A agressividade, pulsão de morte e suas correlações com ato de viver

“Assim como Eva, formada por uma costela de Adão, fica a ele indissoluvelmente ligada, assim a pulsão de vida, nascida da pulsão de morte, não mais se liberta desta origem”. “Monotype Corsiva”.

Nesse artigo falaremos um pouco da intrincada teoria pulsional freudiana, aquela que nos traz o conceito de Pulsão de Morte, tão questionado por algumas outras correntes, tendo como seu motor principal a questão da compulsão a repetição, fenômeno tão observado na prática clínica.
A finalidade da pulsão de morte é o nirvana, a ausência de angústia, falta, sofrimento. Ela entende a busca da vida como algo que atrapalha a isso, portanto "desmancha" as enormes unidades que Eros tende a construir. A Pulsão de Vida uniu para Freud suas anteriores formulações sobre as pulsões, englobando então as de autoconservação e sexuais, que caracterizaram sua primeira dualidade.

Entendemos que sem a energia proveniente da Pulsão de Morte, energia essa "agressiva", não nos mexeríamos, não buscaríamos quase nada. Se a Pulsão de Morte, Thanatus, vencer, morreremos (o que é o nosso fim inevitável). Freud às vésperas de sua morte, chegou a tecer uma consideração de que, ao final, toda morte seria um suicídio, nesse sentido mais exato da pulsão de morte (link 1).

Essa conceituação é muito complexa, um primeiro movimento para entendê-la é deixar de atribuir valores de bem e mal ou bom e mau para elas. A Pulsão de Vida não é necessariamente a boazinha e a de Morte a malvada assassina, não é assim que funciona. Podemos pensar, como exemplo, que sem o trabalho da Pulsão de Morte não teríamos a descarga que se traduz pelo orgasmo, o gozo, tão estudado por nós.

O corpo é na verdade, o gerador de toda "tensão de necessidade". O nirvana supõe a ausência de necessidade, de tensão, de angústia, de falta. Para nós, organismos vivos, esse estado só é atingido antes de nascermos ou depois com a morte dele.

“Estaria em contradição à natureza conservadora dos instintos que o objetivo da vida fosse um estado de coisas que jamais houvesse sido atingido. Pelo contrário, ele deve ser um estado de coisas antigo, um estado inicial de que a entidade viva, numa ou noutra ocasião, se afastou e ao qual se esforça por retornar através dos tortuosos caminhos ao longo dos quais seu desenvolvimento conduz. Se tomarmos como verdade que não conhece exceção o fato de tudo o que vive morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que ‘o objetivo de toda vida é a morte’, e, voltando o olhar para trás, que as coisas inanimadas existiram antes das vivas”.(1)

Mas de uma maneira geral entenderemos a questão da teoria pulsional, como algo que é anterior a tudo, como se fosse uma analogia de nossa fonte energética, que falará de tudo que nos constituirá. Então pensamos as pulsões, sempre como estado inicial de tudo e acreditamos que, a conceituação de masoquismo primário, nos levará mesmo nessa direção.

Esquematizando:
Masoquismo primário->investimento->sadismo<->masoquismo secundário (em Freud).

"O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós”.(link 1)

A postulação freudiana do masoquismo primário só pode se completar e se tornar compreensível após sua postulação da Pulsão de Morte (1920). As pulsões estariam sim, desde sempre, presentes já que sua fonte é o somático. A questão do sadismo para Freud é posterior a esse masoquismo inicial, nunca anterior. Já M. Klein nomeia esse sadismo inicial, seria análogo a esse masoquismo descrito por Freud, mas que descaracterizaria seu conceito de masoquismo primário. Quando falamos de investimento estamos nos referindo a essa pulsão (agressividade) voltada para um objeto exterior. Outro ponto que valerá ressaltar é que libido é a energia em seu total e que ela só poderá ser entendida, dessa forma, depois do postulado da Pulsão de Morte.

Está claro que o que Freud descreverá um estado inicial da pulsão de Morte (masoquismo primário) que só depois que investe pra fora do organismo será entendido como sadismo.

“Outro fato notável é que os instintos de vida têm muito mais contato com nossa percepção interna, surgindo como rompedores da paz e constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que os instintos de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. O princípio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos de morte. É verdade que mantém guarda sobre os estímulos provindos de fora, que são encarados como perigos por ambos os tipos de instintos, mas se acha mais especialmente em guarda contra os aumentos de estimulação provindos de dentro, que tornariam mais difícil a tarefa de viver”.

