ayahuasca, um embate que perdurou desde 1985 (Silveira-Filho, Soares et al., 2006, 23/11; Felix, 2010), e que provavelmente não representa um ponto final na tentativa de regulamentação da beberagem.

A ayahuasca é considerada, em geral, pelos diversos grupos religiosos, como uma substância capaz de permitir ao usuário o contato com o Divino ou dimensão divina, daí retirando conhecimentos, força e luz, que permitam a evolução material e espiritual, atuando também como modo de orientação da conduta diária (Labate, 2004; Lira, 2009). Estudos realizados têm demonstrado que o uso ritualizado da ayahuasca não é nocivo, apresentando muitas vezes melhorias significativas em diversos aspectos sociais, orgânicos e psicológicos (Grob, Mckenna et al., 1996; Labigalini, 1998; Mckenna, 2004; Halpern, Sherwood et al., 2008; Barbosa, Cazorla et al., 2009; Mercante, 2009).

Em geral a ayahuasca e substâncias análogas como o LSD-25, mescalina, psilocibina e ergotamina, entre outras, tem sido tratadas pelo senso comum como substâncias alucinógenas. Entretanto, tal termo parece inadequado para a plena caracterização da experiência mental com essas substâncias, e a ciência, em um esforço de maior compreensão, tem proposto a utilização de outros termos. Depois de alucinógeno, o termo psicodélico (manifestante mental), cunhado pelo psiquiatra Humphrey Osmond na década de 50 conjuntamente com o escritor e filósofo Aldous Huxley, parece ser o termo de maior preferência no campo. O termo representa uma alternativa de caracterizar os efeitos incomuns dessas substâncias no funcionamento da consciência (Huxley, 1954; Osmond, 1972; Grof, 1980). A necessidade do termo surgiu em uma época onde o interesse da ciência da época estava voltado exclusivamente para a característica dessas substâncias em causar psicoses artificiais, naquele momento denominado substâncias psicotomiméticas, ou que mimetizam a psicose (Perrine, 2001; Schultes, Hofmann et al., 2001). Tais substâncias ainda são utilizadas como ferramentas de compreensão das bases neuroquímicas envolvidas na emergência de psicoses naturais, depressão e esquizofrenia (Vollenweider e Geyer, 2001; Geyer e Vollenweider, 2008; Geyer, Nichols et al., 2009), bem como tem sido utilizadas como ferramentas experimentais de processos psicoterapêuticos (Winkelman e Roberts, 2007).

O uso do termo enteógeno tem sido geralmente utilizado de modo restrito em estudos de cunho antropológico e social. O argumento básico nestes estudos é a observação do uso da substância com fins divinos, isto é, com a aceitação ontológica da dualidade de mundos daqueles que praticam o uso em um contexto religioso estrutural, permitindo a comunicação com dimensões divinas ou com Deus (Lira, 2009). O termo cunhado por Ruck et al. (1979) apresenta uma grande importância na descrição da característica dos psicodélicos em estabelecer experiências de significado espiritual com relevância sobre a dimensão pessoal (Grof, 1980; Doblin, 1991; Griffiths, Richards et al., 2006; Kjellgren, Eriksson et al., 2009; Mercante, 2009; Trichter, Klimo et al., 2009).

A ascensão de um novo termo utilizado na pesquisa tem sido verificada, entretanto seu uso ainda se encontra em difusão no campo. O termo psicointegrador surge como uma necessidade de integrar as diversas características dos efeitos dos psicodélicos (espirituais, afetivas, cognitivas, psicotomiméticas e psicoterapêutica) sob a perspectiva neurológica e neurofenomenológica. Visa estabelecer a capacidade do estado psicodélico em promover a emergência de conteúdos inconscientes para o campo da consciência, podendo ser reintegrados ao self, no sentido usado por G. H. Mead, com nova reconfiguração, podendo promover transformações no sistema de conceitos e no comportamento (Winkelman, 2001; 2007).

 

Ação da Ayahuasca

Ayahuasca é o nome dado à preparação da bebida feita a partir do cozimento das espécies vegetais Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis, que significa "vinho das almas", "vinho da morte" entre outras denominações que enfatizam a experiência mental como um acesso ao plano dos espíritos ou plano astral (Mckenna, 2004; Lira, 2009).

