A pílula anticoncepcional e o processo de medicalização da sexualidade

Estudo desenvolvido pela profissional Marina Nucci discute o processo de medicalização da sexualidade, fazendo referência a pílula anticoncepcional hormonal e sua relação com o conceito de drogas de estilo de vida (conceito entendido como medicamentos que não são utilizados para tratamento de uma doença, mas sim para aprimoramento da vida das pessoas); O estudo reflete também acerca do atual marketing dos laboratórios farmacêuticos, que mantém foco não no efeito original da pílula – o controle da natalidade- mas sim nos efeitos secundários que a droga traz (como por exemplo a redução da acne e tratamento de “problemas de humor” relacionados a menstruação), adequando sua finalidade ao estilo de vida da “mulher moderna”.
O estudo aborda o processo de medicalização na sexualidade, relacionando o mesmo aos “problemas” de ordem sexual (reprodução, infertilidade e as disfunções sexuais) e colocando os mesmos sob jurisdição médica; A autora aponta o Viagra como exemplo de medicalização da sexualidade, já que o mesmo figura como um dos medicamentos mais vendidos no mundo, sucesso este devido a mudança na maneira de diagnosticar e encarar a impotência e também de seu uso “recreativo”, onde homens com ereções consideradas normais passam a se utilizar da droga para melhorar o desempenho sexual.

O estudo aponta o desenvolvimento histórico da endocrinologia – ciência que estuda os hormônios e, entre eles, os hormônios sexuais- e sua estreita relação com laboratórios farmacêuticos e, com o advento da pílula anticoncepcional, os cientistas passaram a procurar “doenças” onde seu novo medicamento pudesse atuar; As autoras também pontuam os aspectos histórico-sociais que a permeiam.

Fato interessante no processo de fabricação da pílula fora a constante modificação das tecnologias médicas objetivando atender as expectativas e demandas sociais, como por exemplo o desenvolvimento do uso da pílula anticoncepcional para pessoas saudáveis e não tratar alguma doença.

Em relação à comercialização e publicidade da pílula anticoncepcional, o estudo exemplifica um comercial de TV de determinado laboratório que fabrica a pílula Beayz, onde a pílula (além de evitar a gravidez e “regular” o ciclo menstrual) é apresentada como eficaz na diminuição da intensidade do fluxo menstrual e no tratamento da acne moderada e de distúrbios de humor relacionados ao ciclo menstrual; A propaganda descrita explicita um componente de um estilo de vida que se pretende vender.

Explicita-se também a estratégia de marketing adotada pelo laboratório, que relaciona o uso da pílula anticoncepcional a um ícone fashion, transcendendo seu uso e significado além da esfera médica; Pontua-se também a mudança de foco e relação com as usuárias atualmente, focando na diminuição dos ciclos menstruais por ano, indo ao encontro da nova “mulher moderna” que não tem tempo para tais “inconvenientes”.

O estudo então conclui que desde a criação da pílula anticoncepcional a mesma não fora destinada a tratar uma doença, mas sim para ser utilizada por mulheres saudáveis em seu dia a dia; Houve mudanças na maneira de anunciar o medicamento, ressaltando seus benefícios secundários (redução da acne e tratamento para “problemas de humor” relacionados à menstruação) e fazendo com que as pílulas se assemelhem mais a um produto de beleza e a itens da moda do que a remédios; O marketing em torno das gerações da pílula vai além, não se preocupando apenas em promove-la como um medicamento de estilo de vida, mas sim como um produto adequado ao “estilo de vida da mulher moderna”.

NUCCI, Marina. Seria a pílula anticoncepcional uma droga de "estilo de vida"?: ensaio sobre o atual processo de medicalização da sexualidade. Sex., Salud Soc. (Rio J.),  Rio de Janeiro,  n. 10, abr.  2012 .   Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-64872012000400006&lng=pt&nrm=iso. acessos em  23  maio  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S1984-64872012000400006.

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