Psicoterapia de grupo e a psicanálise – Limites e possibilidades – continuação da temática

Em outro texto aqui nessa coluna tratamos um pouco do vasto assunto que envolve a questão da psicanálise e sua técnica em grupo. Há toda uma variação em torno do assunto que já começa pela forma de nomear essa intervenção. Muitos falarão de uma “psicoterapia de grupo de orientação psicanalítica”, não considerando esse tipo de intervenção como propriamente psicanálise. Sabemos de antemão que Sigmund Freud não era favorável a uma psicanálise em grupo e que a IPA, seu órgão regulador, chegou mesmo a proibi-la.

Vimos no outro texto a característica proposta antes por “Le Bon” e aceita por Freud que supõe que o indivíduo perderia dentro da multidão sua capacidade de pensar por si mesmo, assim como suas próprias características que falariam de sua história individual. Vimos também como ele sublinhará a questão do contágio e a sugestionabilidade como importantes para compreender uma certa dinâmica grupal, antecipando assim leituras sobre os laços que formam os agrupamentos.

Teremos como uma classificação primária aqui, os grupos naturais, circunstanciais e os grupos terapêuticos.(Mello Filho, J.) Estaremos focando nossa análise nesse terceiro e sua evolução dentro da corrente psicanalítica.

“O amor por si próprio(narcisístico) conhece uma única barreira; o amor pelos outros, o amor pelos objetos”(Freud, S.)

Todo sujeito irá se constituir a partir desse postulado, desde suas primeiras relações no seio de seu grupo original, a família.

“Segundo Moreno, o papel é um conjunto de posições imaginárias assumidas pelo indivíduo durante sua infância. Os primeiros papéis são psicossomáticos: comer, dormir, defecar, etc. À medida que a criança cresce e se diferencia, vai podendo ampliar seu leque de papéis. Alguns papéis ficarão inibidos, necessitando posteriormente, ser resgatados(função da terapia). Mais sadio é um indivíduo quanto mais amplo for seu leque de papéis”.(Mello Filho, J.)

Pichón Rivière nos dirá que: “Na vida de relações sempre assumimos papéis e adjudicamos papéis aos outros. Em condições normais, cada um de nós deve poder assumir vários papéis ao mesmo tempo. Por exemplo, uma pessoa tem o papel de aluno na escola, de pai de família em casa, de médico no consultório, de amigo nas relações sociais, etc.”

Esses papéis dos quais nos fala Moreno, poderão ser entendidos como fortes laços transferenciais, que dentro de um grupo terapêutico aparecerão fortemente marcados e evidenciarão uma leitura de entrelaces grupais, assim como, também, aspectos do histórico individual. A psicanálise tratará desses laços afetivos dentro do grupo a partir dessa leitura sobre a égide da transferencia. Embora Moreno não tenha lançado mão da psicanálise para ler esses papéis, hoje isso isso é feito pelo que encontraremos como uma vertente do psicodrama com leitura psicanalítica.

Pichón-Rivière, grande teórico em relação ao estudo dos grupos com leitura psicanalítica e criador dos grupos operativos, propôs já de dentro da família um conceito chamado de “porta voz” onde esse sujeito desempenharia uma função atrelada ao jogo das três letras D: depositário das patologias e ansiedades de seu grupo familar; as quais são as depositantes. E o que depositam no depositado que são essas patologias e ansiedades(Berenstein)

Dessa maneira teríamos para Rivière, segundo Berenstein:

“Existe aí um jogo de palavras: o porta voz como o que 'enuncia', denuncia. Quer dizer, ele diz algo que vive como próprio porém subliminarmente, percebe algo que acontece no grupo e pode expressá-lo porque, devido à sua história pessoal, encontra-se mais perto que os demais da referida cena”

Teríamos assim um processo grupal que levaria ao que Pichon Rivière chamará de “processo de identificação múltipla”, ele utilizará esse termo para operacionalizar e entender também os grupos operativos propostos por ele.

