A Consciência sem limites

 

Revelar a realidade sem limites é revelar to­dos os conflitos como sendo ilusórios. Essa compreensão final é chamada nirvana, moksha, desprendimento, liberta­ção, iluminação, satori – livre dos pares, livre da visão fasci­nante da separação, livre das cadeias de limites ilusórios da pessoa. E com essa compreensão, estaremos prontos para vivenciar essa consciência sem limites, a chamada "consciência da unidade",


Ken Wilber

 

A consciência da unidade é a simples consciência do ver­dadeiro território sem limites. Para explicá-Ia, não precisa­mos de truques, de fetiches, de jargão místico ou de miasmas de ocultismo. Se a realidade é de fato uma condição sem li­mites – e para negar isso temos de dar as costas à Teoria da Relatividade, às ciências ecológicas, à filosofia do organis­mo e à sabedoria do Oriente – se a realidade é uma condi­ção sem limites, então a consciência da unidade é o estado na­tural da consciência que reconhece essa realidade. Em resu­mo, a consciência da unidade é a consciência sem limites.

Por mais simples que possa parecer, no entanto, é ex­tremamente difícil discutir adequadamente a consciência sem limites ou a consciência da unidade. Isso ocorre porque nossa linguagem – o meio no qual toda discussão verbal deve flu­tuar – é uma linguagem de limites. As pala­vras, os símbolos e os próprios pensamentos são na realidade apenas limites, pois toda vez que pensamos ou usamos uma palavra ou nome, já estamos criando limites. Mesmo quando dizemos "a realidade é consciência sem limites", ainda criamos uma distinção entre limite e não-limite! Portanto, devemos ter em mente a grande dificuldade acarretada pela linguagem dualística. Sim, "a realidade é sem limites", contanto que nos lembremos que a consciência sem limites é uma cons­ciência direta, imediata e não-verbal e, de modo algum, uma mera teoria filosófica. É por essas razões que os sábios mís­ticos enfatizam que a realidade encontra-se além de nomes e for­mas, palavras e pensamentos, divisões e limites. Além de todos os limites está o verdadeiro mundo da Qüididade, o Vazio, o Dharmakaya, o Tao, o Brahman, a Divindade. E no mundo da qüididade não há nem bom nem mau, nem santo nem pecador, nem nascimento nem morte, pois nesse mundo não há limites.

Principalmente, não há limites entre sujeito e objeto, eu e não-eu, observador e observado. Eu enfatizo esse pon­to, e me alongarei nele por todo este artigo, porque de todos os limites que o homem constrói, o limite entre o eu e o não-eu é o mais fundamental. É o limite que mais relutamos em abandonar. Afinal, foi o primeiro limite que traçamos. E o nosso limite mais estimado. Investimos anos para forta­lecê-Io e defendê-Io, para torná-Io seguro. É o próprio limite que estabelece nossa noção de sermos um ente separado. E, à medida que envelhecemos, cheios de anos e memórias, e começamos a entrar no nada final da morte, esse é o últi­mo limite que abandonamos. O limite entre o eu e o não-eu é o primeiro que traçamos e o último que apagamos. De to­dos os limites que construímos, esse é o limite primário.

Tão fundamental é o limite primário entre o eu e o não-eu que todos os nossos outros limites dele dependem. Não so­mos capazes de distinguir limites entre coisas até que tenha­mos nos distinguido das coisas. Todo limite que nós criamos depende de nossa existência separada, isto é, de nosso limi­te primário entre eu e não-eu.

Certamente, todos e quaisquer limites são obstáculos à consciência da unidade; mas já que todos os nossos outros li­mites dependem deste limite primário, ver através dele é ver através de todos. Num certo sentido, isso é extremamente oportuno, pois, se tivéssemos de lidar com todos os nossos limites em separado, um por um, levaríamos toda uma vida, talvez várias, para dissolvê-Ios e obter a "libertação dos pa­res". Contudo, ao focalizar o limite primário, nossa tarefa toma-se enormemente simplificada. É como se nossos di­versos limites constituíssem uma pirâmide invertida de blo­cos, todos eles repousando no bloco da extremidade. Se re­tirarmos esse bloco, o edifício todo desmorona.

Podemos analisar esse limite primário sob muitos ân­gulos e sob muitos nomes. Ele é a separação irredutível en­tre aquilo que chamo eu e aquilo que chamo não-eu, eu aqui e os objetos lá. É a ruptura entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. É aquele espaço entre meu organismo e o meio ambiente. É a brecha entre o "eu" que agora lê e a página lida. No todo, é a brecha entre a pessoa que vivencia e o mundo vivenciado. Portanto, parece que, no lado de "den­tro" do limite primário, existe o "eu", o sujeito, o que pensa, sente e vê, e do outro lado, há o não-eu, o mundo dos obje­tos lá fora, o meio ambiente, estranho e separado de mim.