É preciso que se entenda esse "agressivo" como algo que impele, impulsiona através dessa força intrínseca que Freud chegou a cogitar em chamar de "destrudo", mas deixou-lhe o nome de libido mesmo, ao final tudo é libido, acontece de maneira conjunta.

Freud chegou também a dizer, que toda morte ao final, era a vitória da Pulsão de Morte. Não podemos esquecer que ficaram juntas as pulsões que faziam dualidade na 1ª Teoria pulsional, então pulsão de autoconservação (pulsões do ego)+pulsões sexuais=Pulsão de vida= Eros X Pulsão de Morte.

Freud na mesma entrevista (link 1), diz: "Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem constituir uma exceção?" Então poderemos ter a certeza que a Pulsão de Morte sempre triunfará, lei inexorável.
Perguntamo-nos então: por que será que vivemos sob a negação da existência dessa lei? Como se tivéssemos todo o tempo? Como se o término não marcasse tudo que pulsa sobre a Terra?

“É neste ponto que se insere sua famosa afirmação de que as pulsões de autoconservação, guardiãs da vida, são também lacaios da morte, o que significa que todo organismo almeja morrer, porém à sua própria maneira”.(link 2)

Como Freud diz que a religiosidade parte de um sentimento de desamparo infantil e que se sustenta em uma idéia delirante, será que poderemos pensá-la justamente como uma tentativa de negar a finitude de tudo? Entregar ao destino a uma “força maior” as resoluções que nos mantêm vivos.

Quantos mecanismos adoecidos e neuróticos desenvolvemos frente a perdas comuns da vida: de posto de trabalho, de amor, de lugar etc? Quantos lutos saudáveis de crescimento nos negamos a operar, abordando como sofredores uma tragédia engendrada apenas pela impossibilidade de lidar com o fim de algo? Eros em seu movimento depende de Thanatus e seus fins para novos começos. Em última instância negar a morte é recusar-se a viver.

Há movimentos que se colocam na vida do sujeito psíquico que embora mantenham uma aparente ligação com a vida, desvendam em última instância seu grande apego à repetição, ao que chamamos de escolha pela compulsão a repetição, que o leva sempre ao mesmo destino, por mais que tenha a impressão de que partiu de outro lugar.

“A impressão que dão é de serem perseguidas por um destino maligno ou possuídas por algum poder ‘demoníaco’; a psicanálise, porém, sempre foi de opinião de que seu destino é, na maior parte, arranjado por elas próprias e determinado por influências infantis primitivas”.

E ainda:

“Os pormenores do processo pelo qual a repressão transforma uma possibilidade de prazer numa fonte de desprazer ainda não estão claramente compreendidos, ou não podem ser claramente representados; não há dúvida, porém, de que todo desprazer neurótico é dessa espécie, ou seja, um prazer que não pode ser sentido como tal” (1)

Entenderíamos a partir dessa colocação toda a complicada trama de um sintoma e como ele ao mesmo tempo em que busca uma repetição daquilo que impede a realização do recalcado, também, por outro lado, busca uma descarga, uma suspensão desse mesmo recalque. Os conteúdos recalcados (ideativos) não deixam jamais de receber carga pulsional, visando sempre seu irromper à consciência e busca de realização. Um sintoma teria segundo o próprio Freud um aspecto de resistência à análise e outro, ainda mais importante, de tentativa de romper com o recalque(1).

A compreensão da dinâmica e principalmente do ponto de vista econômico da teoria pulsional a partir da postulação da pulsão de Morte, torna-se nesse aspecto, fundamental para o entendimento do funcionamento do aparelho psíquico proposto por Freud.

Entender que o adoecimento também visa uma realização e não somente é uma “pedra no meio do caminho”, trás em si uma funcionalidade que, se não compreendida, jamais poderá ser investigada e desmanchada em um processo terapêutico.

Vejamos um típico exemplo:

”Os sonhos de ansiedade, como repetida e pormenorizadamente demonstrei, não oferecem essa exceção, nem tampouco o fazem os ‘sonhos de castigo’, porque eles simplesmente substituem a realização de desejo proibida pela punição adequada a ela, isto é, realizam o desejo do sentimento de culpa que é a reação ao impulso repudiado”.(Freud – Além do Princípio de Prazer)

Por essa explicação dada por Freud veremos que a realização poderá vir alimentada para satisfazer mais uma instância que outra, no caso aí descrito, pelos impulsos do superego se traduzindo para o ego em necessidade de castigo. Entender isso é avançar no sentido de lidar com o “sofrimento” que brota para entendimento no longo caminho analítico, muitas vezes se traduzindo em actings/out com danosas conseqüências para o analisando, por mais que o psicanalista tenha intentado propósitos de proteção e sublinhado aquela recomendação proposta por Freud, para que em determinados momentos analíticos, não fossem tomadas decisões muito importantes pelo analisando, sem antes levar para suas sessões. Esse tipo de manifestação, o acting/out, muitas vezes, exige a tradução concreta para o real do conflito do recalcado, e não quer de maneira nenhuma dizer de um fracasso da análise, muito pelo contrário.