Para Pichon(segundo Saidon, O.) haveriam quatro papéis: porta-voz, bode expiatório, lider e sabotador.

Para visualizarmos essa questão dentro de um grupo podemos entender essa passagem contida na obra de Rivière, “Teoria do Vínculo”:
“A teoria dos papéis baseia-se na teoria das relações de objeto. As relações de objeto são estruturas nas quais estão incluídos um sujeito e um objeto estabelecendo uma relação particular entre eles. Denominamos vínculo a esse conjunto, a essa esrutura especial. O conceito vínculo é operacional, configura uma estrutura de relação interpessoal que inclui, como já dissemos, um sujeito, um objeto, a relação do sujeito frente ao objeto e a relação do objeto frente ao sujeito, cumprindo os dois uma determinada função.”

Pichón Rivière nos remeterá ao entendimento que se o conceito de papel começou a ser entendido individualmente deverá ser estendido para a questão que envolve os grupos, que existiria sempre um “interjogo dialético” em um conceito de espiral, chegando a uma síntese dos dois papéis que evidencia tanto o comportamento do indivíduo quanto do grupo.

Júlio de Mello Filho nos diz que Burrow foi quem primeiro cunhou o termo “análise de grupo” e propôs o entendimento da patologia como algo que surge da relação original com a mãe e “uma continuidade, porque não lhe foi permitido emergir, ou alcançar expressão social madura, pelo fato de ser a sociedade ela mesma, neurótica. Processos nocivos estão incorporados à repressão, ao subterfúgio e à falsidade de nossos chamados códigos normais e convenções…”(De Maré, citado em Mello, J.F.)

Falamos no primeiro texto aqui dos pressupostos básicos de Bion, importantes para entender uma movimentação característica em grupos terapêuticos. Vamos ressaltar aqui nesse momento, outra contribuição de Bion à abordagem de uma análise de grupo, que nos parece ser uma possível leitura na atualidade dessa modalidade de atendimento e diria que “…em um grupo, quanto mais livres, não-saturadas, não fechadas, forem as comunicações do terapeuta e dos demais membros do grupo, mais chances haverá de comunicação, troca de idéias e formação de novos conceitos. O narcisismo e arrogância levam a comunicações fechadas, que se bastam, que não precisam do outro”.(Mello. F.J.)

Já houve tempo onde a interpretação era focada apenas no grupo, não sendo pertinente qualquer interpretação voltada ao sujeito. Hoje se entenderá que há interpretações possíveis dirigidas ao sujeito assim como ao grupo.

Então, entendemos aqui que, a abordagem do sujeito dentro de um grupo é sempre uma abordagem da relação de objeto e que estaria aí, talvez, a grande eficácia desse tipo de intervenção, o que faz com que muitos acreditem que é uma psicoterapia bem mais dinâmica e de efeitos de avanço alcançados com maior rapidez. Está posta ali, na transferência tanto com o terapeuta, como para com os outros participantes, algo que fala das principais características das relações de objeto desenvolvidas por cada um e ao mesmo tempo, demonstra as características formadas pelos grupos ao qual pertencem e ondem tendem a depositar aspectos repetitivos ou padrões.

Conceito importante para se entender a questão é o de “identificação projetiva”, que antes creditava-se muito às psicoses e que hoje é visto como algo presente na relação transferencial e também no funcionamento neurótico.

“…no qual há uma uma projeção maciça de um conteúdo que é como que “forçado”, introduzido, por uma pessoa em outra. Há uma projeção em alguém que se identifica com esta, com seu conteúdo. O receptor vai, então, comportar-se conforme a mensagem(conteúdos, sentimentos) que recebeu. O emissor defensivamente, não toma conhecimento do que fez e daquilo que expulsou dentro do outro”.(Mello Filho,J.)