Na espécie B. caapi (Malpighiaceae) são encontradas substâncias b-carbolinas que se constituem como importantes inibidoras da MAO-A gastrointestinal (monoamino oxidase-A), sendo as principais identificadas a harmina, tetrahidroharmina e a harmalina, também de efeitos psicoativos. No entanto, o principal componente ativo da Ayahuasca, a N,N-dimetiltriptamina (DMT), é encontrado nas folhas de P. viridis (Rubiaceae) e possui potente ação alucinógena ou psicodélica. A cocção conjunta dessas duas plantas é responsável pela preparação da bebida Ayahuasca e crucial para que os efeitos mentais possam ocorrer. Acontece que uma vez ingerida, a DMT é facilmente degradada pela enzima MAO-A gastrointestinal perdendo seu efeito ativo. A adição de plantas ricas em b-carbolinas permite a inativação da MAO-A e, dessa forma, a absorção da DMT inalterada, que segue via corrente sanguínea até os receptores serotonérgicos, presentes principalmente no sistema límbico e córtex frontal, entre outras regiões (Riba, 2003; Mckenna, 2004; Nichols, 2004).

Os efeitos induzidos pelo consumo das substâncias psicodélicas devem-se à ação agonista sobre os neuroreceptores da serotonina (5-HT, 5-hidroxitriptamina), isto é, facilitam e aumentam a recepção da 5-HT pelos neurônios pós-sinápticos (Aghajanian e Marek, 1999; Pomilio, Vitale et al., 1999; Mckenna, 2004; Nichols, 2004). Essa via de neurotransmissão exerce considerada influência sobre o ato de despertar, percepção sensorial, emoção e importantes funções cognitivas, tais como memória, autoconsciência, percepção do tempo, fala, semiotização, imagens mentais, entre outras, cuja ação da ayahuasca e outros psicodélicos promove modificações funcionais[v].

Estudos com Ayahuasca: Potencial Terapêutico

 

 

A compreensão atual da ação da ayahuasca sobre o sistema serotonérgico tem apontado uma perspectiva nova para a abordagem de diversos problemas psicológicos tais como o abuso de substâncias, depressão, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outros cuja característica importante observada é o baixo número de receptores de serotonina (Quan-Bui, Plaisant et al., 1984; Alvarez, Cremniter et al., 1999; Szabo, Owonikoko et al., 2004; Sullivan, Mann et al., 2006; Ma, Tan et al., 2007). Diversos estudos conduzidos com a Ayahuasca (e seu princípio ativo, DMT), demonstram a segurança orgânica e psíquica da administração dessas substâncias em seres humanos saudáveis. Tem sido demonstrada que a ayahuasca não promove adição, nem apresenta o fenômeno de tolerância química, nem alterações importantes de diversos fatores bioquímicos, hormonais, hepáticos e renais. Com salvaguardas à alteração significativa da pressão arterial sanguínea, não é recomendada a pacientes com hipertensão ou problemas cardiovasculares, nem em pessoas com parentesco de 1º e 2º graus de esquizofrenia. Enquanto os estudos clínicos caracterizam a ayahuasca como uma substância fisiologicamente segura, estudos diversos se somam e apontam a sua importância psicoterapêutica (Strassman e Qualls, 1994; Strassman, Qualls et al., 1994; Strassman, 1995; Strassman, Qualls et al., 1996; Callaway, Mckenna et al., 1999; Riba, 2003; Mckenna, 2004; Halpern, Sherwood et al., 2008; Barbosa, Cazorla et al., 2009; Kjellgren, Eriksson et al., 2009; Mercante, 2009; Trichter, Klimo et al., 2009; Escobar e Roazzi, 2010; Labate, Santos et al., 2010; Santos, 2010).

Estudos psicológicos e subjetivos da administração aguda de Ayahuasca e foram realizados por Grob et al. de 15 indivíduos usuários de Ayahuasca há mais de 10 anos através do Questionário de Personalidade Tridimensional (QPT). Foi demonstrado que os sujeitos se apresentam sob o ponto de vista psiquiátrico como indivíduos reflexivos, rígidos, estóicos, leais, frugais, disciplinados e persistentes, de comportamentos consistentes e elevada sociabilidade e maturidade emocional. As escalas do QPT classificam os sujeitos como confidentes, relaxados, otimistas, desinibidos, despreocupados, ativos, enérgicos, com características de alegria, hipertimia, obstinação e elevada confidência. Os sujeitos usuários se mostraram significativamente melhores que os sujeitos controle (não usuários) no teste de memória verbal. Os aspectos fenomenológicos acessados pelo HRS-test demonstraram correlações fortes dos aspectos intensidade, afeto, cognição e volição, da experiência com a bebida em relação às dosagens de DMT (intravenosa, i.v.) entre 0,1-0,2 mg/kg, enquanto os aspectos da percepção e somastesia foram comparáveis às dosagens de 0,1 e 0,05 mg/kg, respectivamente (Strassman, Qualls et al., 1994; Grob, Mckenna et al., 1996; Mckenna, Callaway et al., 1998).