Na consciência da unidade, na percepção sem limites, a noção do eu expande-se de modo a incluir sem omissões tu­do o que antes foi considerado como não-eu. A noção que a pessoa tem de identidade transfere-se para o universo in­teiro, para todos os mundos, superiores ou inferiores, ma­nifestos ou não-manifestos, sagrados ou profanos. E, é óbvio, isso não pode ocorrer enquanto o limite primário que separa o eu do universo é erroneamente interpretado como sendo verdadeiro. Mas, uma vez compreendida a ilusão que o limite primário representa, a noção de eu que a pessoa tem passa a envolver o Todo – então não há mais nada fora da pessoa, nem lugar algum onde traçar qualquer tipo de limite. Assim, se em certa medida conseguimos começar a ver através do limite primário, a noção da consciência da unidade não estará muito longe de nós.

A partir do que foi dito, é bastante fácil chegar à con­clusão errônea de que tudo o que devemos fazer para entrar na consciência da unidade é destruir o limite primário. Falan­do grosseiramente, isso é verdadeiro, mas a situação real é muitíssimo mais simples. De fato, não precisamos ter o tra­balho de tentar destruir o limite primário, por uma razão extremamente elementar: o limite primário não existe.

Como todos os limites, ele é apenas uma ilusão. Ape­nas parece existir. Fingimos que existe, supomos que exis­te, comportamo-nos como se ele existisse. Mas não é o caso. E se formos em busca do limite primário, não descobriremos dele qualquer vestígio, pois os fantasmas não têm sombra.

Neste exato momento, e quero dizer bem agora, enquanto você está lendo isto, não existe um limite primário verda­deiro, e portanto, neste exato momento, não há uma bar­reira à consciência da unidade.

Logo, não sairemos à procura do limite primário para depois tentar destruí-Io. Na verdade, isso seria um grave erro, ou, pelo menos, uma colossal perda de tempo, pois não se pode destruir o que não existe. Tentar destruir o limite pri­mário é como estar no meio de uma miragem agitando os braços furiosamente numa tentativa de fazê-Ia desaparecer ­apesar da intensa agitação que tal atividade pode criar, ela não deixa de ser algo totalmente fútil. Não se pode erradi­car uma ilusão. Podemos apenas compreendê-Ia e ver atra­vés da própria ilusão. Sob este ponto de vista, mesmo a ten­tativa de destruir o limite primário através de atividades ela­boradas tais como a ioga, a concentração mental, as preces, o ritual, os cânticos, o jejum – tudo isso simplesmente su­põe a realidade do limite primário, e, portanto reforça e per­petua a própria ilusão que pretende destruir. Como disse Fe­nelon, Arcebispo de Cambrai: "Não há ilusão mais perigosa do que as fantasias através das quais as pessoas tentam evi­tar as ilusões."

Em vez de supor que o limite primário é real e depois tomar providências para tentar eliminá-Io, primeiro iremos em busca do limite primário propriamente dito. E, se de fato é uma ilusão, nunca acharemos um vestígio dele. Poderemos então compreender espontaneamente que aquilo que pen­sávamos estar obstruindo nossa consciência da unidade nunca existiu. E, esse insight já é um vislumbre da percepção sem limites.

Agora, o que realmente significa procurar o limite pri­mário? Procurar o limite primário é procurar muito cuida­dosamente a sensação de ser um eu separado, um ente que vivencia e sente, permanecendo distinto das experiências e sentimentos. Estou sugerindo aqui que, se procurarmos cuida­dosamente esse "eu", não o encontraremos. E, já que esse sentimento de ser um eu isolado parece ser o maior obstá­culo à consciência da unidade, procurá-lo e não o encontrar é, ao mesmo tempo, vislumbrar a própria consciência da unidade. Vejamos o que diz o grande sábio budista Padma Sambhava: "Se o próprio ser que procura, ao procurar-se, não puder ser encontrado, o objetivo e também o próprio fim da busca terão sido atingidos."

No início de tal experiência, devemos ser bem claros com relação ao que realmente significa essa "ausência do eu" ou "ausência do limite primário". Não significa uma per­da de todas as sensibilidades; não é um estado de transe, caos, tumulto, ou comportamento descontrolado. Não se trata de uma explosão de minha mente e corpo, que a seguir fundem-se em Uma Grande Massa Informe de algum tipo em algum lu­gar. Não tem nada em comum com a regressão esquizofrê­nica, que não transcende de modo algum o limite do eu/não-eu, mas, ao contrário, embaralha-o e confunde-o.

