Causas do Fracasso Relativo do Ensino a Distância, do Teletrabalho e da Terapia Online

Três grandes revoluções digitais propagandeadas no final dos anos 1990, em 2006, ainda não aconteceram: a do Ensino a Distância, a do Teletrabalho e a da Terapia On Line. Por quê? O que explicou a euforia dos idos de 1995 sobre esses três temas? As expectativas relacionadas foram cumpridas? E como se apresentam esses três temas hoje? Como lidar com eles, 10 anos após a popularização da internet? Este trabalho pretende responder a essas perguntas.
O final dos anos 1990 viu ascender, em escala planetária, a vertiginosa popularização das tecnologias digitais de comunicação que, apesar de já existirem antes (os primeiros “personal computers” são datados de 1980), ainda não haviam ganhado os espaços domésticos, privados, enfim, o cotidiano dos indivíduos, até aproximadamente o ano 1995.

Muito tem sido produzido a respeito das mudanças de costumes, isto é, do impacto dessas tecnologias no modo-de-vida no século XXI, especialmente na atual geração de crianças e jovens. Contudo, no início dessas mudanças, muito mais foi postulado a cerca de três revoluções que iriam decorrer não na esfera doméstica de vida, mas nas relações institucionais, públicas. As três revoluções mencionadas foram: o ensino a distancia, (revolução nas escolas e universidades), o teletrabalho (revolução nas empresas) e a terapia on line (revolução nos espaços terapêuticos, especialmente na psicoterapia). Estipulando, por convenção, a fase da euforia da Era Digital na segunda metade da década de 1990, podemos afirmar, portanto, que já se vai uma década do entusiasmo em torno do Digital.

O cotidiano de centenas de milhões de pessoas, isto é, o modo como se relacionam entre si e com o mundo, foi substancialmente alterado pelos computadores pessoais, celulares, internet, etc. Mas efetivamente as referidas três revoluções institucionais não ocorreram tal qual propagandeado. Por exemplo, nos idos de 1998, a classe de pedagogos brasileiros, aflita, se perguntava se a internet e o ensino a distância, não iria tornar as escolas obsoletas e gerar desemprego em massa de professores.

Da mesma forma, corporocratas preconizaram o fim dos escritórios, graças ao teletrabalho: em poucos anos nenhum executivo precisaria mais sair de casa para trabalhar. Por fim, no boom da Era Digital também se falou que a terapia on line iria criar novas modalidades de terapia e modelos de negócio em Psicologia Clínica, e com isso talvez esvaziar consultórios. Efetivamente, nenhuma dessas previsões se concretizou. Por quê? B – 1995: A Euforia em Torno do Digital B.1 – Marcos Históricos da Fase da Euforia Digital Por convenção, é estabelecido como 1995 a data do Boom da Era Digital no presente artigo. Além da popularização dos computadores pessoais e da internet, também foi o ano de publicação de três importantes livros: “Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet”, de Sherrl Turkle(1); “A Vida Digital”, de Nicholas Negroponte(2) e “A Estrada para o Futuro”, de Bill Gates(3). Essas três obras representam uma mesma visão eufórica, vinda de pesquisadores de tecnologia de ponta do vale do silício nos EUA, sobre uma otimista revolução que estaria ocorrendo com a internet. O primeiro, de autoria de uma psicóloga, trata de uma nova antropologia filosófica, extraída do Digital, que iria mudar a compreensão do Ser Humano e sua visão sobre si mesmo. O segundo, de um tecnólogo, fala de um modo de vida digital tornando as relações cada vez mais abstratas, em detrimento dos bens e serviços materiais, que logo seriam coisas do passado.

