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As Alucinações – parte I

Quantidade

Múltiplas são as condições capazes de alterar a intensidade e a nitidez das nossas percepções. Em primeiro lugar, a que se refere às influências de ordem afetiva, tanto positiva como negati­vamente. De regra, para que a percepção se dê, é necessário que o estímulo seja dotado de certa carga afetiva potencial, sem o que, a imagem perceptiva não chegará a se formar no campo da consciência.

A prova disso está em que, embora sejam sempre numerosos e variados os estímulos que recebemos na unidade de tempo, não conseguimos discriminar, em um só ato perceptivo, mais de cerca de quatro unidades de percepção.

É verdade que, dentro de certos limites, registram-se diferenças dignas de nota, de indivíduo para indivíduo. Até em um mesmo indivíduo, conforme o campo sen­sorial que esteja em foco no ato perceptivo, e dependendo de sua maior ou menor capacidade de observação, do seu interesse ou desinteresse, efetivo ou ocasional, grau de fadiga no momento, e até de seu maior ou menor adestramento operacional em determinados gêneros de atividades. Assim, um regente de orquestra ou um motorista são capazes de perceber e discernir, simultaneamente, muito maior número de estímulos, na uni­dade de tempo, que a maioria das pessoas, não devidamente ades­tradas nestes exercícios.

Ainda, dentro da faixa da normalidade, a percepção é suscetível de alterar-se quantitativamente no sentido da diminuição (até à abolição) ou do aumento da inten­sidade, claridade e número dos estímulos perceptíveis, seja em estados fisiológicos ou patológicos. Da abolição das percepções, só se pode falar com pro­priedade, no sono, no coma profundo, na incapacidade funcional, por lesões congênitas ou adquiridas, dos órgãos sensoriais periféricos ou dos nervos sen­sitivos correspondentes, bem como em afecções do sistema nervoso central, em que ocorrem anestesias e agnosias, como manifestações de seus quadros sintomatológicos.

Não podemos confundir as anestesias, decorrentes de lesões dos feixes condutores da sensibilidade, com as verdadeiras agnosias, causadas por lesões em determinados territórios córtico-cerebrais. Naquelas, o paciente não chega sequer a experimentar sensação alguma; nestas, e eis aqui a distinção que se deve ter presente, as sensações são experimentadas, mas tão só como dados sensoriais brutos, isto é, não como ato objetivante e da necessária integração significativa, características da percepção normal (Husserl, Merleau-Ponty).

Alterações da percepção podem apresentar-se por influências psicogênicas, sobretudo em pacientes neuró­ticos [casos de amaurose (cegueira) histérica, de surdez psíquica, de anestesias e analgesias totais, ou parciais etc.] e, inclusive, até certo ponto, em pessoas tidas por psi­quicamente sadias, quer por repressão e conversão, quer por via sugestiva, isto é, por auto ou hétero-sugestão, em vigília ou sob hipnose.

O simples aumento ou a diminuição da capacidade perceptiva são suscetíveis de observar-se em estados mentais patológicos de várias espécies. Tais desvios, para mais ou para menos, podem verificar-se em relação a qualquer dos nossos órgãos sensoriais, estendendo-se, não raro, a mais de um deles. De modo geral, pode-se dizer que o aumento global da intensidade perceptiva se manifesta naqueles estados de excitação psíquica ou certo grau de exaltação emocional, como ocorre nos maníacos bipolares, nos períodos pre­monitórios da paralisia geral progressiva (PGP da sífilis), nos pródromos de certas formas de epilepsia, no "hipertireoidismo", nas intoxicações agudas, especialmente pela co­caína, mescalina, LSD e por aí vai.

A diminuição ou redução da intensidade perceptiva apresenta-se, com maior freqüência, nos estados depressivos e estu­porosos, ligados, sobretudo à psicose bipolar, às psicoses infecciosas agudas e, também, à esquizofrenia. Nesta, e no começo da embria­guez pela mescalina, observam-se alterações seletivas, para cores e sons – a discromatopsia, a chamada "audição colorida" e outras asso­ciações de sensações anormais simultâneas.

