Transferência e Contratransferência: uma visão comportamental

Transferência e contratransferência são conceitos centrais na compreensão da relação terapêutica nas diversas vertentes da psicanálise. Cunhados por Sigmund Freud, criador da teoria psicanalítica, os termos transferência e contratransferência foram empregados de maneira diferente pela Psicoterapia Analítica Funcional, uma forma de terapia comportamental fundamentada no behaviorismo radical de B.F. Skinner. Assim, o objetivo deste texto é apresentar uma breve explicação dos conceitos freudianos de transferência e contratransferência e explicitar sua aplicação na Psicoterapia Analítica Funcional.
Em psicanálise, a transferência é “um processo constitutivo do tratamento psicanalítico mediante o qual os desejos inconscientes do analisando concernentes a objetos externos passam a se repetir, no âmbito da relação analítica, na pessoa do analista, colocado na posição desses diversos objetos” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 766-767). Em outras palavras, a transferência é um conjunto de sentimentos positivos ou negativos que o paciente dirige ao psicanalista, sentimentos estes que não são justificáveis em sua atitude profissional, mas que estão fundamentados nas experiências que o paciente teve em sua vida com seus pais ou criadores. Portanto, a característica da transferência é repetir padrões infantis num processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam na pessoa do analista (FREUD, 1916/1976). Inicialmente, a transferência era considerada um impedimento ao processo analítico, na medida em que o conjunto de sentimentos do paciente dirigido ao seu analista teria por objetivo colocar um obstáculo ao processo de análise ao tirar o profissional de sua função e dar a ele outro papel em sua vida (por exemplo, torná-lo seu amante).

Desta forma, a transferência seria um mecanismo de resistência que se manifesta pela tentativa de impedir que a análise continue. Em resumo, neste primeiro entendimento, a finalidade inconsciente da atitude transferencial seria, ao tirar o psicanalista de sua função, tornar o prosseguimento da análise impossível. Contudo, a transferência passou a ser entendida, posteriormente, como peça fundamental na terapia psicanalítica, pois seria ela que permitira e sustentaria a relação terapêutica; de fato, os psicanalistas passaram a utilizar o campo transferencial como instrumento de tratamento. Neste sentido, a superação da transferência ocorreria quando o analista apontasse os sentimentos transferenciais que se originaram em acontecimentos anteriores e que agora estão sendo repetidos.

A contratransferência, na psicanálise freudiana, é compreendida como o “conjunto das reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste” (LAPLANCHE & PONTALIS, 2001, p. 102), que, segundo Freud, seria um obstáculo à analise que deveria ser neutralizado e superado. É importante observar que Freud utilizou o termo “contratransferência” apenas três vezes ao longo dos 23 volumes de suas obras completas, o que demonstra a concepção negativa que ele tinha acerca deste fenômeno (FREUD, 1910/1970; FREUD, 1915, 1969; SANCHES, 1994). Embora a transferência e a contratransferência tenham recebido desenvolvimentos ulteriores no âmbito psicanalítico (por exemplo, com Sándor Ferenczi, Melanie Klein e Heinrich Racker), uma visão anti-mentalista destes fenômenos foi proposta na década de 1980 por Robert Kohlenberg e Mavis Tsai, criadores da Psicoterapia Analítica Funcional – FAP (do inglês, Functional Analytic Psychotherapy).

A FAP é uma forma de terapia comportamental fundamentada na filosofia do Behaviorismo Radical e nos princípios da Análise do Comportamento. Segundo a FAP, a relação interpessoal entre cliente e terapeuta é o único instrumento de atuação, ou seja, é somente através dela que as mudanças comportamentais são possíveis. Por isso, as subjetividades (sentimentos, emoções, volições, etc.) do cliente e do terapeuta são centrais no manejo terapêutico. Neste sentido, a relação terapêutica pode ser compreendida como uma dinâmica de transferência e contratransferência (VANDENBERGHE, 2006). Entretanto, na Psicoterapia Analítica Funcional, a transferência não é compreendida como um processo inconsciente que ocorre dentro da mente do cliente, mas é vista como a ocorrência de Comportamentos Clinicamente Relevantes – CRBs (do inglês, Clinically Relevant Behaviors).