Quando falamos de "perda do eu" queremos dizer isto: a sensação de ser um ente separado é uma sensação que foi mal-compreendida e mal-interpretada, e é a dispersão dessa interpretação errônea que nos interessa. Todos temos aque­la sensação, aquele sentimento radical de ser um ente iso­lado separado de nosso fluxo de experiência e separado do mundo à nossa volta. Todos nós temos de um lado o sen­timento do "eu" e de outro o sentimento do mundo exter­no. No entanto, se observarmos cuidadosamente a sensação de "eu aqui dentro" e a sensação de "mundo lá fora", ve­rificaremos que essas duas sensações são de fato uma e a mes­ma. Em outras palavras, aquilo que agora sinto ser o mun­do objetivo lá fora é a mesma coisa que sinto ser o eu subje­tivo aqui dentro. A separação entre a pessoa que vivencia e o mundo das vivências não existe, e, portanto não pode ser encontrada.

De início, isso pode soar muito estranho, porque esta­mos acostumados a acreditar em limites. Parece óbvio que eu seja aquele que ouve os sons, aquele que tem sentimen­tos, aquele que vê cenas. Mas, por outro lado, não é estra­nho que eu me descreva como o observador que observa as coisas observadas? Ou o ouvinte que ouve os sons ouvidos? Será a percepção assim tão complicada? Será que realmen­te envolve três entidades – um observador, a observação e o que é observado?

Com certeza, não existem aqui três entidades separa­das. Será possível a existência de um observador sem o ato de observar ou sem algo a ser observado? Será possível exis­tir o ato de observar sem um observador ou sem algo a ser observado? O fato é que o observador, a observação e o que é observado são todos aspectos de um só processo – nunca, em tempo algum, um deles é encontrado sem os outros.

Nosso problema é que temos três palavras – "obser­vador", "observar" e "observado" – para designar uma úni­ca atividade, a experiência de ver. Poderíamos também des­crever um único curso de água como "a corrente corre a cor­renteza". Isso é completamente redundante e introduz três fatores onde na verdade só existe um. No entanto, hipnoti­zados como estamos pela magia verbal de Adão, supomos a existência de uma entidade separada, o "observador" que, através de algum tipo de processo chamado "observar", adqui­re conhecimento de uma outra coisa ainda chamada o "obser­vado". Então supomos naturalmente que somos apenas o observador, totalmente divorciados do observado. Nosso mun­do, que nos foi dado apenas uma vez, é assim separado bem ao meio, com o "observador aqui dentro" confrontando, do outro lado de um abismo profundo, as coisas "observadas lá fora".

Mas vamos voltar ao comecinho do próprio processo de vivência e verificar se o que vivencia é de fato completa­mente distinto do vivenciado. Comecemos com o sentido da audição. Feche os olhos e preste atenção ao verdadeiro processo de ouvir. Note todos os sons diferentes flutuando por aí – pássaros cantando, carros roncando, grilos cricrilan­do, crianças rindo, a televisão gritando. Mas, com todos esses sons, note que há uma coisa que você não pode ouvir, não importa quão atentamente escute cada som. Você não pode ouvir o ouvinte. Isto é, para além de todos esses sons, você não consegue ouvir um ouvinte daqueles sons.

Não conseguimos ouvir o ouvinte porque ele não existe. O que nos ensinaram a chamar de "ouvinte" é, na verdade, apenas a própria experiência de ouvir, e não somos capazes de ouvir o ouvir. Na realidade, há apenas um fluxo de sons, e esse fluxo não se divide em sujeito e objeto. Não há limi­tes aqui.

Se deixarmos a sensação de ser um "ouvinte" que ha­bita dentro do crânio dissolver-se no próprio ato de ouvir, poderemos descobrir o nosso "eu" fundindo-se com a tota­lidade do mundo dos "sons de fora". Como explicou um mestre zen, referindo-se ao momento de sua iluminação, "quando ouvi o sino do templo tocando, de repente não ha­via mais sino nem eu, apenas o som". Foi através de uma experiência assim, diz-se, que Avalokitesvara recebeu tam­bém sua iluminação; ao tornar consciente o processo de ou­vir, ele percebeu que não havia um eu separado, nem um ouvin­te, distinto do próprio fluxo de audição. Quando tentamos ouvir o ouvinte subjetivo, tudo o que encontramos são sons objetivos. E isso significa que não ouvimos sons, nós somos esses sons. O ouvinte é todo som ouvido, e não uma enti­dade separada que recua e ouve o ouvir.

O mesmo é verdadeiro com respeito ao processo da vi­são. Quando olhamos cuidadosamente o campo visual, ele parece quase suspenso no espaço, suspenso no nada. Con­tudo, consiste em um padrão infinitamente rico de luzes en­trelaçadas, cores e nuanças, formando tudo isso uma monta­nha aqui, uma nuvem ali, um riacho acolá. Mas, entre todas as cenas visíveis, há ainda uma coisa que não podemos ver, não importa o quanto forçamos a vista. Não podemos ver o observador desse campo visual.