Não seria absurdo supor que o estranho "soneto das vogais" de Rimbaud, jóia da poesia simbolista, tenha sido inspirado em vivências de associação de cores e sons, que a embriaguez pelo haxixe, a que se davam alguns intelectuais da época, e provavelmente ele próprio, pode também proporcionar.


Qualidade

De maior importância para a psicopatologia são as alte­rações qualitativas da percepção, que coincidem com algumas formas de transtornos mentais, consideradas das mais graves e freqüentes. Convém que sejam aqui passadas em revista as diversas modalidades de imagens mentais, passíveis de identificação em condições normais.


As Várias Modalidades de Imagens Mentais

Começando pela caracterização da imagem senso-perceptiva real, recordemos que ela resulta da estimulação de um órgão sensorial pelo seu excitante específico, acusando a quem o recebe pelos seguintes aspectos:

(a) nitidez, quer dizer, a imagem é clara e bem delimitada;

(b) corporeidade, isto é, a imagem é viva, corpórea;

(c) esta­bilidade, ou seja, a imagem é fixa;

(d) extrojeção, o que significa que o objeto correspondente está projetado no espaço natural, fora dos limites do eu;

(e) ininfluenciabilidade voluntária, o que equivale a afirmar que a imagem não é modi­ficável pela nossa vontade consciente.

Tais caracteres é que dão às imagens perceptivas reais a força de convencimento de que são dotadas, e que as fazem pas­sivamente aceitas pelo juízo-de-realidade. Essa força de convencimento é maior quando se trata de imagens visuais, algo menor quanto às imagens audi­tivas, e bastante menores aos demais campos sensoriais, à única ex­ceção das imagens táteis para os cegos, as quais constituem as de mais fácil aceitação.

Quando a excitação sensorial vem de um estímulo in­tenso, pode acontecer que a imagem persista durante algum tempo, após haver desaparecido o estímulo. É a imagem pós-sensorial ou eco sensorial. Disso são exemplos lembrados, a persistência da imagem solar em nossa retina, após olharmos para o sol, ou o som de uma sirene poderosa, que continuamos a ouvir, mesmo depois de a terem silenciado. Mas, o curioso é que isso às vezes independe da intensidade do estímulo, e sim do grau de tensão emocional com que o vivenciamos. É o que sucede, quando, após conversarmos demoradamente com uma pessoa querida, ficamos com a impressão de que ainda a temos diante dos olhos, e de que a sua voz continua ressoando ainda em nossos ouvidos.

Outro tipo de imagem, relacionada às anteriores, é o que se conhece por imagem representativa ou mnêmica. Esta é a revi­vência, na memória, de uma imagem sensorial determinada, sem que esteja presente o objeto que a produziu. Seus caracteres são, por isso, facilmente detectáveis. Assim, a nitidez converte-se aqui em imprecisão e falta de clareza; a corporeidade em incorporeidade; a estabilidade em instabilidade; a extrojeção em introjeção; a ininfluenciabilidade voluntária em influenciabilidade voluntária, exceção feita aos casos da chamada "recordação obsessiva".

Próximo da imagem mnêmica está denominada imagem fantástica ou fabulatória, que não corresponde a nenhuma experiência sensorial concreta. A imagem fantástica é uma criação da livre atividade imaginativa e suas características gerais são as mesmas da imagem mnêmica, com a única diferença de que a imagem fantástica não é aceita, em condições normais, pelo juízo-de­-realidade do agente.

