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Esquizofrenia: algumas contribuições de Freud e de Lacan

Resumo       

A esquizofrenia, desde a psiquiatria clássica, vem sendo muito estudada. Ela já foi batizada por vários nomes, e no presente artigo, seguindo uma orientação psicanalítica se pretende estudá-la buscando algumas contribuições freudianas e lacanianas. É interessante frisar que não se faz interessante no momento aprofundar na gênese da esquizofrenia, mas sim demarcar, a partir das pesquisas bibliográficas consultadas, no que ela consiste e nas suas implicações para o sujeito. E por fim, mostrar um dos possíveis manejos, do qual o esquizofrênico se dispõe na tentativa de se manter estabilizado.

Palavras-chaves: esquizofrenia- Freud- Lacan

Antes de entrar no cerne da presente questão, se faz necessário dizer que não será dedicada uma especial atenção à gênese da esquizofrenia, nos interessando mais, pelo menos neste artigo, no que ela consiste e nas suas implicações para o sujeito. Tendo à luz os conhecimentos deixados por Freud e, posteriormente, os ensinamentos deixados por Lacan, inicia-se um estudo acerca da esquizofrenia e uma de suas possíveis saídas [1].

Com o intuito de se alcançar maiores esclarecimentos e uma maior aproximação do nosso objetivo, é necessário uma breve explanação a respeito de alguns pontos que nos sustentarão nessa trajetória. Comecemos primeiramente falando de dois termos amplamente usados pela psicanálise: a pulsão e a libido, ambas constituintes do sujeito, sendo que a segunda representa a energia motriz da pulsão. A libido é a força das pulsões (energia psíquica) dirigida para um objeto, que pode tanto estar dirigida para objetos externos, libido objetal, quanto para o próprio eu, libido do eu. As pulsões, que a priori, se encontravam livres, “desconectadas”, passariam por um processo ao qual se chama de organização pulsional, sendo a primeira forma o Auto-erotismo, onde as pulsões estariam voltadas para um eu corporal. A segunda o Narcisismo, onde o investimento seria na imagem que se tem do eu. E a terceira forma de organização que são os Investimentos Objetais, na qual a pulsão estaria voltada para objetos que se encontrassem no mundo externo. Simultaneamente, a partir das experiências que o sujeito estabelece com o meio externo e interno através: do contato contínuo com a realidade, do investimento amoroso e narcísico dos pais, e de suas próprias identificações, ocorre uma diferenciação adaptativa em seu psiquismo, na qual o eu vai se estruturando. Dessa forma o eu que em um primeiro momento era um eu corporal, na sua dimensão real, vai sendo recoberto, envolvido por um eu imaginário.        

Nesta constituição do eu haveria um eu ideal, concebido como um ideal narcísico de onipotência, no qual a partir do investimento narcísico dos pais haveria, na criança, uma primeira identificação imaginária. A criança então, se identificaria com essa imagem dando margem ao que Freud (1914) se referiu pelo nome de Narcisismo primário, nesse momento esse eu ideal seria alvo de todo o investimento libidinal.       

Tendo em mente as formas de organização pulsional observa-se que o esquizofrênico se encontra em uma organização pulsional auto-erótica, com um investimento libidinal voltado para o eu, mas um investimento em um eu primário, um eu corporal, visto que este é o primeiro eu a ser formado. “Com o parafrênico [2] (…) ele parece realmente ter retirado sua libido de pessoas e coisas do mundo externo, sem substituí-las por outras na fantasia. Quando realmente as substitui, o processo parece ser secundário e constituir parte de uma tentativa de recuperação, destinada a conduzir a libido de volta a objetos.” (FREUD, 1914, p.82)        

A pulsão dessa forma, não visaria os objetos do mundo externo, mas sim retornaria sob o próprio corpo dando margem às vivências na esfera corporal, que a fenomenologia tanto tem a nos mostrar, tais como a despersonalização, o sentimento de desagregação corporal, as vivências de influência, que freqüentemente são experenciadas pelos esquizofrênicos.        

Diante disto a imagem que o esquizofrênico tem de si, é uma imagem fragmentada, pois não aconteceu com ele uma identificação imaginária, que segundo Freud (1914) seria possível através de uma nova ação psíquica que se adicionasse ao auto-erotismo e pudesse provocar o narcisismo.        

Essa nova ação psíquica que inauguraria a segunda forma de organização pulsional, o narcisismo, e que corresponderia ao que Lacan abordou com o nome de estádio do espelho permitiria à criança se identificar com essa imagem que vem do Outro, investindo então nessa imagem, formando o seu eu ideal, e dando margem ao narcisismo primário.       

Lacan nos deixa o esquema L, que é uma forma simplificada do estádio do espelho, e a partir do qual podemos inferir que o esquizofrênico estaria numa tentativa de constituição do eixo a-a’, que é um eixo narcísico, em uma identificação imediata com o outro, sem a mediação de um Outro, barrado, o qual apontaria para um sujeito dividido.        