Para entendermos então a questão do grupo e sua funcionalidade voltaremos nosso olhar para o fato de que o texto freudiano aponta para a leitura do sintoma, como nos diz Luis Querolim(link A)

“Compreende Freud que o sintoma é a semente de onde pode germinar o que existe de singular na pessoa. Freud definitivamente atestou que o sintoma não é um erro, mas a via de acesso da pessoa a si mesma. Freud lembrou-nos que a semente, longe de ser um resto inútil, é um resto útil. O sintoma, para a medicina, é algo que deve ser eliminado, para a psicanálise, sustentado”.

Esse sintoma “falaria” em alto e em bom som de dentro do grupo, nas relações presentes, atualizadas e vivenciadas dentro desse tecido transferencial composto em um grupo empenhado na tarefa analítica e interpretado a partir dessas relações, isso acontece por intervenção do psicoterapeuta e muitas vezes, também, a partir de outros participantes, assim como, interpretações dirigidas a um sujeito de dentro de um grupo em análise, alcançará de alguma forma todos os outros membros desse grupo. Essa é uma característica que devemos reconhecer como importante e muito interessante no entendimento do funcionamento dessa modalidade de aplicação de uma leitura psicanalítica.

Será no contexto da interacção matriz-padrão e através da organização e perlaboração das transferenciais estabilizadas que se dará a evolução das matrizes relacionais internas.(B)

Nome também importante para o estudo da psicoterapia psicanalítica de grupo é o de Foulkes e a escola inglesa, que foi quem na verdade dedicou-se a esse trabalho a partir de Bion e produziu muitos escritos sobre sua aplicação, inclusive esse importante conceito citado acima, o de matriz-padrão. Já vimos a forte presença dos conceitos de Bion nessa linha, representando no Brasil uma forte influência nas abordagens psicanalíticas de grupo, assim como em outra vertente, trazida pelos argentinos,
encontraremos como grande expoente o aqui já citado Pichon Rivière, assim como Langer, Grimberg e Rodrigué com a importante obra escrita por eles em conjunto, “Psicoterapia del Grupo”. Talvez hoje vejamos algo que caminha em direção a uma mescla difícil de separar.

Pichón Rivière nos fala do diferencial que sua teoria do vínculo aponta:

“A teoria da relação de objeto tem somente uma direção, enquanto que a teoria do vínculo assinala relações múltiplas, é um desenvolvimento psicossocial das relações de objeto que torna compreensível a vida em grupo. Podemos dizer que a psicoterapia de grupo que não inclua o vetor de interpretação do papel é inoperante”(1)

Veremos, no entanto, que a questão do papel é levada em consideração pelas duas vertentes.

Foulkes falará em: bode expiatório, estrangeiro e historiador Pichon Rivière falará em: porta-voz, bode-expiatório, lider e sabotador
Foulkes conceituará algo que marca a psicoterapia de grupo que seriam a questão da rede e matriz. A rede se caracteriza por ser “a soma das transações na qual se move o paciente”, podendo o grupo também formar “suas redes próprias, composta de todas as redes individuais”. A matriz estará ligada a dinâmica do processo terapêutico e a comunicação.

Fornecemos aqui nesse texto, até o presente momento, mais algumas partes da vasta informação que cerca o assunto da psicoterapia psicanalítica de ou em grupo, sabendo que mais um vez, essa tarefa, dada a vastidão de informações e vertentes que encerra, resultará em incompleta. Voltaremos às questões historico-teóricas em outra oportunidade. Fizemos isso até aqui para fornecer uma noção mínima do rico e complexo referencial que na verdade envolve a discussão sobre a abordagem psicanalítica em grupo ou de grupo. Relevância aqui contida na questão do conceito de papéis.

Concluindo:

Continuamos aqui nesse texto, a tentar demonstrar a riqueza que encontraremos em direção a uma prática grupal em psicanálise, embora saibamos que essa abordagem ainda se encontra muito restrita e encarada como algo de menor valor dentro da comunidade psicanalítica, seja em sua parcela ligada a IPA, seja em sua parcela desligada dessa regulação indicada através de suas normas e regras. Nesse aspecto não encontraremos tanta diferença entre as duas partes que compõem a comunidade que constrói seu fazer a partir dos textos freudiano e pós-freudianos.