A imagem chamada onírica, conteúdo habitual dos nossos sonhos, é consti­tuída por elementos da imagem mnêmica e da imagem fantástica. Mas, em conse­qüência da turvação da consciência durante o sono, essa imagem vem a ser momentaneamente aceita pelo juízo-de-realidade e considerada como correspon­dente a objetos presentes. Os caracteres da imagem onírica são os seguintes:

(a) plasticidade;

(b) mobilidade;

(c) introjeção (aqui, no entanto, o espaço virtual intra-psíquico é considerado como espaço extra-psíquico objetivo);

(d) falta de lógica formal;

(e) intemporalidade (a imagem onírica não se integra em um curso exis­tencial, falta-lhe uma relação cronológica, dá-se como fenômeno isolado, instantâneo e sem duração determinada).

Esses três últimos caracteres da imagem onírica pertencem a um tipo de atividade psíquica, em que as relações significativas se estabelecem de acordo com a denominada concepção mágica do universo, pró­pria da mentalidade pré-lógica (Levy-Bruhl).

Por eidetismo, designa-se a disposição descrita por E.R. Jaensch, e de que são dotados alguns poucos adultos e aproxima­damente a metade de todas as crianças e adolescentes, disposição que lhes confere, ditos eidéticos, a capacidade de visualizarem figuras e objetos que lhes tenham sido apresentados, ainda que só durante alguns se­gundos e depois retirados de sua presença. Tais indivíduos são capazes de continuar "vendo", sobre uma parede lisa ou sobre uma folha de papel cinza ou branca, aquelas figuras e objetos já desaparecidos de seu campo visual, os quais podem ser voluntariamente extrojetados, quer dizer, projetados (e não simplesmente reproduzidos de memória) no espaço objetivo e, por isso, des­critos com toda a precisão e abundância de pormenores. As características das imagens eidéticas, que Jaensch prefere chamar intuitivas, são:

(a) a extrojeção condicionada; e

(b) a influen­ciabilidade voluntária.

É bem possível que a disposição eidética dos pintores (Doré, Fromentin, Vernet, Muncaksy, Styko), escritores (BaIzac) e cientistas (Tes­tut) ocorra com maior freqüência do que geralmente se estima. Nada tem de improvável, que essa particularidade também se manifeste em outros territórios sensoriais, sobretudo na esfera auditiva, como pode ter sido o caso de Mozart que, era capaz de reproduzir, inclusive grafica­mente, e com fidelidade, a peça que acabasse de ouvir; e, mais ainda, o de Beethoven que, apesar de haver ficado completamente surdo, continuava compondo.

Duas imagens que demarcam a área limítrofe da normalidade perceptiva: as pareidolias ou ima­gens pareidólicas, e as ilusões ou imagens ilusórias.

A pareidolia é uma imagem fantástica, constituída à base de elementos sensoriais. Exemplos de pareidolias são aquelas formas e configurações humanas, de objetos, de animais, castelos, cenas, que julgamos ver, quando contemplamos uma nuvem ou um conglomerado de nuvens; ou ainda, aqueles desenhos e arabescos extravagantes ou caprichosos, que parecem fazer-se e desfazer-se aos nossos olhos, quando contemplamos, demoradamente, um mosaico, uma parede de azulejos, ou um Teste de Rorschach.

A ilusão ou imagem ilusória é também, por definição, imagem deformada de um objeto real e presente. Mas, diferente da pareidolia que, nos limites do normal, não é aceita pelo juízo-de-realidade, a ilusão, o é, se bem que apenas momentânea ou temporariamente, e, isso, tanto por inatenção e fadiga, quanto por sugestão e catatimia (deformação da realidade pela emoção).

A "miragem do deserto", o tomar-se um tronco de árvore por um vulto humano ameaçador, quando se caminha solitário, a impressão de ouvir palavras ou sons musicais no tamborilar da chuva ou silvo do vento, são alguns exemplos típicos de imagens ilusórias, equivocadamente aceitas ao primeiro instante, como reais, mas logo corrigidas pelo nosso juízo-de-realidade.

