Meditação e Psicoterapia. Um dueto possível?

Por Roberto Cardoso

Já conheci muitos mestres de meditação, e percebi que muitos deles falam contra a psicoterapia. Para alguns, parece que seriam caminhos incompatíveis. Mas, será mesmo uma verdade? Será que meditação e psicoterapia não combinam? Eu creio que podem combinar, sim, mas em determinado contexto. Neste escrito, quero conversar com você sobre isso.

O exercício meditativo é algo que, apesar de determinar um estado modificado de consciência característico, sempre inicia por produzir efeitos muito parecidos com outras técnicas que levam ao relaxamento. Há uma redução do tônus do sistema nervoso simpático (ligado às reações de alarme e ao stress), um aumento da capacidade de atenção, dentre outros efeitos que são típicos nos iniciantes.

No entanto, no decorrer das semanas, meses e – principalmente – dos anos, o caminho meditativo nos leva a conhecer aquilo que podemos chamar de “percepção extra mental”, ou “estado supra mental”, ou “espaço além lógica”, ou “consciência cósmica”, ou qualquer outro nome que já tenha sido usado para descrever o que sucede essa “autopercepção não sensorial sem a participação da lógica”. A partir daí, uma nova “janela“ se abre, quando conhecemos um aspecto da nossa essência que coexiste com tudo o que há, sem luta, mas também em um fluxo vivo, pleno.

Produzimos muitos pensamentos por dia. Alguns dizem que chegamos a produzir até 50 a 60 mil pensamentos por dia! Porém, na grande maioria das vezes, esses pensamentos são destrutivos, ou desnecessários, ou ambos. Por isso, relaxar a lógica no exercício meditativo ajuda a reduzir o fluxo dos pensamentos, e depois, pouco a pouco, essa redução vai se estender aos momentos fora da prática meditativa. Quando se reduz o fluxo dos pensamentos, em algumas ocasiões, eventualmente, experimentamos uma Consciência que existe nas pausas dos pensamentos, e que depois descobrimos que existe como uma realidade que antecede os próprios pensamentos.

A mente nos serve para muitas coisas. Pode nos ajudar a fazer uma lista de supermercado, saber em qual esquina dobrar, preparar a pauta de uma reunião, e até a escrever uma Tese de Doutorado. Contudo, a mente não nos convém para uma coisa. Ela não serve para nos dizer quem somos em essência. Qual nossa última Verdade. Afinal, essa Verdade extrapola a esfera da lógica, do raciocínio, da cognição.

Por isso, alguns mestres costumam considerar os esforços psicoterápicos como inúteis, afinal, a mente não pode dar a resposta para uma descoberta que está além dela. Como dizia Ramana Maharshi, “…não se pode pedir ajuda ao ladrão para pegar o próprio ladrão…”.

Eu percebo de forma diferente. Talvez por ser ocidental; talvez por já ter feito terapia. Parecem-me procedimentos de convivência possível; ou seja, são compatíveis. Afinal, um meditador é alguém que está desenvolvendo muito a auto-observação, apto para mudanças, buscando transcender valores egoicos, ou seja, um cliente bem promissor para a abordagem psicoterápica. Mas alguns cuidados devem ser tomados, para que a via psicoterápica ajude o meditador, ao invés de impedir seu progresso. Em algumas atitudes, a psicoterapia pode ajudar o caminho meditativo. Em outras, pode atrapalhá-lo, e muito. Que situações seriam essas? Vamos relatar abaixo.

QUANDO A PSICOTERAPIA AJUDA O MEDITADOR

Existem 3 situações em que a psicoterapia ajuda ao meditador.