Ainda em Pichón encontraremos uma passagem para nossa reflexão final nesse texto que terá uma oportuna continuidade.

“Geralmente, o terapeuta deve desempenhar frente a seu paciente o papel de bom depositário, capaz de cuidar de qualquer coisa, boa ou má, que o paciente deposite nele”.(1)

Ele dirá que o sintoma busca sempre comunicar-se, exemplifica isso mesmo no menor gesto catatônico ou na “não comunicação” autista. Pensar essa questão da comunicação dentro da malha de um grupo será sempre uma tarefa mais do que profícua. Hoje, cada vez mais a intervenção via grupo se torna uma opção bastante eficaz em termos de aplicabilidade da psicanálise. Isso tem sido feito aqui no Brasil principalmente em instituições de saúde, ou naquilo que chamamos de grupos homogêneos, que partem de uma temática em comum, como por exemplo, mulheres grávidas, doenças psicossomáticas, etc. Mas a psicanálise feita em grupo deve ser uma possibilidade a se pensar na atualidade, uma forma muito rica de entender as relações de vínculo e o que elas trazem na transferência.

Tomando o que diz Pichon Rivière sobre o entendimento dos papéis veremos a complexidade disso no grupo:

“Em termos de papéis, podemos expressar que o insight é determinado pela tomada de consciência desse duplo jogo de papéis, o que está assumindo e o que está adjudicando ao outro”.

Na dinâmica do grupo é onde isso poderá ser melhor visto, por variados lados dessa repetição, sabendo que aquilo que chamaremos de saúde será uma capacidade de cumprir com variados papéis, porém cumprindo com “um determinado papel em determinada situação e não estar dividida, repelindo por um lado e assumindo por outro”.

“Se examinarmos com maior detalhe estas 'neuroses do destino', como se tem chamado a 'compulsão à repetição', veremos que o indivíduo que aparentemente é vítima de uma serie de infortúnios que o levam a repetir uma vez ou outra as mesmas amargas experiências, é quem as tem configurado”(6)

Em grupo isso praticamente pode ser tocado, o indizível se apresenta como em um palco teatral, atuando e aceitando com cuidado, novas falas em seu vasto roteiro de repetições.

Está dito por Malcolm Pines em obra feita em homenagem a Foulkes e citado por Júlio de Mello Filho:

“Foulkes descreveu o processo do sintoma ao conflito em termos de crescente capacidade de comunicação. O papel do terapeuta foi visto como o de uma pessoa que facilita o processo de comunicação do grupo, isto é, o processo de analisar toma precedência sobre aquele de interpretar…Ele encoraja a ativa participação dos membros do grupo e sua a contribuição dos membrs do grupo, em preferência à sua própria…”(5)

Continuaremos em outra oportunidade abordando as questões que envolvem a psicanálise aplicada a grupos, assunto que como já foi dito antes, é muito vasto em informações e variações e que no momento tem sido um estudo ao qual tenho novamente me interessado em fazer. Há muito o que ser dito também sobre a escola francesa.

Vamos encerrar aqui esse resumido estudo com um insight do poeta Fernando Pessoa em uma de suas múltiplas assinaturas, Álvaro de Campos.

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor.
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Bibliografia:

1 – A teoria do Vínculo – Pichón Rivière

2 – A identificação projetiva no processo analítico – Mario Pacheco de A. Prado

3 – Psicologia de Grupo e Análise do Ego – S. Freud – vol XVIII – Imago

4 – Grupos Teoria e Técnica – Organizador Gregório Baremblitt

5 – Grupo e corpo: psicoterapia de grupo com pacientes somáticos – Julio de Mello Filho

6 – Psicoterapia del Grupo – Leon Grinberg, Marie Langer e Emilio Rodrigué

Links:
A – http://www.gradiva.com.br/site/scripts/dioniso.htm

B – http://www.clinicatagide.pt/upload/Microsoft%20Word%20-%20Empatiapainelbrasil.pdf

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

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