Quando pareidolias e ilusões começam a surgir com demasiada fre­qüência (à maneira de D. Quixote de Ia Mancha, que enxergava gigantes em moinhos de vento e via exércitos em simples rebanhos de carneiros), tornando-se motivo de interpretações mágicas ou de corre­lações inverossímeis (mensagens astrais, avisos cifrados, ameaças ocultas), então não há dúvida de que já foi transposto o limiar do patológico e de que tais enganos perceptivos estão sendo gerados ou favorecidos pela perturbação da consciência, tradutora da enfermidade mental subjacente.


Falsas Percepções: Pseudo-Alucinatórias e Alucinatórias

Definida a ilusão como deformação perceptiva da realidade, preocuparam-se os clínicos psi em caracterizar o que se deve entender por alucinação. Mas aqui, o problema se tornou mais árduo, tanto do ponto de vista teórico, como prático.

Definir alucinação como "percepção sem objeto" (BaIl), ou ainda, como preferem outros, "sem o estímulo sensorial respectivo" é incorreto, em qualquer dos dois casos.

No primeiro, porque percepção sem objeto, em verdade, não existe. Toda percepção é sempre percepção de algo. Implica forço­samente direção para um objeto. Este vem a ser o seu conteúdo perceptivo empírico, que apesar de falso, representa um dado imediato de consciência. No segundo, porque a ausência da estimulação sensorial, ainda que pudesse ser realmente demonstrada, não caracteriza, o fenômeno alucinatório, em sua essência, e nem sequer permite distingui-lo do pseudo-alucinatório.

A rigor, a questão da existência ou não de um estímulo sensorial não pode mais ser invocada, nem mesmo para discernir da alucinação a imagem ilusória. Esta é fruto da deformação interna do objeto intuído, por inadequada integração significativa. O equívoco provém da não concordância entre a intenção significativa e o conteúdo empírico do percebido, de onde a faci­lidade de sua correção instantânea e automática, em condições normais.

Jaspers assinalou que as alucinações verdadeiras devem revestir todos aqueles caracteres da imagem perceptiva real, especialmente a vivência da corporeidade, que é o que empresta objetividade espacial a essa intui­ção mórbida e lhe assegura passiva e imediata aceitação pelo juízo-de-realidade.

A crença cega no dado alucinatório é, de fato, qualquer coisa de indiscutível. Há doentes que acreditam até muito mais em suas alucinações do que na própria realidade. Um de nossos pacientes, esquizofrênico paranóide, sujeito a alucinações auditivas de caráter imperativo, estava em visita a parentes, moradores no terceiro andar de um edifício de apartamentos, quando no exato instante em que se aproxima de uma das janelas que davam para a rua, ouve uma voz que lhe ordena: "atire-se", o que fez de pé sobre a marquise do térreo, e lhe oca­sionou fratura de ambos os tornozelos. Outra, também esquizofrênica, cami­nhava na varanda do prédio em que resido, levando ao colo um filho de poucos dias. De súbito, é intimada por uma voz a arremessar a criança ao ar, ordem a que obedeceu automaticamente, sem a menor resistência interior, levando o bebê ao óbito.

A força de convencimento da imagem alucinatória é irresistível, embora não constitua elemento decisivo para distinguir as alucinações das pseudo-alucinações. A estas nem sempre faltam a necessária objetividade e corporeidade, de onde provém, segundo Jaspers, a força de convencimento das verdadeiras aluci­nações. Se é certo que tais caracteres faltam nas pseudo-alucinações que foram objeto das famosas auto-descrições de Kandinsky (imagens visuais, não dotadas de movimento, à maneira de quadros que surgem e se sucedem, sem relação lógica uns com os outros, e apenas perceptíveis ao "olho interno") e que ser­viram de base à conceituação de Jaspers, o mesmo não acontece, por exemplo, com aquelas pseudo-alucinações ditas hipnagógicas e hipnopômpicas, encontradi­ças até em pessoas normais, no momento em que passam da vigília ao sono e vice-versa (chamamento de vozes fugazes, sons musicais e mesmo orquestrais, vultos que se aproximam do leito, que passam de repente ou que se afastam), as quais costumam ser momentaneamente aceitas pelo juízo-de-realidade.