Quanto mais tentamos ver o observador, mais nos intri­ga a sua ausência. Durante anos, supusemos com toda a na­turalidade que nós éramos o observador que via as cenas. Mas no momento que passamos a buscar o observador, não encontramos vestígio dele. De fato, insistindo em tentar ver o observador, tudo o que encontramos são coisas vis­tas. Isso apenas quer dizer que eu, o "observador", não vejo cenas – antes, eu, o "observador", sou idêntico a todas aque­las cenas agora presentes. O assim chamado observador é na­da mais que tudo o que é visto. Ao olharmos uma árvore, não há uma experiência chamada "árvore" e outra experiên­cia chamada "vendo a árvore". Há apenas a experiência única de ver-a-árvore. Não vemos esse ver, assim como não senti­mos o olfato ou não degustamos o paladar.

Parece que, onde quer que procuremos um eu separado da experiência, ele desaparece dentro dela. Quando procura­mos o experimentador, descobrimos apenas outra experiên­cia – o sujeito e o objeto sempre demonstram ser uma só coisa. Essa é uma realidade bastante perturbadora e, por isso, você pode estar se sentindo muito confuso, sentado aí pen­sando nisso tudo. Mas levemos a coisa adiante só mais um pouco. Enquanto você está aí pensando sobre isso, pode tam­bém encontrar o pensador que realiza essa atividade?

Em outras palavras, existirá um pensador que pensa o pensamento "estou confuso", ou existirá apenas o pensa­mento "estou confuso"? Há, com certeza, apenas o pen­samento; se houvesse também um pensador, será que você pensaria sobre o pensador que está pensando o pensamento? Parece óbvio que aquilo que erroneamente acreditamos ser um pensador é na verdade nada mais que o presente fluxo de pensamentos.

Logo, quando o pensamento foi "estou confuso", você não estava ao mesmo tempo consciente do pensador que es­tava pensando "estou confuso". Havia apenas o pensamento presente – "estou confuso". Quando, então, você procurou o pensador desse pensamento, tudo o que encontrou foi ou­tro pensamento, isto é, "estou pensando que estou confuso". Nunca encontrou um pensador separado do pensamento, o que quer dizer apenas que os dois são idênticos.

É precisamente por isso que os sábios aconselham-nos a não tentar destruir o "eu", mas apenas a procurá-Io, por­que toda vez que o procuramos tudo o que encontramos é a sua prévia ausência. Mas, mesmo já tendo começado a com­preender que não existe um ouvinte, nem um degustador, nem um observador, nem um pensador isolado, ainda é pro­vável que encontremos dentro de nós um sentimento nuclear, irredutível, de que somos entes separados e isolados. Ainda há aquela sensação de ser separado do mundo lá fora. Há ainda aquele sentimento íntimo que de algum modo conheço como sendo meu "eu" interior. Mesmo se não posso ver, de­gustar ou ouvir a mim mesmo, definitivamente posso sentir a mim mesmo.

Bem, será que você pode encontrar, além do sentimen­to que agora chama de seu "eu", um sentidor que está fazen­do o sentimento? Se parece que você consegue isso, será que você pode sentir o sentidor que está fazendo o sentimento? Novamente, essa sensação nuclear de ser um sentidor que tem sentimentos é ela própria apenas um outro sentimento. O "sentidor" não passa de um sentimento, assim como o pensador é apenas um pensamento e o degustador é apenas o gosto. Também nesse caso, não há um sentidor separado e diferente dos sentimentos – e nunca houve.

Assim, a conclusão inevitável começa a nos ocorrer: não existe um eu separado do mundo. Sempre supusemos haver um vivenciador separado, mas no momento em que realmen­te partimos à sua procura, ele desapareceu dentro da expe­riência. Como afirma Alan Watts, "Há apenas a experiência. Não existe algo ou alguém experimentando a experiência! Não sentimos sentimentos, nem pensamos pensamentos, ou sentimos sensações, assim como não ouvimos a audição, nem vemos a visão, nem cheiramos o olfato. 'Estou ótimo' quer dizer que um sentimento ótimo está presente. Não significa a existência de uma coisa chamada 'eu' e de outra coisa se­parada chamada 'sentimento', de modo que, quando colo­cadas juntas, esse 'eu' sinta os sentimentos ótimos. Não exis­tem sentimentos que não os sentimentos presentes, e qual­quer sentimento presente é um 'eu'. Ninguém jamais encon­trou um 'eu' separado de uma experiência, ou uma experiência separada de um 'eu' – o que quer apenas dizer que os dois são a mesma coisa".

