período infantil (anterior à fala) e infância

A reserva de Jung em reunir suas idéias sobre a tenra infância e a infância pode haver-se originado em uma relutância em se introduzir em áreas teóricas de­marcadas por Freud como próprias dele. O interesse declarado de Jung era pela segunda metade da vida. Também estava preocupado com, equilibrar as abordagens redutiva e sintética. Não obstante, pode-se discernir uma abordagem coerente.

As opiniões de Jung giram em torno de uma questão central: devemos ver uma criancinha como uma extensão da psicologia de seus pais e sujeita à influência deles, ou mais como um ser reco­nhecível, desde o começo possuindo sua própria personalidade e organização intrafísica? Vez ou outra Jung se contradiz a este res­peito, porém a vantagem de sua vacilação está em que a tensão entre o que parece ser figuras de genitor "reais", por um lado, e imagens construídas a partir da interação do arquétipo e da experiência, pelo outro, fica realçada. Isso porque, se por um lado não se con­testa que o caráter e a experiência de vida dos pais serão importantes para a criança em desenvolvimento, por outro lado os pais também "não são os 'pais'" absolutamente, mas apenas imagos deles: repre­sentações que emergiram da conjunção de peculiaridades de genitor com a disposição individual da criança".

A implicação desse aspecto para a análise é que todos os eventos da tenra infância, internos e externos, podem ser considera­dos "reais", sem a preocupação indevida de saber se o material é factual.

Jung estava entre os primeiros a decifrar a importância primor­dial do relacionamento entre bebê e mãe em termos hoje reconhecí­veis. Deve-se comparar isso com a insistência de Freud em que era o triângulo edipiano que mais impunha sua aura e suas vicissitudes sobre posteriores padrões de relacionamento. Jung escreveu em 1927: "O relacionamento mãe-filho é certamente o mais profundo e mais marcante que conhecemos… é a experiência absoluta de nossa espécie, uma verdade orgânica… Há uma inerente… (uma) extra­ordinária intensidade de relacionamento que instintivamente impele a criança a agarrar-se a sua mãe".

Jung sublinhou três aspectos da relação da criança com a mãe. São eles: primeiro, que ao longo de todo processo de maturação haverá uma regressão para ela ou para sua imagem; segundo, que a separação da mãe é uma luta; terceiro, que a nutrição é de primordial importância.

Considerando a psicopatologia do relacionamento mãe-bebê, Jung descreve o resultado das expectativas arquetípicas não satisfei­tas. Se a experiência pessoal não satisfaz à expectativa, então o bebê é obrigado a tentar conseguir uma conexão direta com a estru­tura arquetípica que subjaz à expectativa, tentar viver na base de uma imagem arquetípica exclusivamente. A patologia também resulta de uma confirmação, pela experiência, de somente um pólo das possibilidades negativa/positiva. Portanto, se experiências ruins predominam sobre boas na tenra infância, o pólo da "mãe má" da gama de expectativas é ativado, e não há compensação. De modo semelhante, uma imagem idealizada do relacionamento mãe-bebê pode conduzir apenas à extremidade "boa" do espectro a ser viven­ciado, e o indivíduo jamais se harmonizará com os desapontamentos e as realidades da vida.

No que concerne ao pai, aparecem na obra de Jung os seguintes temas:

– pai como oposto de mãe, encarnando diferentes valores e atri­butos.

– pai como um "espírito instrutor", como um representante do princípio espiritual, como a contraparte pessoal de Deus-Pai.

– pai como uma persona-modelo para seu filho.

– pai como aquilo de que o filho se deve diferenciar.

– pai como o primeiro "amante" e imagem de animus para sua filha.

– pai como aparece na transferência durante a análise.

A "cena primária" também pode ser examinada combinan­do-se o empírico com o simbólico. Aquilo que a criança internaliza do casamento de seus pais e da atitude deles um para com o outro afetará suas experiências posteriores em relacionamentos adultos.

Porém, do ponto de vista simbólico, a imagem que ela desenvolve do casamento de seus pais também é uma representação da situação de seu próprio mundo interno – os pais representando tendências opostas ou conflituosas dentro dela própria.

As idéias de Jung sobre a individuação foram aplicadas à tenra infância, fortalecendo a opinião de que a individuação seria um processo ao longo de toda a vida (Fordham, 1969, 1976). Pelo final do segundo ano, todos os ingredientes essenciais lá estão: opos­tos, tais como imagens boas e más da mãe, foram reunidos; símbolos estão sendo usados na atividade lúdica; os rudimentos da moralidade estão em ação; a criança diferenciou-se dos outros.

O conceito de complexo vincula os eventos da tenra infân­cia e da infância à vida adulta. Na análise, imagens de bebês ou crianças podem ser assumidas como referências à emergência de potenciais até então inconscientes.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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