Mas apurando o seu critério, acentua Jaspers que as verdadeiras alucinações  transcorrem, além do mais, em perfeita claridade de consciência, o que as tornariam extremamente raras, quase a ponto de se poder dizer que não existem, como o afirmara Paul Schröder.

Sem chegar a tanto, concorda-se hoje, em que as verdadeiras aluci­nações são menos freqüentes talvez do que se vinha admitindo até meados do século XX. Em pacientes obnubilados (psicoses infecciosas agudas, delirium tremens etc.), nem sempre se pode distinguir efetivamente, com precisão e objetividade, se se trata de ilusões, alucinações ou pseudo-alucinações, e isso a despeito da abundância com que esses fenômenos se apresentam em tais estados. Por outro lado, em pa­cientes lúcidos (esquizofrênicos, parafrênicos etc.), acredita-se que ocorram, pre­ferentemente, pseudo-alucinações, a par de outros fenômenos de projeção sensorial complexos.

Para L. Binswanger, no mais das vezes "difícil, para não dizer impossível, dis­tinguir alucinações de pseudo-alucinações."

Pensa, por sua vez, Carl Schneider que a essência do fenômeno aluci­natório não está na alteração do ato perceptivo, pois de outro modo não se com­preenderia que os doentes percebessem o dado alucinatório, ao mesmo tempo em que os objetos do mundo real são percebidos. A observação é procedente e tende assim a des­locar a patogênese do fenômeno alucinatório, da esfera senso-perceptiva para o plano da execução psíquica.

Somente por efeito da mudança de execução é que então se poderia entender a possibilidade de existência de alucinações e pseudo­-alucinações, ao lado de percepções e representações normais. Essa mudança de execução é que determinaria, a seu ver, a parte do estímulo, que deveria ou não ser intuída no ato perceptivo anormal, bem como a modificação que viria a sofrer o dado vivenciado, nesta ou naquela direção significativa. Em suma, para Carl Schneider, as falsas percepções não podem ser interpretadas como distúr­bios originariamente psico-sensoriais, e sim, como expressão de profundas altera­ções do eu, sensorialmente manifestadas.

Essa concepção do fenomenólogo germânico aproxima-se, aliás, da que foi anteriormente sustentada pelo francês Clérambault, que englobava em sua famosa síndrome de automatismo mental as diversas moda­lidades de alucinações, pseudo-alucinações ("alucinações psíquicas" de Baillarger) e vários outros fenômenos afins (eco do pensamento, desdobramento do pensa­mento etc.). Fazia-o, porém, à base do conceito de parasitismo mecânico das imagens e das sensações, vinculando tais distúrbios a lesões órgano-cerebrais, estas não cientificamente demonstradas à época.

Do que foi dito até o presente, parece justificável a inferência de que as alucinações não são distúrbios meramente sensoriais ou mesmo pura e estrita­mente perceptivos, como outrora se supunha. Tais fenômenos, embora proje­tados na esfera sensorial e aí aparentemente localizados, expressam a participação de todo o conjunto da atividade psíquica, transcorrendo em íntima conexão com a estrutura dos estados psicopatológicos delirantes que os determinam e com a própria história da personalidade em que se manifestam forças de que promanam a forma e o conteúdo dinâmico particular com que se apresentam.

Nem outra coisa, aliás, é o que nos ensina E. Minkowski, em seu livro Le Temps Vécu, e também, posteriormente, em breve comentário a um trabalho de L. Binswanger. "Para que a realidade normalmente percebida – diz Minkowski – possa suportar essa espécie de neo-produtividade alucinatória, é preciso que uma profunda modifica­ção da vida mental torne possível essa maneira particular de viver o mundo das percepções. É preciso que haja, se é que ouso exprimir-me assim, certa modificação da tolerância da realidade perceptível, em suas relações com o indivíduo". E em seu comentário a L. Binswanger, escreve, ainda mais incisivamente, que a alucinação não pode ser tida unicamente como "distúrbio da percepção", e sim, como expressão da "modificação profunda da forma de vida mental" do indivíduo, de onde a necessidade de analisar os fenô­menos alucinatórios sempre "em função do fundo mental que os condiciona".

