Identidade

Identidade

Brinco de ser
E de não ser
E o que sou é sempre
O que não sou.

Por volta do meio dia, o restaurante fervilha de gente – empregados de escritório, vendedoras, publicitários, jornalistas. E médicos, também: além da praça fica o belo prédio da Casa de Saúde, de onde eles vêm com seus jalecos brancos, um e outro ostentando o estetoscópio em volta do pescoço. Um grupo de presidiário em fim de sentença trabalha na limpeza da praça; muitos deles têm braços e torsos ornados de tatuagens. Médico ou presidiário, cada um à sua maneira ostenta os signos da tribo, reafirma o orgulho de ser o que é. Para ser o que somos, diz Sartre, precisamos brincar de ser o que somos.  

Basta pensarmos no juiz togado, entrando solene na sala do júri, ao que todos, respeitosos, se levantam. No general de lábios cerrados, olhar desafiador, respondendo com voz firme às perguntas de um jornalista. Ou ainda na rainha da Inglaterra, personagem por excelência, desfilando serena enquanto acena para os súditos, devidamente compenetrados do papel de súditos. O juiz é, de fato, um juiz, na medida em que não é um médico ou um padre. Também o general é um general, à força de não ser poeta ou bailarino. E ninguém poderá negar à rainha o direito de ser o que é, forjado ao longo de gerações. No entanto, nenhum deles, juiz, general, rainha, presidiário, é o que é à maneira como um lápis é um lápis, completa e internamente, sem qualquer distância de si.

Essa é uma das maneiras como podemos entender a instigante fórmula de Sartre, de que o homem é o ser que não é o que é e é o que não é. Tenho consciência de que sou um psicólogo, mas este que percebo como psicólogo está distante de mim; jamais o alcançarei, pois nos separa a fissura que há entre o que sou e o que me percebo sendo. A rigor, só podemos nos definir retrospectivamente: fui psicólogo até o exato instante em que enuncio isso; à minha frente, agora, se abre o nada, que devo preencher representando ser o que sou. Entre a pedra e o que ela é não existe distância: a pedra é pedra em si, sem qualquer fissura onde se insira o nada. O homem – juiz, general, presidiário – é para si e para o outro, sempre incompleto; por isso os rituais, as solenidades, as representações que nos reafirmam.  

Talvez por isso, também, os adereços que nos definem não como médicos, presidiários, altos ou baixos, mas como felizes, realizados, tristes, autoconfiantes. O carro potente, o celular de última geração, as homenagens – tudo isso fala de nós, para nós e para o outro, num sentido muito mais profundo do que a mera ostentação; sugere uma identidade conosco mesmos que jamais alcançaremos. Ou melhor, que só alcançaremos na morte: transformando a vida em destino, como disse Malraux, ela nos restitui à totalidade da pedra. Enquanto isso, brincamos de ser o que somos, pairando no vazio do instante, já não sendo o que fomos, e ainda não sendo o que seremos.  

Que o olhar do outro nos devolva a completude que não somos.

Referências

MALRAUX, Andre, A Condição Humana, tradução e prefácio de Ivo Barroso, 3ª Edição, Rio de Janeiro: Record, 2009

SARTE, Jean Paul, O Ser e o Nada, Ensaio de Ontologia Fenomenológica, tradução de Paulo Perdigão, Petrópolis: Editora Vozes, 2005

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