Woody Allen: ‘Bergman sempre fazia perguntas difíceis’

Especial para o 'The New York Times' 19/08/2007

[Nascido no dia 14 de julho de 1918 em Uppsala, ao norte de Estocolmo, Ingmar Bergman foi casado cinco vezes, teve nove filhos e sua vida privada o levou a ser alvo da atenção pública em vários momentos. Faleceu em 30/07/2007. Em 18/08/2007 Bergman é enterrado em cerimônia privada na Suécia.]

Recebi a notícia em Oviedo, uma charmosa cidadezinha do norte da Espanha onde estou filmando, de que Bergman tinha morrido. Um amigo em comum telefonou e me deram o recado no set. Bergman disse para mim uma vez que não queria morrer num dia ensolarado, e, como eu não estava lá, posso apenas desejar que ele tenha tido o tempo ameno que todos os diretores preferem.

Já disse isso antes para pessoas que tem uma visão romântica dos artistas e acham que a criação é sagrada: no final, a arte não é capaz de salvá-lo. Não importa quantos trabalhos sublimes você faça (e Bergman nos deu um menu de fantásticas obras-primas do cinema), eles não o protegem da fatal batida à porta que interrompeu o cavaleiro e seus amigos no final de "O Sétimo Selo". E da mesma forma, num dia de verão de julho, Bergman, o grande poeta cinematográfico da mortalidade, não pôde prolongar seu próprio xeque-mate, e o melhor cineasta do meu tempo se foi.

Fiz piadas sobre a arte ser o catolicismo dos intelectuais, ou seja, uma esperançosa crença na vida após a morte. Melhor do que continuar vivendo nos corações e mentes do público é continuar vivendo no próprio apartamento, é assim que eu vejo. E certamente os filmes de Bergman continuarão a viver e serão vistos em museus e na TV e vendidos em DVDs, mas tendo-o conhecido, isso é apenas uma compensação banal, e tenho certeza de que ele ficaria muito contente em trocar cada um dos seus filmes por mais um ano de vida. Isso o teria dado perto de 60 aniversários a mais para continuar fazendo filmes; uma notável produção criativa. E, na minha imaginação, não tenho dúvidas de que seria dessa forma que ele usaria seu tempo extra, fazendo a coisa que ele mais gostava entre todas as outras, rodando filmes.

Sem preocupação com a bilheteria

Bergman gostava do processo. Ele não se preocupava muito com as respostas aos seus filmes. Ele gostava quando era apreciado, mas como me disse uma vez, "Se não gostam de um filme que eu fiz, fico chateado – por cerca de 30 segundos." Ele não estava interessado nos resultados das bilheterias, mesmo quando os produtores e distribuidores telefonavam para ele com os números do fim de semana de estréia, que entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Ele dizia: "Até o meio da semana o prognóstico extremamente otimista deles vai despencar para nada." Ele gostava da aclamação da crítica, mas nem por um segundo precisava dela, e apesar de querer que o público gostasse de seu trabalho, ele nem sempre tornou seus filmes mais fáceis de assimilar.

Ainda assim, aqueles que se empenharam um pouco em decifrá-los tiveram seus esforços recompensados. Por exemplo, quando você percebe que ambas as mulheres em "O Silêncio" são de fato apenas dois aspectos conflitantes da mesma mulher, o filme que do contrário é enigmático, abre-se como que por encantamento. Ou, se você estiver por dentro da filosofia dinamarquesa antes de assistir "O Sétimo Selo" ou "O Rosto", certamente ficará mais fácil, mas os dons de Bergman como contador de histórias eram tão fantásticos que ele conseguia manter o público atento e cativo mesmo com uma obra difícil. Ouvi pessoas saindo de alguns filmes dele dizendo: "Não entendi bem o que acabei de ver, mas fiquei colado à poltrona em cada cena."

A fidelidade de Bergman era com a teatralidade, e ele foi também um grande diretor de palco, mas seu trabalho no cinema não trazia informações só do teatro; tinha influências também da pintura, música, literatura e filosofia. Seu trabalho investigou as preocupações mais profundas da humanidade, fazendo com que seus poemas de celulóide fossem freqüentemente profundos. Mortalidade, amor, arte, o silêncio de Deus, a dificuldade das relações humanas, a agonia das dúvidas religiosas, casamentos falidos, a inabilidade das pessoas em se comunicarem.

O que responder a um gênio?