Voltemos um pouco mais, então, para o entendimento da complexa proposta da teoria pulsional definitiva de Freud.

Peter Gay em seu livro da biografia de Freud, conta-nos:

“Nos anos imediatamente posteriores à guerra, a produção de Freud foi escassa, se medida apenas pelo número de palavras. Ele escreveu artigos sobre a homossexualidade e o curioso tema da telepatia – sempre intrigante aos olhos de Freud. Além disso, publicou três livros curtos, bem a dizer folhetos: Além do Princípio do Prazer, em 1920, Psicologia de Grupo e Análise do Ego, em 1921, e O Ego e o Id, em 1923. Somados, esses textos não ultrapassam talvez duzentas páginas. Mas o tamanho é enganador; eles expõem o sistema estrutural de Freud ao qual se manteve fiel pelo resto da vida”.

Esse texto nos conta Gay, que aqui tratamos, o Além do Princípio do Prazer, foi escrito nos anos posteriores à guerra (1ª Grande), onde Freud preocupava-se com a importação de chocolates e tecidos e marcados pelo grande sofrimento da guerra e preocupação com parentes que dela participavam.

Conta-nos que, seu primeiro biógrafo, Fritz Wittels, quis estabelecer essas relações para o desenvolvimento desse postulado e chegou a dizer:

“Em 1920(com Além do Princípio do Prazer ) Freud surpreendeu-nos com a descoberta de que, em tudo que é vivo, existe, além do princípio do prazer, o qual, desde os dias de cultura helênica, tem sido chamado de Eros, um outro princípio: o que vive quer morrer de novo. Originando-se do pó, quer ser pó novamente. Há nos seres não só a pulsão de vida, mas também a pulsão de morte. Quando Freud fez esse comunicado a um mundo atento, ele estava sob a impressão da morte de uma filha na flor da idade, que perdeu logo depois de se preocupar com a vida de vários de seus parentes mais próximos, que haviam ido para a guerra”.

Diz Peter Gay: “Era uma explicação reducionista, mas extremamente plausível” (8)

Sem dúvida que plausível, se o mestre, em toda sua astúcia, não a tivesse previsto tão habilmente: “Freud se opôs imediatamente a ela. De fato, ele se antecipara a Wittels há três anos: no começo do verão de 1920, pedira a Eitingon e outros que atestassem, caso fosse necessário, que haviam visto um rascunho de Além do Princípio do Prazer antes da morte de Sophie Halberstadt” (8)

Dessa forma preserva que tão importante constructo fosse reduzido a projeções de dores próprias, embora se possa até pensar em um Freud inscrito em um coletivo ferido, mais uma vez traduzindo-lhes a “alma” em forma da mais complexo e elaborada construção científica de sua época e talvez até hoje, em nosso tempo.

Freud com essa construção da Pulsão de Morte nos traz a agressividade e a belicosidade, para serem pensadas, como inerentes à constituição humana, embora na verdade, segundo o próprio Peter Gay, Freud já tratasse do tema da agressão há muito tempo relacionando-a a hostilidade no Édipo e de maneira importante descreveu em seu “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade” que: “a sexualidade de inúmeros homens apresenta uma mescla de agressão” (8)

Importante pensar então, esse sujeito psíquico que se move a partir do balé pulsional entre Eros e Thanatos, que busca a vida e busca a morte, o desvario da libido e a paralisação do nirvana. Entre uma coisa e outra, habita o que entendemos enquanto sujeito psíquico, enquanto aquele que deseja e atua, que ama e odeia, constrói e destrói. Talvez possamos pensar que o equilíbrio dessas forças seja nossa meta.

“A substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade é o grande acontecimento traumático no desenvolvimento do homem – no desenvolvimento do gênero (filogênese), tanto quanto do indivíduo (ontogênese)” (6)

Nesse jogo pulsional esses serão conceitos presentes desde sempre e muito importantes para se ter à dimensão de seu funcionamento, assim como os conceitos de processo primário e processo secundário, intimamente relacionado com princípio de prazer e princípio de realidade atravessados pelas questões culturais (repressivas) que lhe são impostas desde os seus primórdios.