O terceiro, de autoria de um tecnocrata e até hoje maior empresário do mundo, é um livro comparável a “A Utopia”, de Thomas More: apresenta um mundo inteiro, em sua estrutura econômica e social, drasticamente alterado pela internet, rumo a um quadro de maior democracia e justiça. A corrente de tecno-pensadores associada a esse pensamento, que ganhou mais peso acadêmico com a fase mais produtiva de Pierre Levy, iniciada um ano depois, com o livro “O Que É o Virutal”(4), defendia, inicialmente, uma revolução imediata na Economia, cuja prova foi o advento da bolsa de valores eletrônica, a então extremamente bem sucedida Nasdaq. Em seguida, o modo de vida seria alterado progressivamente, passando a abarcar melhorias em todas as instituições sociais: empresas, escolas, lares, etc. Depois da economia, a vez seria das escolas, pois essas instituições precisariam de mudanças radicais para se ajustar à nova Economia. B.2 – “Os computadores serão os professores do futuro” Em 1998, o best-seller “Geração Digital”, de Don Tapscott (5), inventor do termo “Economia Digital” e até hoje considerado um guru da área, preconizava a perda de poder das escolas, em detrimento da capacidade de auto-desenvolvimento dos jovens com a internet. Esse instrumento iria não apenas tornar os jovens mais inteligentes, como mais instruídos e motivados a criar e compartilhar conteúdos de qualidade, deslocando o poder de ensino das escolas para os quartos das crianças e adolescentes. Os filhos, diz Tapscott, passaram a ter mais poder que os pais, da mesma forma como os alunos passarão, logo, a ter mais saber que os professores. Pedagogos do mundo inteiro se debruçam sobre a questão, em congressos e eventos diversos.

A palavra de ordem era: “A educação precisa ser reformulada para se ajustar ao computador”. B.3 – “Os escritórios serão esvaziados” Já no mundo das empresas, Domênico de Masi escreve “O Ócio Criativo”(6), onde diz que em poucos anos o teletrabalho iria esvaziar as sedes físicas das empresas, vistas pelo autor como “aquários anti-criatividade”. O deslocamento físico ao trabalho seria desnecessário, especialmente para executivos, que passariam a trabalhar em casa, em seus homeoffices, ou em qualquer lugar, como em um café ou restaurante, transmitindo dados de laptops. O teletrabalho iria não apenas baratear custos de projetos, evitando viagens, mas também aumentar a produtividade, uma vez que possibilitaria maior criatividade, e diminuir o stress dos profissionais, que poderiam ficar em casa, misturando trabalho, lazer e convívio familiar. B.4 – “A Terapia On Line mudará a Clínica” Nos espaços terapêuticos, como os consultórios de psicoterapia, começa-se a se discutir as implicações éticas e possibilidades técnicas de se fazer a comunicação terapêutica a distancia, via e-mails, chats, messengers ou video-conferências. Nessa fase, os defensores da terapia à distância citam o caso do Pequeno Hans, tratado por Sigmund Freud por meio de cartas, estando os dois em diferentes países, escritas pela mãe da criança-paciente. Contudo, comparando com o advento das tecnologias nas empresas e nas escolas, a terapia on line contou com bem menos entusiasmo e adesão.

Como prova, a legislação do Conselho Federal de Psicologia só passou a regulamentar a prática em seu Código de Ética em 2005 (7). Apesar de um entusiasmo reduzido, explicável talvez pelo baixo interesse da classe de psicólogos por tecnologias, a terapia on line rendeu muita discussão em termos de ética e técnica em congressos, periódicos e salas de aula de universidades. B.5 – O que explica a euforia digital de 1995-2000? A fase da euforia em torno da revolução digital e de suas três sub-revoluções (Ensino a Distância, Teletrabalho e Terapia On Line), talvez se justifique por uma intenção propagandística de grandes corporações, que objetivavam vender hardware e software para as instituições. Grandes empresas, por exemplo, investiram milhões em programas de educação corporativa a distância em 1996, ao ver que esse mercado estava movimentando milhões.

Uma outra possibilidade para explicar essa euforia foi o próprio senso de novidade associado às tecnologias digitais. Tecnocratas, nerds e proto-intelectuais da virada do Milênio teriam recriado a velha expectativa pela qual “A tecnologia vai resolver todos os problemas” e “A tecnologia vai gerar um modo melhor em todos os sentidos”, dessa vez dando uma roupagem digital a esse mito moderno. Não que as tecnologias não sejam prodígios e resolvam determinados problemas. Porém a experiência parece demonstrar que mais prodigioso parece ser saber usá-las de forma sensata, resolvendo assim problemas sem criar outros.

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