A primeira delas é quando resolve os “bugs” básicos do computador mental. Em meu livro “Medicina e Meditação” conto a história de um computador que servia uma fábrica, mas que, com o tempo, passou a querer controlá-la. E todos começaram a acreditar que a fábrica era do computador e a obedecê-lo! Confundiam a fábrica com o computador. De certa forma, assim nos relacionamos com a nossa mente, que é um espetacular computador, mas que confundimos com nossa essência. Mas como se libertar do computador se ele vive dando problemas, sempre com “bugs” que roubam todo seu tempo e energia para tentar recuperar os danos que ele promove? Quem teria tempo para se desidentificar da mente se está o tempo todo ocupado tentando resolver problemas que ela cria incessantemente? Até para se desidentificar da mente é preciso ter uma mínima consciência de que ela existe e como opera basicamente. E um computador muito defeituoso “rouba a cena”, suga a energia, e atrapalha essa percepção. Por isso, um processo psicoterápico pode ajudar, resolvendo os “defeitos” básicos do computador mental. Afinal, há pessoas que sequer reconhecem as próprias emoções, que sentem “algo ruim” e nem sabem que é raiva, que tem atitudes negativas e nem sabem que é medo. Não entendem, nem percebem os mais primários mecanismos da própria mente.

Uma vez confrontado com os mecanismos básicos da sua mente, surge a segunda forma pela qual o cliente psicoterápico pode ser ajudado. É quando o terapeuta tem a oportunidade de mostrar a mente exatamente como isso: como um mecanismo, apesar de espetacular. Mostrar a mente como um mecanismo é um dos maiores serviços que um psicoterapeuta pode prestar. Isso pode ser um enorme catalisador no caminho meditativo, pois é exatamente o que busca o relaxamento da lógica. Com o tempo, vivenciando a existência fora do terreno cognitivo, o meditador transforma o preceito de Descartes, que dizia “penso, logo existo” e passa a perceber que o que acontece é: “percebo que penso, portanto também existo fora da linha dos pensamentos”. Mas para perceber que pensa, a mente tem que ter-lhe sido apresentada como um mecanismo.

A terceira ajuda, que pode vir do psicoterapeuta, é então desafiar seu cliente a buscar sua identidade, sem estar limitado aos conceitos que a mente então oferece. Sobre isso vou lhe contar uma história que ouvi certa vez:

…Uma mulher agonizando teve a sensação que estava sendo levada para uma Luz.. – Quem é você? Disse uma voz. – Sou esposa do prefeito! – respondeu ela. – Perguntei quem é você e não com quem está casada. – SOU mãe de quatro filhos! – Perguntei quem é você e não quantos filhos você tem. – Sou a professora da escola. – Perguntei quem é você e não qual a sua profissão. E assim sucessivamente, fosse qual fosse a resposta, parecia que nunca era satisfatória para a pergunta: – Quem é você – Sou uma cristã! – Perguntei quem é você e não sua religião. – Sou uma pessoa que ia todos os dias à igreja e ajudava aos pobres e necessitados. – Perguntei quem é você e não o que fazia. Evidentemente a mulher não conseguiu passar pela prova, motivo pelo qual foi enviada novamente para a Terra. Mas, quando se recuperou da sua doença, tomou a decisão de averiguar quem ela era – verdadeiramente – e… tudo então foi muito diferente a partir desse dia. Até descobrir que o engano poderia ser visto na mente, mas que a resposta para aquela pergunta nunca seria encontrada em sua mente”.

Perceba que a Luz pergunta, sem dar a resposta. Talvez ela nem mesmo estivesse esperando essa resposta. Um bom psicoterapeuta pode aí funcionar como uma Luz libertadora, que convoca o seu cliente para ir além do terreno mental.

QUANDO A PSICOTERAPIA ATRASA O MEDITADOR

Existem 4 situações em que a psicoterapia bloqueia o caminho meditativo.

A primeira delas é aquela em que se prolonga demais, sempre buscando na mente as respostas para a própria mente. Buscar a completude, a Verdade Essencial, através da mente, acaba sendo como caminhar em círculos, ou como um cãozinho correndo atrás do próprio rabo. Já conheci indivíduos com mais de 20 anos de terapia, ou análise, muito confusos, e constantemente infelizes. Quando é escolhido o caminho de “além lógica”, o processo terapêutico se presta a resolver os “bugs” principais da mente, a mostrar os padrões cristalizados mais gritantes. A partir daí, permanecer na “dança da mente” retarda o processo meditativo, mais do que o ajuda.

