E assim comecei com as coisas da Infância

Transitar simultaneamente pelos temas e ações referentes à Infância, à Psicoterapia e ao Psicodrama (Socionomia) estimula a minha atuação profissional há muitos anos e constitui-se em aventura cotidiana. Assim, convidada a ser uma das colunistas da RedePsi, escolhi conversar sobre temas nos amplos limites desses campos ao meu modo de livre pensar, incluindo um bocado de linhas sobre a minha trajetória profissional, para que, nas entrelinhas, vocês possam também conhecer um pouquinho de mim.
Antes de me tornar psicóloga e mãe, trabalhei em uma escola para crianças entre 2 e 6 anos. Meu trabalho, inicialmente, foi a de uma faz tudo, por vezes secretária, em outras, auxiliar, e em algumas situações de emergência, fui professora. Muito jovem, nessa época eu tinha coluna vertebral e joelhos em excelente forma (hoje são suficientemente bons…) para carregar crianças no colo e também os seus “cacarecos”, e para andar com dois ou três puxando minhas calças. Tinha “estômago” para tolerar os vômitos, babás e ranhos de narizes resfriados, desprendimento para limpar a bundinha dos pequenos, paciência ao contar histórias às crianças que puxavam o meu queixo com solicitações especiais de atenção. Minhas canelas ficaram roxas pelos chutes de birrentos reizinhos e pelas corridas para socorrer quedas e pancadas. Ofereci carinhos para acalmar os pequenos chorões quando mostravam as marcas de recentes arcadas dentárias cravadas nos delicados e gorduchos braços. Eu tive o coração em sobressalto, mas aquecido pelos abraços, beijos, olhares e sorrisos desses meus primeiros professores sobre a infância, a comunicação infantil e o desenvolvimento humano.

Quando terminei a faculdade (1975), abri (precocemente) consultório, mas como psicóloga da escola, passei ao trabalho de orientação educacional e psicológica. Com carta branca para me movimentar, criar e propor, me arregalei! Este termo não é muito elegante, mas foi exatamente o que aconteceu, pois com tanto material humano e oportunidades, trabalhei intensamente com as crianças, com os pais delas e com os professores, por mais de uma década.

Muitas foram as aprendizagens dessa época que, introjetadas, oferecem suporte à minha prática clínica hoje. A experiência adquirida pelo relacionamento diário em ambiente escolar com diferentes crianças e grupos de crianças “não tem preço”, pois é muito diferente obter conhecimentos através da (con)vivência do que através dos livros. Os psicoterapeutas e supervisores sabem que o que se lê nos livros, quase sempre, faz mais sentido quando é possível uma articulação com a prática, ou seja, quando há a percepção de que aquilo que foi visto em teoria se operacionaliza no aqui e agora dos atendimentos. Daí sim é deflagrada uma fome de leituras e a retenção desses conteúdos é, por fim, eficiente.

Os psicoterapeutas de crianças sabem o quanto é difícil adquirir a experiência na lida com crianças quando estão apenas no início da prática clínica: quase não têm pacientes e nem experiência, como adquiri-la então? Creio, é através de muito estudo, através do tempo e da humildade para trabalhos voluntários, gratuitos ou de baixa remuneração. É também atenção para agarrar as chances com unhas e dentes.

Tive a sorte, e o bom senso (agora sei), de aproveitar esta oportunidade para aprender sobre a peculiar comunicação infantil: sintética, ainda tão pouco verbal e muito não-verbal. Descobrir o modo como as crianças captam, compreendem e sentem a vida: com esperteza, minúcia, concretude e com as emoções à flor da pele. Observar como as crianças evoluem, dia após dia, nos relacionamentos com outras crianças e com os adultos, no relacionamento com a aprendizagem acadêmica, no relacionamento consigo. Considero uma benção ter apreendido as diferentes potencialidades e limitações das crianças em cada faixa etária (e em cada ano). Este conhecimento evitou muita saia justa no contato com meninos, meninas e pais no ambiente clínico, tipo de situação que assisto com freqüência acontecer com jovens psicoterapeutas de crianças, a quem recomendo, antes mesmo de lerem livros sobre desenvolvimento, providenciar um estágio onde possam conviver com grupos de crianças. Só terão a ganhar.

E foi assim que me meti com as coisas da infância, um dos temas desta coluna. É claro que não estou considerando o período em que fui criança, pois esses são outros quinhentos, que não ouso me referir, pelo menos neste primeiro contato com vocês.

Até Breve!

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