Uma identificação imediata, que a nível imaginário, vai sustentando o sujeito na sua realidade, evitando, dessa forma, que ele surte. É o que Quinet (2000) faz referência às bengalas imaginárias:“Por falta de referência simbólica o sujeito psicótico funciona no registro imaginário, onde o outro é tomado como espelho e modelo de identificação imediata. (…) O psicótico encontra-se muitas vezes, antes de um primeiro surto, numa relação dual com o duplo imaginário. (…) O sujeito psicótico é, pois, levado a servir-se de bengalas imaginárias que não lhe dão apoio quando ele tropeça no buraco da significação ausente.” (QUINET, 2000, p.18-19). Dessa maneira, o que mantém o esquizofrênico estabilizado, ou pelo menos fora do surto, são as bengalas imaginárias, sustentadas no eixo narcísico, bengalas das quais ele se dispõe como uma forma de se relacionar consigo mesmo e com o mundo. Na medida em que há uma dissolução imaginária, onde essas bengalas não mais servem de sustentação para o sujeito, tem-se aí, a presentificação do real e consequentemente o desencadeamento do surto psicótico.         

É interessante observarmos que o que auxilia o sujeito para que ele não surte e o que o estabiliza no “pós-surto” são os manejos, antes de um surto, e o remanejo, após o surto,a nível imaginário que são feitos pelo sujeito restabelecendo o duplo especular do estádio do espelho.Posteriormente Lacan acrescenta outros elementos ao seu esquema L superpondo a este esquema personagens da trama edípica, e o designa agora por esquema R, como o campo da realidade do sujeito. Com um tripé imaginário e outro simbólico, sendo que entre a base desses dois triângulos estaria compreendido o real [3]. A partir de tal esquema se pode inferir que há suplências imaginárias e suplências simbólicas. E nas identificações imediatas que o esquizofrênico faz com o seu eu ideal se pensaria em uma suplência imaginária, uma identificação a nível de uma imagem especular do semelhante com o eu.Uma suplência imaginária que pode ser construída pela via megalomaníaca, é o que Freud aponta quando em seu artigo de 1914 “Sobre o Narcisismo: uma introdução” ele diz de uma substituição da libido que fora retirada dos objetos do mundo externo e dirigida para o eu, na tentativa de uma recuperação.Freud ao abordar as formas de organização pulsional, aponta que uma das tentativas de reparo, no sentido de uma construção de sentido, pelo esquizofrênico implicaria numa saída da organização pulsional auto-erótica, na qual o esquizofrênico constituiria um eu ideal e, por conseguinte, ocorresse um investimento libidinal maciço nesse eu ideal.

Através desse investimento libidinal no eu ideal, o esquizofrênico, que outrora se encontrava numa posição auto-erótica, ocuparia uma posição narcísica, e se manteria nesta posição através da megalomania.Megalomania esta que está presente na medida em que a libido que fora afastada dos objetos do mundo externo é voltada para o eu. A megalomania implica numa extrema valorização do objeto investido, que nesse caso é o eu ideal, pois este é toda a perfeição, algo que deve ser idolatrado e, portanto receber maciçamente todo o investimento libidinal. Freud (1924) discerniu duas etapas na psicose, a 1ª arrastaria o eu para longe da realidade e a 2ª consistiria em reparar esta perda pela criação de uma nova realidade. Etapas estas que nos bastam para a conclusão do presente trabalho.A esquizofrenia consiste então, numa não estruturação do eu, ou pelo menos numa desorganização, ou se preferirem numa fragmentação dele, deixando o sujeito em uma organização pusional auto-erótica, afastando o eu da realidade. Por outro lado a identificação e o investimento libidinal maciço no eu ideal, possibilitaria ao sujeito se manter no narcisismo através de suplências imaginárias como uma tentativa de reparar o afastamento do eu da realidade.Com base em Lacan, um reparo da esquizofrenia pode ser pensado a partir do momento, em que há uma desestabilização do eixo narcísico (a-a’). Com uma dissolução do imaginário, cabe ao sujeito se dispor de suplências imaginárias como uma forma de reconstrução da sua realidade, ou melhor, uma construção de sentido para a sua realidade, e dessa forma um sentido para a sua vida.


Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914). In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de. Rio de Janeiro: Imago, 1969. Vol. XIV, p. 75-108.

FREUD, Sigmund. A perda da realidade na neurose e na psicose (1924). In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de. Rio de Janeiro: Imago, 1969. Vol. XIX, p. 201-209.

LACAN, Jacques. A tópica do imaginário. In: LACAN, Jacques. O seminário-livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986. Cap.2, p.87-186.

LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Cap.V, p.537-590. 

QUINET. Antonio. Teoria e Clínica da Psicose. 2ªed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. 238p.    


[1]
É interessante ressaltar que quando se diz “saída da esquizofrenia” não devemos pensar em uma cura no sentido da previsibilidade de q o sujeito nunca mais surtará, mas sim em uma estabilização do sujeito.

[2] Freud em seu texto de 1914, “Sobre o Narcisismo: uma introdução”, equipara a demência precoce Kraepeliana e o que ele denomina de parafrenia, ao que Bleuler havia batizado pelo nome de esquizofrenia.

[3] Ver o esquema R desenvolvido por Lacan no seu texto “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”.In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Cap. V, p. 537-590.

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