Os Comportamentos Clinicamente Relevantes (ou CRBs) são os comportamentos-problema e os comportamentos finais desejados que ocorrem durante a sessão (KOHLENBERG & TSAI, 2001). Isto quer dizer que os padrões de interação do cliente com seu mundo cotidiano certamente repetir-se-ão de forma muito semelhante no ambiente clínico. Os CRBs são de três tipos: a) os comportamentos referentes “aos problemas vigentes do cliente e cuja freqüência deveria ser reduzida ao longo da terapia” (KOHLENBERG & TSAI, 2001, p. 20); b) as melhoras ao vivo da problemática que ocorrem dentro da sessão e que podem ser generalizadas para os ambientes extra-consultório onde os problemas do cliente ocorrem e c) a análise funcional que o cliente faz das contingências mantenedoras dos seus padrões de interação com o mundo ou, dito de outra forma, é a observação e interpretação que ele faz dos seus próprios comportamentos (KOHLENBERG & TSAI, 2001).

Consequentemente, o objetivo do psicoterapeuta é observar, evocar e consequenciar CRBs. Por exemplo, imagine um cliente com problemas de assertividade que seja frequentemente desrespeitado e explorado pelas pessoas, o que certamente lhe traz sofrimento. O terapeuta, então, deve estar atento para os comportamentos inassertivos que ocorrem espontaneamente ou então evocá-los na sessão para poder consequenciá-los, visando promover melhoras nestes comportamentos, melhoras estas que devem sempre ser reforçadas. Além de observar, evocar e consequenciar CRBs, o terapeuta deve promover ativamente a generalização, ou seja, deve engendrar maneiras para que as melhoras que ocorreram ao vivo durante a sessão também possam ocorrer na vida cotidiana do cliente (KOHLENBERG & TSAI, 2001; VANDENBERGHE, 2006).

A contratransferência, por sua vez, também não é conceituada como algo que ocorre na mente do psicólogo, mas é compreendida como os efeitos que os CRBs têm sobre a pessoa do terapeuta. Desta forma, é fundamental que o terapeuta observe seus sentimentos em relação ao cliente, uma vez que estes sentimentos são subprodutos da interação que ocorre durante a sessão. Na medida em que o profissional tenha identificado a relação entre o que o cliente faz com o que ele sente, este pode fazer uma comparação com os efeitos que o cliente tem sobre outras pessoas em sua vida cotidiana, o que é um poderoso instrumento de atuação.

É importante observar que muitos comportamentalistas criticam o uso dos termos transferência e contratransferência, na medida em que estão bem estabelecidos em uma abordagem teórica com bases epistemológicas absolutamente diferentes da do Behaviorismo Radical, apontando, com razão, que o mais importante é descrever os processos comportamentais que ocorrem em uma relação terapêutica. Contudo, a Psicoterapia Analítica Funcional, embasada na filosofia do Behaviorismo Radical e nos princípios da Análise do Comportamento, emprega os conceitos freudianos de transferência e contratransferência de forma anti-mentalista ao explicitar que a relação interpessoal entre cliente e terapeuta é um poderoso instrumento de atuação nos processos de mudança comportamental.

Referências:

FREUD, S. (1910/1970). As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica. In: Coleção standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. 11, pp. 143-156). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1915/1969). Observações sobre o amor transferencial. In: Coleção standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. 12, pp. 208-221). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1916/1976). Conferências introdutórias sobre psicanálise. Conferência XXVII – Transferência. In: Coleção standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. 16, pp. 503-521). Rio de Janeiro: Imago. SANCHES, G.P. (1994). Sigmund Freud e Sándor Ferenczi. In: S.A. FIGUEIRA (org), Contratransferência: de Freud aos contemporâneos (pp. 33-59). São Paulo: Casa do Psicólogo.

KOHLENBERG, R. J., TSAI, M. (2001). Psicoterapia analítica funcional: criando relações terapêuticas intensas e curativas. Santo André: ESETec.

VANDENBERGHE, L. M. A. (2006). Psicoterapia Analítica Funcional – FAP. Curso ministrado no XV Encontro da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental.

* Agradeço ao Prof. Dr. Roberto Alves Banaco pelas valiosas sugestões e revisão deste texto.

2 Responses to Transferência e Contratransferência: uma visão comportamental

  1. Sandra Soares 31 de agosto de 2015 at 13:57 #

    Nao entendi direito essa relacao paciente e analista e uma relacao de sentimentos e abstrato e por isso fica dificil de entender

  2. José Eduardo 19 de agosto de 2015 at 9:53 #

    Adorei o artigo, pois o factor interacção entre o clínico e o paciente é fundamental