Agora, quando você começa a compreender que não existe uma brecha entre "você" e suas experiências, será que não começa a se tornar óbvio o fato de não haver brecha en­tre "você" e o mundo que é vivenciado? Você não tem a sen­sação de um pássaro, mas é a sensação de um pássaro. Você não tem a experiência de uma mesa, você é a experiência da mesa. Você não ouve o som do trovão, você é o som do trovão. A sensação interior chamada "você" e a sensação exterior chamada "o mundo'" são uma mesma sensação. O sujeito interior e o objeto exterior são dois nomes para um único sentimento, e isso não é algo que você deve sentir, é a única coisa que você pode sentir.

Isso significa que seu estado de consciência neste mo­mento, quer você se dê conta quer não, é consciência da uni­dade. Neste momento, você já é o cosmo, você já é a tota­lidade de sua experiência atual. Seu estado atual é sempre o de consciência da unidade, porque o eu separado, que parece ser o grande obstáculo a essa consciência, é sempre uma ilu­são. Não precisamos tentar destruir o eu separado, já que, para início de conversa, ele não existe. Tudo o que precisa­mos fazer é procurá-Io, e não seremos capazes de encontrá-Io. O próprio fato de não o encontrar é um reconhecimento da consciência da unidade. Em outras palavras, toda vez que pro­curamos nosso "eu" e não o encontramos, momentaneamen­te caímos em nosso estado anterior e real de consciência da unidade.

Por mais estranho que tudo isso possa parecer à pri­meira vista, a percepção interior de que não existe um eu separado sempre foi óbvia para os místicos e sábios de todas as épocas, e constitui um dos pontos centrais da filosofia perene. Embora existam inúmeras citações que poderiam ilustrar essa percepção, o decantado resumo dos ensinamen­tos de Buda exprime tudo:

Só o sofrimento existe, ninguém que sofra;

O feito existe, mas não quem o faça;

O Nirvana existe, mas ninguém que o procure;

O Caminho existe, mas ninguém que o percorra.

Essa exata compreensão é universalmente considerada a libertação de todo sofrimento. Podemos afirmá-Io positi­vamente: quando compreendemos que nosso eu é o Todo, então não há nada fora de nós mesmos que possa causar so­frimento. Não há nada fora do universo contra o qual possa­mos chocar-nos. E podemos afirmá-Io negativamente: essa compreensão é uma libertação de todo sofrimento porque é, a priori, uma libertação frente à idéia de que há um eu que pode sofrer. Como afirma Wei Wu Wei:

Por que você está infeliz?

Porque 99,9 por cento

De tudo o que você pensa e

De tudo o que você faz

É para você mesmo –

­E você não existe.

Apenas as partes sofrem, não o Todo. E essa conclu­são, quando afirmada "negativamente" pelos místicos, diz: "Tornamo-nos livres do sofrimento quando percebemos que a parte é uma ilusão – não existe um eu separado, pronto para sofrer." Quando afirmada "positivamente", diz: "So­mos sempre o Todo, conhecendo apenas a liberdade, o des­prendimento e o esplendor. Perceber o Todo é escapar do destino reservado às partes, que é apenas o sofrimento, a dor e a morte." O Budismo Hinayana enfatiza a primeira colo­cação, o Hinduísmo e o Cristianismo a segunda, e o Budis­mo Mahayana parece estabelecer um equilíbrio satisfatório entre ambas. Contudo, todas essas correntes são testemu­nhas da mesma percepção interior.

Quando compreendemos que não existe a parte, caímos no Todo. Quando percebemos que não existe eu algum (e isso ocorre neste exato momento), percebemos que nossa verdadeira identidade é sempre a Identidade Suprema. À luz onipresente da consciência sem limites, aquilo que anterior­mente consideramos o eu isolado e interior revela-se como parte integrante do cosmos lá fora. E esse é o nosso verda­deiro eu. Para onde quer que olhemos, veremos nossos ros­tos originais em toda a parte.

"Voltei à sala [assim um mestre zen explicou a sua pri­meira visão do sem-limite] e estava prestes a voltar ao meu lugar quando toda a perspectiva mudou. Quando olhei ao meu redor, para cima e para baixo, o universo todo com seus muitos obje­tos sensíveis parecia completamente diferente; o que antes era repugnante, juntamente com a ignorância e as paixões, era agora visto apenas como o transbordar de minha natureza mais íntima, que, nela mesma, permanecia clara, verdadeira e trans­parente."

Tat tvam asi, dizem os hindus. "És Isso. O teu verdadeiro Eu é idêntico à Energia suprema da qual todas as coisas no universo são uma manifestação."