Outro estudo com usuários de Ayahuasca há mais de 10 anos foi recentemente desenvolvido, onde foram mensurados efeitos agudos negativos da administração da substância em aspectos relacionados ao estado de pânico, ansiedade e desespero. Diferenças significativas foram encontradas para os signos relacionados com pânico e desespero, com menores taxas quando comparados com o placebo. Não foram encontradas diferenças dos aspectos relacionados à ansiedade (Santos, Landeira-Fernandez et al., 2007). Tais achados não permitem indicar um efeito ansiolítico da bebida, mas de certa forma, pode ser sugerido que ayahuasca não promova ansiedade, ou podem ser compreendidas que as pessoas experientes no consumo da ayahuasca saibam ou tenham aprendido a lidar com a experiência. Outros efeitos, positivos, estão envolvidos com a experiência e tais mensurações possuem aplicação na condução e entendimento de como lidar com os processos de pensamento comuns ao consumo da substância. Recentemente, estudos animais tem apontado a potencialidade farmacológica de beta-carbolinas presentes na ayahuasca como agente antidepressivo (Réus, Fortunato, Stringari, Kirsch, Ferraro et al., 2009; Réus, Fortunato, Stringari, Kirsch, Ribeiro et al., 2009)

Acessos psicológicos e psiquiátricos de membros do Santo Daime nos Estados Unidos mostraram resultados que sustentam a segurança da administração da ayahuasca de modo ritualizado e sugerem seu potencial psicoterapêutico. Os principais achados foram a verificação de que 60% dos participantes (n= 32) apresentaram problemas psiquiátricos no passado, destes oito afirmaram melhoras após a frequência no grupo religioso. Vinte e quatro pessoas apresentaram problemas de adição de álcool e drogas, destes 22 em completa abstinência, sendo que cinco destas afirmaram que frequentar o Santo Daime foi um ponto de partida para o abandono. Os participantes eram fisicamente saudáveis e as medidas psicológicas revelaram sujeitos mentalmente saudáveis. A atenção chamada para o processo religioso e a não extrapolação dos resultados para outros tipos de psicodélicos em condições de abuso é pertinente (Halpern, Sherwood et al., 2008).

Vários estudos desenvolvidos com a ayahuasca sugerem a potencialidade terapêutica da substância, principalmente no que condiz ao tratamento de substâncias de abuso. Estes estudos se baseiam principalmente em acessos a sintomas psiquiátricos, história de abuso de substâncias e variáveis cognitivas, comportamentais e místico-religiosas. Os mecanismos pelos quais a ayahuasca parece promover uma melhora do comportamento e abandono de substâncias de abuso ainda constituem um enigma para a ciência. Entretanto, se observa elevados índices de espiritualidade entre aqueles que experienciam os efeitos da ayahuasca, casos de superação de dependência química, principalmente alcoolismo e a derivados de coca (Erythroxylum coca) (Mabit, 1992; Mabit, Campos et al., 1992; Labigalini, 1998; Hoffmann, Hesselink et al., 2001; Mabit, 2002; Mckenna, 2004; Barbosa, Giglio et al., 2005; Mabit e Sieber, 2006; Barbosa, Cazorla et al., 2009; Kjellgren, Eriksson et al., 2009; Mercante, 2009; Trichter, Klimo et al., 2009; Escobar e Roazzi, 2010; Labate, Santos et al., 2010).

Um último estudo recente demonstrou que a ayahuasca não promoveu efeitos psicossociais desastrosos, comumente encontrados em outras substâncias de abuso. Nesse estudo, sujeitos usuários de ayahuasca responderam a escalas de abuso de substâncias e escalas psiquiátricas, sendo re-contactadas um ano após o estudo. Foi observada a diminuição do abuso de substâncias, principalmente álcool, sem a apresentação de qualquer tipo de déficit, o que reforça as potencialidades da substância até então apresentadas (Fábregas, González et al., 2010).

