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A morte e o medo de ser esquecido

O que nos faz ter tanto apego à vida ou a ser lembrado? Mesmos os suicidas, de modo geral, não desejam ser esquecidos. E todos seremos esquecidos, mais dia menos dia. Daqui uns 100 anos a maioria das pessoas que hoje vive estará completamente esquecida. Não haverá mais qualquer rastro nosso por sobre a Terra. Essa é a regra.

As pessoas falam de como desejam ser sepultadas, de como querem ser lembradas. Mas se esquecem de que serão esquecidas.  E para que tanto desejo disso ou daquilo, se já não mais existirão? É o apego, o amor próprio, o qual revela seus tentáculos imaginários para além da vida. E sempre o desejo de não ser esquecido, esse mandamento irracional e desmedido do amor próprio, de nosso egoísmo fundamental.

Trata-se do sentido estóico da vida: perseverar nela. O sentido da vida é a perseveração nela. Todo ser vivo luta por se manter vivo. A vida seria assim compreendida como o conjunto de resistências à morte. E todas as resistências que levantamos inclusive para desesperadamente afirmar a existência improvável de nossa eternidade. Amor próprio, somente ele talvez explique os absurdos em que acreditamos para não aceitarmos nossa própria finitude absoluta: haja narcisismo.  Não acredito nesse sentido estóico para a vida. Penso que o princípio do prazer, concepção epicurista, é prevalente. Todo ser vivo, o qual possui percepção, busca prazer ou foge da dor. A perseveração e todas suas derivações são nada mais do que ressonâncias de nosso próprio egoísmo fundamental.

Acho mais madura e humilde a concepção de que com o fim da vida, tudo acaba. De que tenho começo, meio e fim. Por que eu seria infinito, dotado de alma eterna, e os protozoários e vermes não? Arrogância especista. Humanismo infantil. Por que o ser humano seria assim privilegiado, mais especial do que todas as outras espécies? Então somos eternos e o resto não? Como assim? Se o sofrimento iguala todas as espécies que são sensíveis, o que nos faria assim tão diferentes e melhores? A racionalidade? Sim, somente se for para nos autoenganar acerca de nossos próprios limites enquanto seres vivos, seres que morrem, que acabam.

Contudo, compreendo um pouco até onde vai nosso amor próprio, nossa paixão cega por nós mesmos, nosso narcisismo. Como aceitar que nossa vida e a de quem amamos, que tanta beleza, complexidade, singularidade e profundidade possa se desfazer? Pois é exatamente isso o que sentimos em relação a nós mesmos e a quem amamos: beleza, complexidade, singularidade e profundidade. Somos humanos, seres portadores de consciência reflexiva (sabemos que existimos e que morremos) e somos também seres sociais. Nossa existência assim concebida e a presença do outro são vividas em estado de imensidão.

Psicologicamente somos vastidão e profundidade incalculável para nós mesmos e para quem nos ama. E é amando e se envolvendo com pessoas que sentimos a presença constante do infinito na identidade singular que cada ser humano possui e carrega consigo. Cada um é um. Ninguém é igual a ninguém. Parafraseando Drummond, todo ser humano é um estranho, absurdo e infinito ímpar. A singularidade da existência de cada um é uma ressonância de infinito, traduz as possibilidades infinitas de existência. E assim fica talvez difícil não acreditar na eternidade. O amor produz profundidade e sentimentos de eternidade. Amar é ver o abismo que é o outro. Não tem fundo. Não tem limite. Apaixonar-se é cair nesse abismo. E de tão apaixonados que somos por nós mesmos, nos acreditamos como eternos.
Só dá para escapar das contradições dessa concepção se admitirmos que tudo é eterno, de que há um outro mundo, paralelo a este, fonte deste e eterno. O mundo platônico das ideias, das almas de tudo, a fonte de tudo. E este mundão aqui seria isso mesmo: repleto de mudanças e mortes.

Mas as pessoas se angustiam e não se cansam de perguntar sobre o que será o futuro, e o que será após a morte. Para onde vamos depois que morrermos? Para o mesmo lugar de onde viemos antes de nascermos. Todos se perguntam sobre o que será após a morte, mas ninguém se pergunta sobre o que foi antes de ter nascido. E, confesso, tenho pensado muito sobre o que “fui” antes de ter nascido. Um pensamento me deixar muito consolado: não fui nada, eu não existia. E voltarei a não existir após minha morte. A coisa que mais fiz, na existência de tudo, foi não existir. Pensando assim aceito melhor minha finitude e o esquecimento completo de meu ser. Posso desejar o que for dentro da minha pequenez diante de tudo, contanto que sejam desejos para mim mesmo e não para o mundão lá fora.
 

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