Esse eu verdadeiro recebeu, das diversas tradições mís­ticas e metafísicas, dezenas de nomes diferentes durante a história da humanidade. É conhecido como o Filho Divino, al-insan al-Kamil, Adam-kadmon, ruarch adonai, Nous, Pneuma, Purusha, Tathagatagarbha, o Homem Universal, a Hóstia, o Brahman-Atman, ipseidade. E, de um ponto de vista leve­mente diferente, ele é sinônimo de Dharmadhatu, de Vazio, de Qüididade e de Divindade. E todas essas palavras são apenas símbolos do verdadeiro mundo do sem-limites.

Freqüentemente nos referimos ao verdadeiro eu usan­do algum tipo de designação que sugere ser ele o núcleo "mais íntimo" do homem, predominantemente subjetivo, interior, pessoal, não-objetivo. Os místicos nos dizem, unânimes, que "o Reino dos Céus está dentro de nós", que devemos bus­car nas profundezas de nossa alma até descobrir, oculto em nossa porção mais íntima, o Verdadeiro Eu de toda a exis­tência. Como costumava dizer Swami Prabhavananda: "Quem, o que você pensa que é? Absoluta, básica e fundamentalmen­te, bem lá no fundo?"

Encontramos, com freqüência, referências ao eu verda­deiro como sendo algo semelhante à "Testemunha interior", o "Cognoscente e Observador Absoluto", a "Natureza mais Íntima" de uma pessoa, a "Subjetividade Absoluta", e assim por diante. Por isso, Shankara, mestre do Hinduísmo Vedan­ta, diria que "há uma Realidade auto-existente, que é a base de nossa consciência de ego. Essa Realidade é a Testemunha dos três estados de consciência [vigília, sonho e sono pro­fundo], e é diferente dos cinco sentidos. Essa Realidade é Cognoscente de todos os estados de consciência. É ciente da presença ou da ausência da mente. É Atman, o Ser Su­premo, o antigo". Consideremos esta excelente citação do mestre zen Shibyama:

Ela (a Realidade) é "Subjetividade Absoluta", que trans­cende tanto a subjetividade como a objetividade e livremente cria e usa de ambas. É "Subjetividade Fundamental", que nunca pode ser objetivada ou conceitualizada, e é completa em si pró­pria, contendo a plena significação da própria existência. Cha­má-Ia por esses nomes constitui já um erro, um passo em di­reção à objetivação e à conceituação. O Mestre Eisai obser­vou, nesse sentido, que "ela é sempre inominável".

A Subjetividade Absoluta que nunca pode ser objetivada ou conceituada é livre das limitações de espaço e tempo; não está sujeita à vida e à morte; vai além do sujeito e do obje­to e, apesar de viver num indivíduo, não se restringe a ele.

Mas dizer que o verdadeiro eu é o Verdadeiro Obser­vador, a Testemunha Interior ou a Subjetividade Absoluta dentro de cada um de nós parece contraditório à luz do que dissemos até agora sobre a consciência da unidade. Isso porque, por um lado, vimos que o verdadeiro eu é uma percepção sem limites e sempre presente na qual o sujeito e o objeto, o observador e o observado, o vivenciador e o vivenciado formam um único continuum. No entanto, por outro lado, acabamos de descrever o verdadeiro eu como sendo a Tes­temunha interior, o Cognoscente fundamental. Dissemos que é o Observador e não o observado, o interior e não o exterior. O que fazer então dessa aparente contradição?

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer as dificul­dades que o místico enfrenta ao tentar descrever a inefável experiência da consciência da unidade. Ocupando posição de destaque, há o fato de que o verdadeiro eu é uma percepção sem limites, enquanto todas as nossas palavras e pensamen­tos são apenas limites. Entretanto, isso não é um defeito res­trito a uma língua em particular, mas é inerente a todas as línguas devido à sua própria estrutura. Uma língua possui utilidade apenas na medida em que pode construir limites. Uma língua sem limites não constitui língua alguma, e assim o místico que tenta falar lógica e formalmente sobre a cons­ciência da unidade está fadado a parecer paradoxal ou contra­ditório. O problema é que a estrutura de qualquer língua não consegue captar a natureza da consciência da unidade, assim como um garfo não consegue apanhar o oceano.

Logo, o místico deve contentar-se em apontar e indi­car um Caminho através do qual todos nós possamos viven­ciar por nós mesmos a consciência da unidade. Nesse sentido, o caminho místico é puramente experimental. O místico pede que não acreditemos em algo apenas com base na fé cega, que não aceitemos autoridade alguma a não ser a auto­ridade de nossa compreensão e experiência. Ele nos pede ape­nas que tentemos empreender algumas experiências de per­cepção, que observemos atentamente nosso atual estado de existência e que tentemos ver nosso eu e nosso mundo da forma mais clara possível. Não pense, apenas olhe!, excla­mou Wittgenstein.

