"Dinheiro e merda para mim são a mesma coisa"

Impressiona constatar como o brasileiro associa dinheiro à merda. Ditados populares freqüentes em nossa comunidade verbal atestam isso: “Fez cagada com o dinheiro”, “Fulano é rico: caga dinheiro”, “Não falemos de dinheiro à mesa”, “Seu dinheiro fede”, “Ficou rico na cagada!”, etc. Roberto DaMatta , antropólogo brasileiro, diz (1) que a síntese da relação do brasileiro com o dinheiro pode ser expressa na seguinte máxima: “Dinheiro e merda para mim são a mesma coisa”.

O Brasileiro: um Ostentador

Tanto o pobre quanto o rico brasileiro, para DaMatta, passam a desprezar o dinheiro assim que o tem em mãos. Nada melhor para aumentar a auto-estima, pensa o brasileiro, que tratar com desprezo aquilo que todos parecem idolatrar. A melhor forma de desprezar o dinheiro (ou "tratá-lo como merda") seria a ostentação, uma forma de gastança imprudente. O ostentador faz gastos priorizando a visibilidade das posses. Não gasta para si mesmo, de forma planejada, mas para ser visto pelos outros afim de obter status social. Curiosamente há até duas expressões populares para a ostentação: "Feliz como um pinto no lixo" e "Feliz como um porco na lama". ("Lixo" e "lama" estão semanticamente próximos de "merda").

Os brasileiros de todas as classes sociais são ostentadores. É fato conhecido de quem morou no exterior que os ricos brasileiros, por exemplo, são os que mais gastam com luxos (e mais gostam de ostentá-los aos amigos) quando viajam por outros países. Também é fato que o brasileiro é o único povo do mundo que compra artigos de luxo em prestações. (É possível parcelar em até 5X na Daslu!). Mesmo os pobres, como sabem os vendedores de varejinho, costumam gastar muito além de suas posses apenas para parecer estar uma classe social acima de sua condição, possivelmente para impressionar amigos, vizinhos.

Investimentos: de Cagada em Cagada

O dinheiro, sendo merda, precisa ser gastado logo, isto é, cagado duma vez. Não por acaso o ato de gastar ou investir dinheiro é expresso em ditados populares como uma "cagada", havendo dois tipos de cagadas distintas: uma boa e uma má.

A cagada má consiste em uma operação desastrosa com dinheiro, uma realização estúpida. Ex: "Puxa vida, que cagada que eu fiz comprando aquele carro!" A cagada boa é um sucesso obtido em um investimento, mas por pura sorte. Ex: "Nossa, só na cagada eu dobrei meu dinheiro na Bolsa!" (É comum também dizer, no futebol, que um atleta que marcou um gol sem usar técnica ou tática o fez "na cagada").

O hábito de investir dinheiro de forma estratégica não encontra correlato na cultura popular brasileira. Pesquisando sobre os usos do dinheiro no Brasil, DaMatta atestou que o jogo-do-bicho é o mais próximo que o brasileiro chegou do investimento financeiro. O problema é que esse jogo é inteiramente baseado na sorte, sem estratégia alguma a não ser a de interpretar sonhos de forma mágica (Ou seja, ganha-se "na cagada"). O investidor tipicamente brasileiro, portanto, é alguém que parece contar mais com a sorte do que com a estratégia, o planejamento.

A Pobreza como "Estar na Merda"

Eis aqui um tremendo paradoxo: o dinheiro é associado a merda, mas estar sem dinheiro também o é. A expressão "Fulano está na merda" é usada para designar alguém que se encontra pobre. Recapitulando: se ele tratou o dinheiro como merda e fez diversas cagadas não soa estranho, agora que ele está livre do dinheiro, declarar que o sujeito está "na merda"?

É como se o ciclo financeiro de vida do brasileiro fosse pré-determinado. Começa-se adquirindo a merda do dinheiro, faz-se uma série de cagadas e termina-se na merda. O brasileiro, portanto, parece ter uma visão fatalista do dinheiro: tudo vai dar em merda no final, a não ser que algo extraordinário aconteça por sorte (Como ganhar na loteria).

Saindo do Paradigma Fecal

Este artigo pode ter soado cômico para muitas pessoas (de fato eu optei por fazê-lo assim). Mas ele trata de algo muito sério. CUIDADO: as expressões e ditados populares nos quais estamos imersos pela nossa comunidade verbal, ouvindo vez por outra em conversas informais, são parte influente na formação de nossos comportamentos.

Por tudo que foi posto aqui associar dinheiro à merda não parece ser algo financeiramente inteligente. Não posso deixar de lembrar que em países mais desenvolvidos em termos econômicos o dinheiro é uma riqueza, algo bom e associado a outro produto da fisiologia humana: o sangue. Para os financeiramente inteligentes o dinheiro é visto como esse fluído vital precioso e não como um excremento. Por isso se fala comumente entre entendidos de finanças que "O dinheiro precisa ter liqüidez" e "O dinheiro precisa circular" (referências a um fluído em um sistema circulatório).

Concluindo:
evitar a ostentação e tratar o dinheiro com o cuidado de um planejador criterioso de investimentos é um bom começo para sairmos da merda.

Bibliografia

(1) DAMATTA, Roberto & SOÁREZ, Elena (1999) – Águias, Burros e Borboletas: Um Estudo Antropológico do Jogo do Bicho. Rio de Janeiro: Rocco, 197 pp.

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