A segunda acontece quando, repetidamente, o terapeuta faz cliente acreditar na premissa “eu sou essa mente”. Ou seja, ao contrário de apresentá-la como um mecanismo, faz a pessoa pensar que a mente é aquilo que ela (a pessoa) é. Acreditar que a pessoa é a mesma coisa que a sua mente, apresentando a mente como a identidade, ou até mesmo afirmando que a essência primordial poderá ser encontrada através de qualquer esforço mental. Aí está um dos maiores assassinatos ao progresso meditativo que se pode promover.

A terceira situação consiste no que poderíamos chamar de “reforço da dualidade”. A mente serve àquilo que Ramesh Balsekar chama de “unidade corpo-mente”, ou seja, a uma pessoa. Cada pessoa, ao formar sua estrutura psíquica, considera-se separada do Todo. Como diz Eckhart Tolle, do ponto de vista mental, o conceito de existir implica em destacar-se do restante. Isso é algo absolutamente natural. Afinal, a mente, como um instrumento de serviço a uma pessoa, considera que aquela pessoa existe separando-a do Todo. A partir daí, toda tentativa de progresso acontecerá em um cenário que, hipoteticamente, estaria “correndo por fora” do Todo. Como nos mostram alguns estudiosos, isso é algo aceitável enquanto se está construindo uma estrutura psíquica, porém, formada a estrutura básica, e resolvidos os “bugs” elementares do computador mental, é hora de “abrir-se para o Todo”, de buscar algo que nos una de volta à nossa essência. Nossa essência, para o “azar” da mente, é feita do mesmo material do Todo. Daí em diante, é preciso buscar um terreno fora da cognição, fora dos padrões emocionais conhecidos, além dos instintos que nos guiaram até então. O ego pode continuar existindo, mas nossa situação de nos confundirmos com ele vai se desvanecendo. Porém, isso só é possível no terreno além mente. Resolvidos os “bugs” iniciais, há um ponto em que dizer a um cliente que ele deve amar a si mesmo, e “esquecer o resto” é uma atitude que alimenta ainda mais o computador mental no seu “trabalho” de separar-nos do Todo. Até mesmo porque a mente nunca conhecerá o amor verdadeiro, mas apenas simulacros dele. Talvez fosse melhor dizer ao cliente: “quer exercitar sua compaixão? Então comece por você mesmo”. Desconsiderar tudo que o rodeia, é uma atitude antiecológica, antiprogressista e antiética. Afinal, mesmo no chamado “mundo das formas”, mesmo os chamados “iluminados” ainda estão relacionados a preceitos éticos. Quando se dá uma cédula em troca de um quilo de feijão, há alguém que espera que a cédula seja verdadeira, e há alguém que espera de fato estar recebendo um quilo de feijão.

Um último cenário é aquele em que se pretende trabalhar as vivências que acontecem durante o processo meditativo. Por várias razões, que não têm espaço aqui para serem explicadas, o processo meditativo tem características diferentes do processo terapêutico, e essas diferenças aumentam à medida que o meditador vai tendo mais tempo de prática. Vivências meditativas nunca se explicam, nunca se trabalham, apenas se vivem. Conteúdos mentais que surjam longe do espaço meditativo, esses sim, podem ser trabalhados. Inclusive, costumo recomendar que a prática meditativa não seja feita nas horas próximas à sessão terapêutica, exatamente para evitar a “contaminação” entre os dois processos.

MEDITAÇÃO E PSICOTERAPIA

Como mostramos, meditação e psicoterapia são processos compatíveis, mas podem atrapalhar um ao outro, ou se ajudar mutuamente.

Esses cuidados que aqui mostramos tornam os dois caminhos simbióticos, e não concorrentes.

Boa psicoterapia! Boa meditação!

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One Response to Meditação e Psicoterapia. Um dueto possível?

  1. Sâmara Santana Câmara 2 de junho de 2015 at 21:37 #

    – Ameeeei!!! Parabéns pelo artigo! 😉



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