Igualmente, em seu L'Etre et le Néant, J.P. Sartre, com aquela perturbadora agudeza que o define, chega, inclusive, a referir-se a uma "conduta alucinatória", para identificar o comportamento geral do alucinado, o qual realizaria então, a seu ver, nada mais que uma forma particular da "condição humana".

Nesse mesmo sentido é que Erwin Straus de­clara que as alucinações são "modificações primárias da sensa­ção" (compreendida esta, não na acepção psicofisiológica do termo, mas como elemento essencial de comunicação simpática do eu com o mundo). Não se trata, pois, de distúrbios isolados, sensoriais ou perceptivos, mas de modos de ser­-no-mundo, que abarcam a totalidade das experiências vividas. Sobre isso, também se manifestou, posteriormente, J. Zutt, em artigo em que corrobora e acrescenta novos dados ao ponto de vista antropológico-existencial, no que con­cerne à compreensão dos delírios alucinatórios.


Estudo Semiológico das Falsas Percepções

Em princípio, nada tem de fácil, mesmo para um clínico psi experiente, a ave­riguação, em um caso concreto, da existência ou não de falsas percepções, tal a freqüência com que os pacientes sonegam fenômenos dessa natureza à inquirição coloquial, ainda que hábil e cautelosa. Isso, entretanto, não é constante e, ade­mais, há quase sempre no comportamento desses pacientes certos indícios revela­dores, que não escapam ao observador atento e que, assim, contradizem frontal­mente as suas negativas: o ar, subitamente alheio ou distraído, em meio do exame, a atitude de escuta, os solilóquios, sobretudo em tom de diálogo, bruscas respostas à parte, no curso da conversação, ouvidos e narinas protegidos com algodão e por aí vai.

Bem mais difícil é a correta identificação do gênero de falsas percepções, apresentadas pelo paciente, o que é de grande valor semiológico. Dizer que, dentre essas falsas percepções, somente as verdadeiras alucinações se mostram identificáveis em todas as esferas senso­riais, pode não significar muita coisa, mas tem pelo menos a vantagem metodo­lógica de permitir sua descrição e interpretação sistemáticas.


a) Alucinações visuais

 

Podem ser elementares (fagulhas, clarões, chamas); ou diferenciadas (visões, figuras, cenas estáticas ou em movimento); de tamanho natural; ou minúsculo (as chamadas "alucinações liliputianas" do delírio cocaínico); ou gigantesco (aIucinações guliverianas), o que é mais raro (estados confusionais toxi-infecciosos). Visões de animais (zoopsias) ferozes ou repug­nantes são quase patognomônicas do alcoolismo, especialmente do derilium tremens. Imagens coloridas, de tonalidade afetiva eufórica e de conteúdo místico ou eró­tico, ocorrem em estados oniróides, crepusculares e de êxtase beatífico, geralmente ligados à histeria (trata-se aí, certamente, de pseudo-alucinações), e também à epilepsia (caso em que as visões se apresentam quase sempre com coloração vermelha). Nas psicoses confuso-oníricas em geral, as alucinações visuais ocor­rem em estado de profunda obnubilação da consciência e, de regra, se associam a ilusões e pseudo-alucinações de todo tipo. Nas esquizofrenias e delírios crô­nicos (com exceção da forma expansiva das parafrenias) são raras as alucinações visuais verdadeiras (não tanto as ilusões e pseudo-alucinações), umas e outras, por sinal, praticamente inexistentes, também, nos quadros maníacos e melan­cólicos.

