Refletindo acerca do fim de ano

O final do ano, geralmente brindado com os festejos de Natal e a noite de ano novo, é visto de maneira geral como um período alegre e de união. As pessoas procuram deixar as diferenças e dificuldades de lado para possibilitar um bem-estar geral e comungar com quem está próximo.  As festas, geralmente feitas na companhia da família e de amigos é acompanhada de comidas e bebidas típicas, há trocas de presentes e gentilezas. Novas promessas e metas são feitas ou mantidas e estabelecidas. Algumas pessoas de maneira seria e outras por habito ou para acompanhar às mais próximas, seguem rituais típicos da passagem do ano: "Adeus Ano Velho, Feliz ano novo…"

Pode-se dizer que os meses de novembro, o preparatório e dezembro, o ultimo mês do ano, são meses de alegre expectativa, reencontros, animados festejos, empolgação, amizade e felicidade. Mas isto não segue desta maneira para todos.

O mês de novembro e dezembro costuma ser um mês em que muitos pacientes novos buscam tratamento psicoterapêutico no consultório psicológico. Na época em que trabalhei em hospital psiquiátrico (por 4 anos), estes meses, novembro a janeiro, eram meses em que o hospital e clinica psiquiátrica trabalhavam com praticamente todos os leitos ocupados. Pacientes com quadros depressivos, psicóticos e dependentes químicos eram a maioria.

É um período em que muitos pacientes tem crises depressivas ou surtos psicóticos. Outros abusam excessivamente do álcool ou de outras substancias, tornando-se inconseqüentes e denunciando desta forma que algo não está muito bem internamente.

Para ilustrar este fenômeno transcreverei algumas das falas de meus pacientes de consultório referentes a este período de final de ano: "Não é minha época preferida não – na verdade odeio"; "Não consigo ficar sorrindo e achando tudo lindo, acho muito hipócrita"; "Me sinto muito sozinha e triste esta época"; "Sinto um aperto no coração, acabo ficando isolada"; "Não suporto as reuniões da família – eu por mim ia para um lugar mais afastado"; "Tem muito barulho, as pessoas ficam estranhas"; "Tudo fica parado, e triste, você não acha?".

Como explicar este fenômeno, de uma parcela da sociedade sentir-se alheia, afastada, triste, desgostosa, numa época marcada por festejos, renovação de votos e reuniões com colegas, amigos e família?

Do ponto de vista psicológico pode-se apontar que este fenômeno encontra sua explicação em dois fatores principalmente: A comunhão com a família, amigos, colegas e naquilo que o final de ano marca, ou seja fechamento de ciclo, realização de metas e estabelecimento de novas metas, projetos.

Para muitos, o final de ano é marcado pelo fracasso e frustração em diversas metas estabelecidas, novamente. Não se conseguiu a promoção desejada, não se parou de beber ou fumar, não esta satisfeito com o relacionamento, não consegue desenvolver relacionamentos com amigos ou amorosos, o ano foi marcado por cisões e desentendimentos, há muitas dividas financeiras, não se alcançou o peso ou imagem corporal desejada, ou outros, apenas como forma de ilustração.

No final de ano fazemos geralmente, consciente ou inconscientemente uma revisão de como foi o ano e o que ficou marcado. E se para a pessoa ficaram marcados insucessos e dificuldades, seja na vida relacional, na vida profissional ou em relação à ambição pessoal, o final de ano torna-se um fardo pesado e indigesto.

O retorno para o ambiente familiar, para a família de origem, nem sempre é desejado ou possivel, pois muitas vezes há tanta magoa e rancor, que este festejo de final de ano é visto mais como uma obrigação desagradável ou um obstáculo intransponível do que um reencontro alegre.

Claro, a capacidade em lidar com frustrações e dificuldades conta muito nesta situação. Mas percebemos que muitas pessoas se fragilizam e adoecem neste período  exatamente por não suportar a pressão, interna e externa, que aponta para felicidade, sucesso e realizações.

No consultório acaba-se trabalhando muito a tolerância à frustração e a motivação e persistência no estabelecimento e manutenção de metas e projetos de vida.

Por vezes apenas algumas crenças e imagens internas que a pessoa tem em relação a si e em relação ao mundo precisam ser revistas, trabalhadas e resignificadas. Em outros casos é preciso fazer um trabalho mais profundo com a pessoa e talvez com os familiares. Algumas feridas psíquicas são superficiais e outras são muito antigas e profundas. O tratamento precisa ver o individuo como um ser total, com seus desejos, expectativas, capacidades e dificuldades e como um ser inserido e em relação a um sistema maior: sua família, sua profissão, seus relacionamentos, seu meio cultural.

A angustia, frustração e sentimento de inadequação e incapacidade podem ser trabalhados e elaborados, a medida em que o individuo buscar novas soluções e se disponibiliza a enfrentar seus medos e sombras. É uma tratamento que encontra dificuldades e barreiras, mas é possível e pode possibilitar uma nova perspectiva e visão desta época do ano, do fechamento de um ciclo, para o inicio do novo!

Referência

Blog Psicoterapia, Psicanálise, Saúde Mental e Humanidades: http://www.reneschubert.blogspot.com/

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