Mas, olhar para onde? É essa a questão a que os mís­ticos universalmente respondem dizendo, "Olhe para den­tro. Bem lá no fundo, pois o verdadeiro eu está dentro de nós". O místico não está descrevendo o verdadeiro eu co­mo algo que existe dentro de nós – ele está apontando pa­ra dentro de nós. Na verdade, está dizendo para olharmos para dentro, não porque a resposta final esteja de fato dentro de nós e não fora, mas porque, quando olhamos para dentro cuidadosa e consistentemente, cedo ou tarde acabaremos encontrando o exterior. Em outras palavras, percebemos que o interior e o exterior, o sujeito e o objeto, o observador e o observado são a mesma coisa, e assim ingressamos esponta­neamente em nosso estado natural. Portanto, o místico co­meça a falar do verdadeiro eu de um modo que parece con­traditório em relação a tudo o que dissemos anteriormente. Mas se o seguirmos até o fim, a conclusão – como veremos ­será idêntica.

Consideremos de início o que pode significar algo co­mo "Subjetividade Absoluta" ou "Testemunha Interior", pelo menos segundo o modo pelo qual o místico utiliza esses termos. A Subjetividade Absoluta seria aquilo que nunca, em tempo algum, em circunstância alguma, pode ser um obje­to particular que pode ser visto, ouvido, conhecido ou per­cebido. Assim como o Observador Absoluto, ela nunca pode ser vista. Assim como o Cognoscente absoluto, ela nunca po­de ser conhecida. Lao Tzé fala sobre isso da seguinte forma:

Porque o olho contempla mas não consegue vislumbrá-lo,

Ele é chamado evasivo.

Porque o ouvido escuta mas não consegue ouvi-Io,

Ele é chamado o rarefeito.

Porque a mão sente mas não consegue encontrá-Io,

Ele é chamado o infinitesimal.

A fim de entrar em contato com esse eu verdadeiro ou Subjetividade Absoluta, a maioria dos místicos, portanto pro­cede de modo mais ou menos semelhante ao descrito por Sri Ramana Maharshi: "O corpo grosseiro, composto dos sete humores, não sou eu; os cinco órgãos do sentido que captam seus respectivos objetos, não sou eu; até a mente que pensa, não sou eu."

Mas então o que poderia ser esse eu verdadeiro? Como Ramana demonstrou, ele não pode ser meu corpo, porque posso senti-Io e conhecê-Io, e aquilo que pode ser conheci­do não é o Cognoscente absoluto. Ele não pode ser meus de­sejos, esperanças, medos e emoções, pois até certo ponto posso observá-Ios e senti-Ios, e aquilo que pode ser observado não é o Observador absoluto. Ele não pode ser minha mente, minha personalidade, meus pensamentos, pois tudo isso po­de ser testemunhado, e aquilo que pode ser testemunhado não é a Testemunha absoluta.

Ao procurar persistentemente o eu verdadeiro dentro de nós, na verdade estamos começando a perceber que ele não pode mesmo ser encontrado dentro de nós. Costumávamos pensar sobre nós mesmos como o "pequeno sujeito" aqui dentro que observava todos aqueles objetos lá fora. Mas o místico nos mostra claramente que esse "pequeno sujeito" na verdade pode ser considerado um objeto! Não é um ver­dadeiro sujeito, não é o meu eu verdadeiro.

No entanto, aqui se encontra, de acordo com o místico, o nosso principal problema. A maioria de nós supõe que pode sentir-se, conhecer-se ou perceber-se, ou pelo me­nos ter de certa forma consciência de nós mesmos. Te­mos essa sensação até mesmo agora. No entanto, responde o místico, o fato de que posso ver, ou conhecer, ou sentir meu "eu" neste momento, leva-me a concluir que esse "eu" não pode de modo algum ser meu verdadeiro eu. É um falso eu, um pseudo-eu, uma ilusão, um engodo. Inadvertidamen­te identificamo-nos com um complexo de objetos, todos conhecidos ou passíveis de ser conhecidos. Esse complexo de objetos cognoscíveis não pode ser o verdadeiro Cognos­cente ou verdadeiro Eu. Nós nos identificamos com nosso corpo, mente e personalidade, imaginando que esses obje­tos constituem nosso verdadeiro "eu", e passamos a vida in­teira tentando defender, proteger e prolongar aquilo que é apenas uma ilusão.