E apesar disso tudo, era um homem amável, divertido, gostava de fazer piadas, era inseguro quanto a seus imensos talentos, encantado pelas mulheres. Conhecê-lo não era como entrar de repente no templo criativo de um gênio formidável, intimidador, depressivo e introspectivo que entoava complexas epifanias com um sotaque suíço sobre o terrível destino do homem em um universo sombrio. Era mais assim: "Woody, tive esse sonho bobo em que eu apareço no set para fazer um filme e não consigo me decidir onde colocar a câmera; o ponto é, sei que sou bom nisso e que venho fazendo filmes há anos. Você já teve esses sonhos nervosos?" ou "Você acha que seria interessante fazer um filme em que a câmera não se move um centímetro e os atores somente entram e saem de enquadramento? Ou as pessoas simplesmente ririam de mim?"

O que alguém responde a um gênio no telefone? Eu não achava que era uma boa idéia, mas nas mãos dele acho que teria saído algo especial. Afinal, o repertório que ele inventou para explorar as profundidades psicológicas dos atores também teria soado absurdo para aqueles que aprendem a filmar de uma forma ortodoxa. Nas escolas de cinema (fui expulso da Universidade de Nova York bem rápido quando fui aluno de cinema lá nos anos 50) a ênfase está sempre no movimento. Essas são fotografias em movimento, ensinam para os alunos, e a câmera deve se mover. E os professores estavam certo. Mas Bergman colocava a câmera no rosto de Liv Ullmann ou de Bibi Andersson e a deixava lá, sem qualquer movimento, e o tempo passava, e mais tempo se passava, e uma coisa estranha e maravilhosa própria de seu brilhantismo acontecia. O espectador era sugado para dentro da personagem e, em vez de entediado, ficava intrigado.

Bergman, por todas as suas idiossincrasias e obsessões religiosas e filosóficas, era um contador de histórias que não sabia deixar de entreter mesmo quando sua mente estava dramatizando as idéias de Nietzsche ou Kierkegaard. Eu costumava ter longas conversas ao telefone com ele. Ele ligava da ilha onde morava. Nunca aceitei seus convites para visitá-lo porque não gostava da idéia de viajar de avião, e não me apetecia voar num avião pequeno para um pontinho no mapa próximo à Rússia para o que eu imaginava que seria um almoço regado a iogurte. Nós sempre discutíamos filmes, e obviamente eu o deixava falar muito mais porque me sentia privilegiado ouvindo seus pensamentos e idéias. Ele projetava filmes para si próprio todos os dias e nunca se cansava de assisti-los. Todos os tipos, mudos e falados. Para dormir ele via algum filme que não o fizesse pensar para relaxar sua ansiedade, às vezes um filme de James Bond.

Como todos os grandes cineastas como Felini, Antonioni e Buñuel, por exemplo, Bergman recebeu suas críticas. Mas, perdoando alguns lapsos ocasionais, todos os filmes desses artistas ecoaram profundamente em milhões de pessoas ao redor do mundo. De fato, as pessoas que mais conhecem sobre cinema, aqueles que fazem filmes – diretores, escritores, atores, diretores de fotografia, editores – vêem o trabalho de Bergman com a mais alta reverência.

Pelo fato de eu ter elogiado seu trabalho com tanto entusiasmo ao longo de décadas, quando ele morreu muitos jornais e revistas me ligaram para fazer comentários ou dar entrevistas. Como se eu tivesse algo de grande valor para acrescentar às notícias da morte além de mais uma vez simplesmente exaltar sua grandeza. Como ele me influenciou, perguntaram para mim? Ele não poderia ter me influenciado, respondi, ele era um gênio e eu não sou um e a genialidade não pode ser aprendida ou sua mágica ser transmitida.

Quando Bergman surgiu em Nova York como um grande cineasta, eu era um jovem escritor de humor e comediante da noite. Será que o trabalho de alguém pode ser influenciado tanto por Groucho Marx quanto por Ingmar Bergman? Mas consegui absorver uma coisa dele, algo que não depende de gênio nem de talento, mas algo que pode de fato ser aprendido e desenvolvido. Estou falando sobre o que é informalmente chamado de ética de trabalho, mas na verdade é simplesmente pura disciplina.

Aprendi com seu exemplo a tentar fazer sempre o melhor filme que eu sou capaz de fazer naquele momento, nunca se submetendo ao mundo maluco dos sucessos e fracassos ou sucumbindo a interpretar o papel glamouroso do diretor de cinema, mas sim terminando um filme e partindo para o próximo. Bergman fez cerca de 60 filmes em sua vida, eu fiz 38. Pelo menos, se não posso chegar à sua qualidade, talvez possa chegar perto da quantidade.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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