Uma variedade de falsa percepção, que Eugen Bleuler descreveu como típica da esquizofrenia é a chamada alucinação extracampina, isto é, que tem lugar fora do campo visual do paciente. É o caso do indivíduo que declara estar "vendo" alguém a fazer-lhe sinais obscenos, por detrás do biombo de madeira, interposto a um canto da sala. Uma de nossas pacientes, jovem judia esquizofrênica, referia que, certa noite, em seu leito, começou a "ver" uma cruz suástica, que aparecia e desaparecia, do lado de fora da porta de seu aposento.

Já por aí se pode aquilatar a dificuldade de avaliação semiológica exata de tais fenômenos, passíveis de confusão, não fosse a acentuação do dado percep­tivo, com alterações de outra espécie (vivências delirantes primárias), tanto mais que são expressas, muitas vezes (às custas de concomitantes perturbações ideativas), em linguagem simbólica ou metafórica, nem sempre inteligível ou decifrável.

Outra questão importante a considerar é a que concerne ao que se entende por alucinose, e sua distinção com as alucinações visuais verdadeiras. O termo alucinose, primitivamente usado por Wernicke e Plaut, em acepções nosográficas restritas, passou a ser também empregado pelos franceses para caracterizar fenô­menos pseudo-alucinatórios visuais (a exemplo dos que foram descritos por Kan­dinsky, J. MüIler, Hagen e outros), observáveis em certas oftalmopatias e em lesões occipitais e pedunculares. Aqui, o modelo descritivo é representado pela chamada – alucinose peduncular de Lhermitte. Em seu caso original, tratava-se de indivíduo que apresentava pequeno foco circunscrito de amole­cimento, ao nível da calota do pedúnculo, e que, ao lado de fenômenos motores, passara a experimentar pseudo-alucinações visuais, de aspecto bastante curioso e pitoresco. Neste e em outros casos relatados (Van Bogaert), os pacientes vêem surgir, diante de seus olhos, geralmente ao anoitecer e entre as sombras do crepúsculo, imagens vivas, animadas: pássaros de estranha plumagem, animais fantásticos, ou mesmo seres humanos com vestimentas bizarras, coloridas, desli­zando em silêncio, por entre as árvores do parque, ou de encontro aos muros, como em uma tela cinematográfica.

A projeção espacial e a falta de crença na realidade do fenômeno, apesar da forte impressão experimentada e da relativa lucidez de consciência dos enfermos, são aqui os elementos diferenciais característicos. É o que bem se poderá ajuizar do confronto desses dados com as que nos são fornecidos pelo relato seguinte, referente a um dos raríssimos casos claros e bem conservados de para­frenia expansiva, que tivemos oportunidade de observar pessoalmente. Paciente de pouco mais de sessenta anos de idade, e enferma há quase trinta, acreditava-se incumbida de uma alta missão humanitária que as forças do mal tentavam inutilmente interromper. E esclarece que disso veio a ter conhecimento, há muito e muito tempo. Tudo começou quando, certa noite, estando à janela de seu quarto, olhando as estrelas, viu de repente descer do céu um enorme globo azul, fosforescente, dotado de viva e ofuscante luminosidade, de cujo interior saíram damas e cavalheiros, que logo admitiu serem fidalgos da melhor linhagem, a julgar pelas ricas e vistosas vestes com que se apresentavam. Esses representantes "espirituais" da antiga nobreza senhorial lhe transmitiram então a mensagem inesperada, através de um espetáculo maravilhoso, indescritível, mas de cuja realidade não duvida em absoluto, e cuja lembrança a deixa fortemente conturbada.

Tudo indica que se trate aí de vivências alucinatórias visuais, experimentadas delirantemente, e não, como poderia parecer, ao primeiro instante, fabulações deli­rantes atuais, à base de alomnésias e paramnésias (ilusões e alucinações da me­mória), o que levaria a pensar em parafrenia confabulatória, hipótese afastada pelos dados anamnésticos, personológicos, clínico-evolutivos e psicopatológicos do caso em referência.

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