Somos vítimas de um caso epidêmico de identidade tro­cada, e nossa Identidade Suprema, silenciosamente, espera ser descoberta. O místico quer apenas nos acordar para aquilo que na verdade e para sempre somos, sob o manto de nosso pseu­do-eu, e anterior a ele. Dessa maneira, o místico nos pede que deixemos de nos identificar com esse falso eu e percebamos que tudo aquilo que podemos conhecer, pensar ou sentir a respeito de nós mesmos não pode ser o nosso Eu verdadeiro.

Minha mente, meu corpo, meus pensamentos, meus desejos – nada disso constitui o meu verdadeiro Eu, nem tampouco as árvores, as estrelas, as nuvens e as montanhas, pois posso testemunhar todos esses objetos com igual acerto. Prosseguindo desse modo, torno-me transparente para o meu Eu verdadeiro, e percebo que, de algum modo, aquilo que sou vai muito além desse organismo isolado, limitado pela pele. Quanto mais penetro dentro de mim mesmo, mais me deixo para trás.

À medida que essa investigação avança, ocorre aquilo que o Lankavatara Sutra chama de "uma reviravolta na base mais profunda da consciência". Quanto mais procuramos o Observador absoluto, mais percebemos que não pode­mos encontrá-lo na forma de um objeto. E a razão por que não conseguimos encontrá-lo na forma de um determina­do objeto é porque ele é todo objeto! Não conseguimos sen­ti-lo porque ele é tudo o que sentimos. Não conseguimos vivenciá-lo porque ele é tudo o que é vivenciado. Nada do que podemos observar é o Observador – porque Ele é tudo o que vemos. A medida que penetramos dentro de nós mes­mos para procurar nosso verdadeiro eu, encontramos ape­nas o mundo. ­

Mas algo estranho ocorreu agora, pois percebemos que o verdadeiro eu dentro de nós é na verdade o mundo exte­rior, e vice-versa. O sujeito e o objeto, o lado de dentro e o lado de fora são e sempre serão a mesma coisa. Não exis­te limite primário. O mundo é nosso corpo, o lugar de onde observo e aquilo que observo.

Já que o verdadeiro eu não está nem dentro nem fora, já que o sujeito e o objeto na verdade não são coisas distin­tas, o místico pode falar da realidade de muitas maneiras diferentes, contraditórias apenas na aparência. Pode dizer que em toda a realidade não existe objeto algum. Pode afir­mar que a realidade não contém sujeito algum. Pode negar a existência tanto do sujeito como do objeto. Pode falar de uma Subjetividade Absoluta que transcende, mas que tam­bém inclui o sujeito relativo e o objeto relativo. Isso tudo constitui simplesmente modos diferentes de dizer que o mun­do interior e o mundo exterior são apenas dois nomes dife­rentes para o mesmo estado único e sempre presente de cons­ciência sem limites.

Talvez agora se torne óbvio que, apesar das formula­ções teóricas complexas que com freqüência cercam a filo­sofia perene, a essência da mensagem mística é clara, sim­ples e objetiva. Fazendo uma recapitulação: a realidade é uma união de opostos, ou "não-dual". Como são os limites e os mapas simbólicos que parecem fa­zer dos opostos inimigos conflitantes, dizer que a realidade é não-dual é dizer que a realidade é sem limites.

O mundo real não é uma coleção de coisas separadas e independentes, divorciadas en­tre si no tempo e no espaço. Cada coisa e acontecimento no cosmos interdepende de e inter-relaciona-se com todas as ou­tras coisas e acontecimentos no cosmos. E, mais uma vez, já que são nossos limites e mapas simbólicos que nos dão a ver a ilusão de entidades independentes, dizer que o mundo real não contém coisas separadas é dizer que o mundo real é sem limites.

A descoberta do mundo real sem limites é a consciência da unidade. Não é que na consciên­cia da unidade estejamos olhando para o verdadeiro território sem limites. Não; a consciência da unidade é o verdadeiro ter­ritório sem limites. A realidade, segundo dizem todos, é cons­ciência sem limites – isso, apenas isso, é o nosso Eu Verda­deiro. Para citar o fundador da mecânica quântica, Erwin Schroedinger, "podemos atirar-nos por inteiro sobre o solo, estirados sobre a Mãe Terra, com certeza absoluta que nós e ela somos a mesma coisa. Somos tão firmes, tão estabele­cidos, tão invulneráveis quanto ela, ou, ainda, mil vezes mais firmes e invulneráveis. Ela certamente nos engolirá amanhã, assim como nos trará de volta novamente para novas lutas e novos sofrimentos. E isso não ocorrerá 'num certo dia': agora, hoje, todos os dias, ela nos traz de volta, não uma, mas mi­lhares de vezes, e, do mesmo modo, ela nos engole milhares de vezes todos os dias. Isso porque eternamente e sempre há apenas o agora, um único agora; o presente é a única coisa que não tem fim".

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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