O psicólogo como agente transformador na segurança pública brasileira

Os profissionais Pedro Paulo Gastalho de Bicalho, Virginia Kastrup e Jefferson Cruz Reishoffer desenvolveram um estudo acerca do ingresso do profissional de psicologia no campo da segurança pública, examinando as definições de controle social, relacionando a questão do aumento da insegurança com o advento da nova ordem social proposta pelo modelo neoliberal, assim como a reedição de propostas criminológicas positivistas que embasam políticas destinadas a conter o fenômeno da criminalidade.
O estudo adotou o conceito de analisadores (artifícios inventados ou implantados pelos analistas institucionais para propiciar a explicitação de crises e conflitos), adotando como exemplos o Caveirão, os chamados “mandados de busca coletivos” (mandados expedidos em regiões periféricas que autorizam a força policial entrar em casas de moradores a qualquer momento, revistando objetos e procurando sinais de delitos, apreendendo suspeitos etc.) e os procedimentos conhecidos como autos de resistências, sendo que os mesmos funcionam como dispositivos que permitem a análise das instituições presentes nas atuais políticas de segurança pública.

Após análise das políticas públicas brasileiras e os aspectos relacionais entre os analisadores supracitados, os autores desenvolvem as contribuições possíveis que os profissionais das Psicologia podem dar para a melhora da situação e, em um terreno que prima cada vez mais por respostas imediatas, rápidas e por soluções definitivas, qual será o papel político de tais profissionais ou ainda, como romper com a clássica tradição da Psicologia que preza por uma intervenção dita neutra e objetiva.

As práticas (como psicólogos ou como cidadãos) devem questionar a naturalidade dos objetos e dos sujeitos que estão no mundo e, no interior dos espaços determinados a intervenções relacionados à problemática da segurança pública e questões de justiça criminal, deve-se buscar a força de um pensamento que deseja romper com padrões instituídos e dominantes na orientação de novos territórios de desejo.

Os autores sugerem o uso de dois conceitos da Análise Institucional Francesa, a autoanálise e a autogestão; A partir de tais processos, as comunidades poderão produzir saberes acerca dos próprios problemas enfrentados, suas reais necessidades, limitações e causas que determinam tais situações. Os autores descrevem a autoanálise como um processo onde as comunidades possam, como protagonistas de seus problemas, enunciar, compreender, adquirir ou readquirir que um vocabulário que lhes permita saber acerca de sua vida e o processo de autogestão caracteriza-se pela maneira como a comunidade se articula, se institucionaliza e se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir (ela mesma) ou para conseguir os recursos de que precisa para o melhoramento de sua vida sobre a terra.
Dentro dos processos supracitados, o psicólogo não deve se colocar em uma posição hierárquica superior, nem como principal avaliador das relações coletivas e individuais que se desenvolvem em determinada situação, sendo que tais processos sejam engendrados dentro dos próprios grupos ou comunidades.

Apesar de tais processos estarem conectados e articulados, as comunidades devem se utilizar de dispositivos que estimulem a construção do saber e gestão próprios, dispositivos estes como grupos de discussão, assembleias, fóruns ou outras situações que sejam capazes de mobilizar as forças produtivas presentes em qualquer movimento de reforma, sendo que todo o conhecimento produzido pela comunidade terá apenas uma finalidade: se auto organizar para que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência, a resolver seus problemas.
 
O estudo conclui que os profissionais devem estar atentos a seus atos, porque ou produzirão subjetividade ao legitimar, normalizar, instituir certos padrões subjetivos enquanto legítimos e possíveis (em detrimento das possibilidades de expansão e de ruptura) ou buscarão a potencialização de vetores de desejo, a construção de máquinas de guerra, o desencadear de processos de singularização, em um processo que os autores denominam "revolução molecular".
 
Os autores concluem que os psicólogos deverão, dentro da “revolução” pretendida, não ocupar postos de aliados ou de propiciadores dos processos, mas sim tal revolução deve ocorrer a partir da própria atitude de tomar para si a revolução das práticas e dos saberes e também se imiscuir em um processo de singularização do próprio “fazer-psicológico”.

BICALHO, Pedro Paulo Gastalho de; KASTRUP, Virginia; REISHOFFER, Jefferson Cruz. Psicologia e segurança pública: invenção de outras máquinas de guerra. Psicol. Soc.,  Florianópolis,  v. 24,  n. 1, abr.  2012 .   Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822012000100007&lng=pt&nrm=iso. acessos em  11  maio  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822012000100007.
 

 

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