Da “filosofia da consciência” ao “giro linguístico”

Vivemos atualmente num momento em que linguagem e discurso são recursos grandemente utilizados para as investigações das ciências humanas e sociais. Nem sempre foi assim. Sendo a ciência uma construção social, faremos uma breve incursão na história da Filosofia para identificarmos os principais motivos que vieram a fomentar o fenômeno denominado “giro linguístico ”.

“O giro lingüístico foi um giro no sentido de ter sido uma mudança radical graças ao seu questionamento se a linguagem cotidiana é suficiente para explicar o mundo e a vida real” (IÑIGUEZ, 2004, p. 55). Segundo Ibañez (2004), desde o movimento filosófico inaugurado por Descartes, as principais discussões da ciência acerca das questões psicológicas focavam-se em modelos introspectivos.

Partindo do pressuposto “penso, logo existo”, a ciência se convenceu que para conhecer o “mundo externo” devia-se perscrutar detalhadamente o “mundo interior”, ou seja, a razão era suficiente para explicar a realidade. Consolidava-se assim no domínio da ciência, a tão conhecida dicotomia corpo/alma proposta por Platão. Por mais de dois séculos esta “filosofia da consciência” foi o principal palco dos debates científicos. Contudo, certos efeitos metodológicos e epistemológicos influenciaram diversos questionamentos de sua hegemonia.

A primeira grande ruptura foi decorrente do desenvolvimento da lingüística estrutural de Ferdinand de Saussure, pai da linguística moderna. Seu impacto foi tão grande na ciência em geral, que além de influenciar as demais disciplinas, estimulou durante a década de 50, o surgimento do movimento chamado estruturalismo. Como próprio da ciência, não demorou muito para surgirem críticas antiestruturalistas.

Chomsky, elaborador da linguística generativa, foi um dos principais opositores do estruturalismo. No entanto, suas críticas acabaram por aumentar ainda mais o interesse pelos estudos lingüísticos. A segunda poderosa mudança de paradigma frente ao cartesianismo teve início com a elaboração da teoria da quantificação (base da lógica moderna) proposta por Frege. Seus estudos propuseram a troca dos conceitos aristotélicos de sujeito e predicado pelos conceitos de argumento e de função. Nesta segunda vertente também são incluídos grandes filósofos como Russell, Wittgenstein e os neopositivistas do “Círculo de Viena” (IBAÑEZ, 2004).

Ibañez (2004) aponta que estas duas rupturas provocaram drásticas alterações na forma de conceber e praticar o conhecimento. Em primeiro lugar, evocou o deslocamento do estudo das ideias, de ordem introspectiva e privada, pelos estudos da linguagem, de ordem objetivada e pública. Em segundo lugar, promoveu a mudança da concepção de que não mais são as ideias que captam os objetos da realidade, mas sim que a própria linguagem as constrói.

Mesmo estas mudanças tendo contribuído para uma mudança profunda sobre a importância da linguagem para a ciência, os chamados “filósofos de Oxford” e particularmente o neopragmatista Rorty, foram ainda mais radicais. Suas principais críticas tiveram como alvo os projetos dos neopositivistas que procuravam, por meio do método científico, construir uma linguagem “lógica” e “pura”. As críticas anti-representacionistas, deslegitimaram este cientificismo ao igualarem a linguagem cotidiana como tão importante quanto a linguagem científica. A partir deste momento, a linguagem de passiva se transforma em ativa, isto é, ela não apenas representa, ela faz. Com a centralidade da linguagem nos processos sociais passando a ganhar muito mais importância, o desenvolvimento de perspectivas construcionistas foi grandemente estimulado, tanto nas ciências humanas quanto sociais (IBAÑEZ, 2004; SPINK, 2004).

Referências

IBÁÑEZ, T. O “giro lingüístico”. In: IÑIGUEZ, L. Manual de Análise do Discurso em Ciências Sociais. Petrópolis, Vozes, 2004.

IÑIGUEZ, L. Manual de Análise do Discurso em Ciências Sociais. Petrópolis, Vozes, 2004.

SPINK, M. J. Linguagem e Produção de Sentidos no Cotidiano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

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