Outra característica importante das substâncias psicodélicas é a capacidade de promover experiências classificadas como místicas, de intenso significado pessoal e espiritual. Extensamente na literatura essa característica tem sido explorada e investigada, principalmente com os aspectos que se correlacionam com as possíveis propriedades psicoterapêuticas de tais substâncias mediante transformações na consciência e personalidade (Grof, 1980; 2000; Griffiths, Richards et al., 2006; Griffiths, Richards et al., 2008). A experiência espiritual tem sido indicada como um dos fatores mais importantes na transformação pessoal e no abandono de drogas de abuso (Sanchez e Nappo, 2007; 2008). A ayahuasca possui reconhecida importância como agente de experiências místicas e/ou religiosas e tem sido empregada no tratamento do abuso de substâncias, inclusive álcool (Mabit, Campos et al., 1992; Labigalini, 1998; Mabit, 2002; Santos, Moraes et al., 2006; Halpern, Sherwood et al., 2008; Mercante, 2009; Escobar e Roazzi, 2010; Labate, Santos et al., 2010).

Embora o potencial terapêutico seja sugerido, estudos sistemáticos ainda não foram divulgados ou realizados. Conquanto, o campo ainda não ultrapassou as evidências antropológicas e de dados de indivíduos recuperados em clínicas ou instituições de recuperação, isto é, os processos que levam ao abandono não se encontram esclarecidos, ainda que sejam apontadas as importâncias dadas às experiências religiosas, ao ritual e aos insights pessoais que ocorrem durante o estado ébrio. O status dos estudos com a ayahuasca no Brasil ainda é primário, mas se mostra bastante favorável para a execução de estudos complexos envolvendo metodologias de controle apropriadas na pesquisa farmacológica.

 

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[i] Enteógeno, neologismo que classifica substâncias como a ayahuasca como capazes de manifestar o senso de divino interno, ou de promover o contato direto com a dimensão divina, ainda, manifestar a divindade interior; do grego, en (εν)- “em, dentro, no interior”, “theo (θεος)- “Deus, divino”, gen (γενος)- “cria, gera” (Ruck, Bigwood et al., 1979).

[ii] As experiências com qualidades místico-religiosas obtidas pelas pessoas mediante o uso da ayahuasca devem ser entendidas como atos de fé, e devem ser atribuídas aos princípios a priori que guiam os indivíduos na busca do divino.

[iii] Deontologia, referente ao estudo do que é preciso fazer. Do grego, deon- “o que é preciso fazer”, logos- “estudo”.

[iv] Ayahuasca, do quéchua, vinho dos mortos, liana dos mortos, vinho das almas.

[v] As modificações desses parâmetros podem ser entendidas como alterações funcionais do cérebro através do desbalanceamento neuroquímico, isto é, da modificação das relações quantitativas de neurotransmissores nas fendas sinápticas, acompanhada de modulação anômala da sinalização neuronal, verificada no funcionamento alterado da consciência (Shepherd, 1994; Vollenweider e Geyer, 2001; Riba, 2003; Mckenna, 2004; Nichols, 2004; Geyer e Vollenweider, 2008; Geyer, Nichols et al., 2009). Também podem ser entendidas, tais modificações, como formas necessárias de funcionamento de um modus operandi superior da consciência, isto é, como expressão natural ou reflexo inerente da consciência em funcionamento nesse estado especial. Assim como o sono, o coma, e o estado desperto da consciência ordinária, outros modos inatos de funcionamento da consciência podem ser ativados por psicodélicos ou outros métodos (meditação, privação sensorial, êxtase religioso), nos quais o indivíduo “mergulha” em suas memórias autobiográficas e em domínios transpessoais, vivenciando a emergência de conteúdos internos e outras características da realidade, que podem ser modificadores ou catalisadores da transformação da visão de mundo individual e das atitudes perante o mundo ou realidade (Watts, 1968; 1972; Grof, 1980; 1987; 2000; Barbier, 2009) Em ambas as proposições são reconhecidas a importância biomédica e psicoterapêutica da ayahuasca, entretanto, ainda existe uma imensa lacuna entre os processos decorrentes no indivíduo que bebe pela primeira vez e o indivíduo modificado/melhorado mediante a aprendizagem obtida a partir da experiência.

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