Todo o aparelho psíquico tende a descarga, isso é algo posto pela teoria freudiana, se o pensarmos, desde lá, dos modelos da Lagoa ou da Cebola, modelos conhecidos como pré-científicos, mas que ao nosso ver, desenharam toda a dinâmica da psicanálise. Tendendo a descarga, o psíquico se apoiará em seu processo primário, originado na poderosa fonte do Id, “no começo tudo era id”, que tenderá sempre a realizar, fazer a ‘catéxis’, mas diante das ameaças do mundo exterior, a satisfação também está atrelada à obediência às exigências da realidade. Em meio a toda essa trama dançam nossos impulsos de vida e de morte, de construção de unidades cada vez maiores em Eros (pulsão de vida) e de sua desagregação obedecendo ao princípio de inércia próprio de Thanatos (pulsão de morte). Substitui-se então a homeostase da descarga do aparelho psíquico pelo Princípio de Constância, que não tende mais ao zero, a descarga total, que seria o alvo e meta de Thanatos. Essa mudança é fundamental para que se possa pensar um homem combativo, que se rebela contra as forças repressivas da cultura ao mesmo tempo em que, se não profundamente entendida, poderá transformá-lo em prisioneiro de seu prazer, no “fast-food” pós-moderno, como tão bem nos aponta Marcuse em sua obra. Se o prazer traz em si a força da libertação, também pode e é, aprisionado pelas forças repressivas da organização social. Nesse sentido, entraria Thanatos como a grande força desagregadora e com essa característica capaz de propor novas arrumações.

”Acrescentarei apenas uma palavra para sugerir que os esforços de Eros para combinar substâncias orgânicas em unidades cada vez maiores, provavelmente fornecem um sucedâneo para esse ‘instinto para a perfeição’, cuja existência não podemos admitir. Os fenômenos que lhe são atribuídos parecem passíveis de explicação por esses esforços de Eros, tomados em conjunto com os resultados da repressão”.(1)

Para nossa compreensão, avanço e construção de novas expectativas, entenderemos o pulsional de Freud como aquilo que liberta ou escraviza. Se pensarmos no sentimento da paixão, tão catexizada, tão enobrecida pela cultura desde o séc XVIII, veremos que o mesmo sentimento que possibilita novas relações de objeto com o mundo exterior pode querer exatamente o contrário, retirando todo interesse do mundo exterior e voltando-o para um objeto introjetado de paixão, à imagem e semelhança do que um dia, muito de passagem, esteve localizado naquilo que em psicanálise entenderemos como “mundo exterior” e negando-se ao vínculo com o objeto fora de si. Nesse simples exemplo, poderemos aplicar, sem muita dificuldade, todo o entendimento que a complexa teoria pulsional de Freud possibilita. Demonstrando de maneira clara, o constructo apoiado em ações do cotidiano.

“Freud introduz ao nível das pulsões um dualismo fundamental e irredutível, as pulsões de morte para a redução absoluta das tensões e as pulsões de vida procurando, pelo contrário, manter e criar unidades vitais que supõem um nível elevado de tensão” (2)

Eros a procura de objetos, Thanato descarregando a tensão, dessa maneira simples, nos movimentamos pela vida, entre o mais legítimo desejo pulsional (processo primário), o corte do real, a realização possível (processo secundário) e a descarga entre o mais legítimo Princípio do Prazer e do para Além do Princípio do Prazer. Entender a economia e a dinâmica desses conceitos significa quase tocar o que nos movimenta, e o que nos mantém vivos em busca de nossas satisfações e realizações.

Buscar para além do que está posto, do que nos é conhecido, do que nos define enquanto seres de determinada cultura ou meio social, e que de certa maneira, nos lançará naquilo que nos constitui enquanto seres de uma mesma espécie, nascidos de uma mesma argamassa, seja nos confins da África, seja aqui, no balneário do Rio de Janeiro.

Freud para construir todas as elaborações teóricas de seu genial texto, por nós aqui ora estudado, o “Além do Princípio do Prazer”, o faz a partir de observações simples, como a de seu neto de dezoito meses, filho de Sophie, o menino Ernst Wolfgang Halberstadt, com o que ficou conhecido no mundo psicanalítico como o “jogo do carretel” onde jogava o cilindro de madeira amarrado a um barbante para fora do berço, dizendo “fort” que significava ido e o trazia de volta e contente dizia “da” que significa ali, dessa maneira, segundo Freud, trabalhando a ausência da mãe, ou ainda, em outra hipótese, naquilo que alimentará o que está posto depois do princípio de prazer, “talvez estivesse se vingando da mãe – jogando-a fora, por assim dizer, como se não precisasse mais dela” (8)

Tomando em suas mãos, pela atividade agressiva, o comando da situação indesejada, concretamente falando.

