PSYU Nº3 – Coluna ABERTA – Junho/2000

POR MAURÍCIO I. P. SALLES
POR MAURÍCIO I. P. SALLES
Inúmeros universos estavam me olhando!

Ah, quem me dera poder entrar dentro deles e desbravá-los, sem nenhuma intenção de rearranjá-los, apenas de conhecê-los.

A gente andava por entre esses universos, ou multiversos, pois cada um possui uma infinidade de mundos, e o nosso às vezes parecia mesclar-se com estes.

Eu olhava para os quartos e comecei a me sentir quase morando ali, com aqueles multiversos infinitos. Eu senti que havia um quarto que era meu, que ali era minha casa, e aqueles multiversos eram meus vizinhos.

E num processo de fusão, eu senti que aqueles multiversos eram meus, e eu pertencia a eles.

É lógico que dentro de metáforas bem construídas como essa, nos deparamos com inúmeras interpretações.

Onde estão os padrões? Era o que eu me perguntava. Pois eu estava ali, aparentemente são, mas estava fundido com todos à minha volta! E não eram meus colegas, eram os Internos do hospital! Parecia às vezes que eu havia entrado no clima deles, na casa deles, no ambiente deles. E mais do que isso, eu senti o ambiente como sendo meu e eles me aceitando como fazendo parte do ambiente deles.

Se eu, que sempre me considerei com uma boa educação, membro da elite da sociedade, com acesso às diversas áreas do conhecimento humano, me achava de repente junto com eles, como se a vida toda passada não fizesse mais sentido, onde é que estavam os padrões que poriam do lado de fora dos muros de um hospital psiquiátrico?

Certa vez eu ouvi uma frase, algo como assim: “As crianças e os loucos são os únicos que dizem a verdade. As crianças tornam-se adultos e os loucos são internados.”

A questão da verdade aí implícita varia de pessoa para pessoa. Mas eu diria que eles não detém a verdade, mas quem foi que disse que sou eu que detenho? Onde estão os padrões da verdade? Eles possuem um multiverso colorido e infinito, que é exatamente o mesmo com o qual eu me deparo ao deitar e fechar os olhos à noite.

São sonhos do mundo. E onde estão os padrões que dizem que não podemos ter o contrário, um mundo de sonhos?

Num processo muitas vezes irreversível, os multiversos internados fundem-se em outros multiversos, construindo uma constelação de seres enorme, única e indestrutível. Isso ocasiona a entrada cada vez maior nesse ambiente e a possibilidade de saída (vulgo: cura), cada vez mais remota.

E mais uma vez, lá vamos nós, detentores da verdade, escrita em livros científicos vazios de significado, com uma visão mecanicista e ultrapassada de mundo e, lógico, sem padrões nenhuns explícitos a tentar, num caminho oposto ao que andam todos os pacientes psiquiátricos (restringindo ainda mais: do lado de dentro dos muros) retirá-los de seus multiversos, julgando-nos deuses e trocando o sentido da palavra retirar por resgatar.

Talvez os únicos padrões que existam, que são os que procuro, só são encontrados nos multiversos profundos da alma humana, que só reinam do lado de dentro do muro.

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