“Esse jogo infantil fez Freud pensar: Por que o menino reproduzia incessantemente uma situação que era tão perturbadora para ele?” (8)

Dessa maneira chegamos então, ao conceito de “compulsão a repetição”, de importância fundamental para se entender os eventos psíquicos propostos pela teoria freudiana, assim como, de fundamental relevância na prática da clínica psicanalítica.

Freud comparou os eventos da compulsão a repetição a algo de “demoníacos” e como “uma atividade mental extremamente primitiva, exibindo um caráter instintivo a um alto grau” (8)

E em que nos interessa esse conceito para o presente artigo? Interessa na medida que termina de alinhavar a questão e observação que leva o velho mestre até a constatação que o organismo busca não somente o prazer, mas o retorno a algo que já teria experimentado em um estado anterior e que tenderia à morte: “a finalidade da vida é a morte” (1).

Há algo na busca humana que tange o quase incompreensível, e que talvez seja, a principal matéria que alimenta crenças e ideologias. Mas, que ao mesmo tempo, alimenta tudo aquilo que nos movimenta, todas as mudanças que sofremos ao longo da vida, com pequenas mortes, separações e mudanças; onde uma forte tendência ao imobilismo das fontes de tensão pode evitar e impedir a mudança necessária ao crescimento, ou como diria Ernst: “fort”.

Por outro lado essas forças incontroláveis, dirigidas de maneira adoecida, alimentam tudo aquilo que há de mais destrutivo para nós.

“Os psicanalistas, praticamente sem exceções, poderiam aceitar o postulado de que a agressividade faz parte dos dotes do animal homem: além da guerra e da rapina, as brincadeiras hostis, a calunias invejosas, as brigas domésticas, as disputas esportivas, as rivalidades econômicas – e as rixas dos psicanalistas – confirmam que a agressão está à solta no mundo, alimentada, com todas as probabilidades, por uma corrente inesgotável de pressões instintivas”. (8)

O difícil e controverso ainda seria o conceito de masoquismo primário ligado a esse entendimento, ou seja, de que tudo isso significaria uma busca a um retorno a um estado anterior, entendido aqui como morte, inscrito no sentido de Thanatos e sua busca pelo término da tensão de necessidade de Eros. Que está posto seria que, em toda atividade humana, estaria inscrito um algo de destruição, de agressão que poderá atingir objetivos nada edificantes para a moral humana, mas que pela via da ética poderá ser diligentemente dirigida para alvo de construção humana de ideais de Eros.

“Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo” (9)

O destino que daremos a toda essa complexa teia de energias que nos habita e move, estará de alguma maneira, em algum momento, disponível para que intentemos manobras em prol da vida, daquilo que constrói algo próximo ao que chamamos de felicidade e paz.

Esse estudo aqui apresentado, é apenas um resumido apanhado, daquilo que talvez seja, a parte da teoria freudiana mais complexa de se elaborar e apreender. Ele está longe de esgotar esse assunto, e se propôs também, a levantar ao longo de sua execução, pequenos convites a reflexão sobre temas de alguma maneira ligados ao que entendemos por agressão, ou ainda em outra vertente por agressividade. Tentamos resgatar aqui, o fato de que algum “quantum” de agressividade é necessária a tarefa de viver e que, talvez, mantê-la dirigida para as conquistas e para o bem comum, sem uma repressão cruel por parte da cultura, talvez possa nos levar para mais longe da barbárie da agressão.

Bibliografia:

1 Além do Princípio de Prazer – S. Freud – Obras Completas – vol

2 Vocabulário da Psicanálise – Laplanche e Pontális

3 O Futuro de uma Ilusão – S. Freud – Obras Completas – vol XXI

4 Introdução a Metapsicologia Freudiana – Luiz Alfredo Carcia-Roza

5 Teoria Psicanalítica das Neuroses – Otto Fenichel

6 Eros e Civilização – Herbert Marcuse

7 Nascer Sorrindo – Frédérick Leboyer

8 Freud – Uma Vida Para o Nosso Tempo – Peter Gay

9 Mal-Estar na Civilização – S. Freud – Obras Completas – vol. XXI


Links:

1 – Entrevista com Freud

http://www.geocities.com/~mhrowell/entrevista_freud-2.html

2 – EROS/THANATOS – Uma exegese e uma pragmática de “Além do Princípio do Prazer” – Nahman Armony

http://www.saude.inf.br/nahman/erosthanatos.doc

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro "Cinematerapia - Entendendo Conflitos".

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