O papel do psicólogo no esporte II

O desenvolvimento da psicologia do esporte, enquanto campo de pesquisa e intervenção, tem suscitado uma série de questões. Desde a formação mínima adequada para a atuação na área, e as delimitações do papel do profissional até a formação de um corpo teórico e técnico que sirva como base para a intervenção junto a atletas e praticantes de atividade física.
No âmbito internacional percebe-se uma história com duração de cerca de 60 anos. No Brasil, apesar de termos conhecimento de trabalhos pioneiros desde a década de 50, o foco inicial esteve restrito ao futebol. Outras modalidades passaram a ser assistidas por este tipo de intervenção já no final da década de 70, mas veio ganhar força mesmo na década de 90. Assim, devemos ter paciência com relação ao desenvolvimento do corpo teórico e técnico da psicologia do esporte, entendendo tratar-se de um processo de construção, o qual mal foi iniciado.

Tratando especificamente de atuação é já bastante difundido o papel do psicólogo no que se refere ao comprometimento com a ética e a saúde das pessoas com as quais trabalha. No caso da psicologia do esporte tal compromisso deve ser mantido como um princípio norteador para suas ações. Porém, esta é só uma parte do caminho na medida em que a atuação do psicólogo deve estar direcionada, também, para os objetivos da prática esportiva. No caso das práticas de atividade física que visam ou deveriam visar a saúde dos praticantes como meta principal (esporte escolar, reabilitação e lazer), a concatenação da intervenção psicológica com a prática em si parece fácil e natural. No caso do esporte de rendimento esta conjunção não é tão simples assim.

Em primeiro lugar o esporte de rendimento, caracterizado pela superação de limites, metas e adversários, dificilmente pode ser denominado como “saudável”. Chavões como “Esporte é saúde: pratique!” muitas vezes escondem a realidade da vitória a qualquer custo, a qualquer preço, até o da saúde do atleta. Bordões como o mencionado acima referem-se à prática da atividade física regular e corretamente orientada. Para tal não é preciso ser atleta. O esporte de rendimento da forma como está estruturado e é praticado implica, em muitos casos, no desrespeito aos limites do ser humano. Bom, mas não é este mesmo o objetivo do esporte de rendimento? A superação de marcas? A experimentação dos limites das capacidades humanas e a tentativa contínua de ampliá-los? Sim, mas o problema não está aí. Devemos considerar que conhecer os nossos limites e tentar aumentar nossas capacidades é extremamente importante para uma série de questões práticas do cotidiano e, em longo prazo, para determinar as chances de sobrevivência da espécie. A questão reside na forma como esta superação tem sido executada, e qual o lugar reservado ao psicólogo na soma de forças para se atingir tal objetivo.

Em um ambiente cuja cultura é permeada por manipulações arbitrárias de comportamento e por uma extrema seletividade (um número muito pequeno dos atletas das categorias de base tornam-se profissionais), é preciso muito cuidado para não se deixar levar, perdendo-se dos princípios éticos norteadores da prática. Não é possível simplesmente aceitar fatos, por exemplo, como a utilização indiscriminada de “infiltrações”, as quais muitas vezes mascaram o problema na medida em que aliviam a dor mas não resolvem o problema. Vale lembrar que a dor tem uma função biológica importante já que serve como um sinal de alerta de que há algo errado. Não se pode fechar os olhos e fingir que não está acontecendo. É preciso alertar, informar e conscientizar o atleta em tal situação para que o mesmo possa fazer uma escolha quanto a aceitar ou não o procedimento. Uma outra situação bastante comum, e que envolve diretamente a atuação do psicólogo, é a aplicação de testes e outros procedimentos de avaliação psicológica. Neste caso solicita-se ao psicólogo a elaboração de perfis dos atletas para que se possa lidar melhor com eles. É uma falta ética grave, passível de punição pelos conselhos regionais e federal, realizar tal procedimento sem informar os objetivos aos atletas, realizar uma entrevista devolutiva dos seus resultados, ou mesmo passar os resultados adiante sem o consentimento dos mesmos. Também não é aceitável executar ou consentir com ações que resultem em uma pressão insalubre para a obtenção de resultados esportivos. Neste sentido os exemplos recém mencionados e tantos outros colocam o psicólogo em xeque quanto à possibilidade de sua atuação junto ao esporte de rendimento.

Por um lado não podemos aceitar tomar parte de qualquer prática sem uma análise de suas conseqüências para a saúde dos atletas e, por outro devemos e precisamos ganhar espaço nos clubes e instituições esportivas. Não podemos bater de frente com a prática dominante no ambiente esportivo, senão não conseguiremos tal espaço e precisaremos desistir e assistir resignados a perpetuação de uma realidade desconcertante e improdutiva. É preciso inserir-se no ambiente esportivo e, aos poucos, colaborar para a transformação da cultura e prática esportiva. Podemos agir tanto no sentido da busca pela qualidade de vida, como também pela obtenção de grandes desempenhos e resultados esportivos, de forma indireta e direta. Aí, sim, teremos uma psicologia do esporte. Talvez possa ser assim definido: psicologia no esporte é a inserção de intervenções psicológicas visando a saúde e a satisfação dos atletas, e demais envolvidos; psicologia do esporte é a utilização de práticas psicológicas que visam a melhoria de desempenho, sem nos esquecermos do compromisso com a saúde. Outro ponto que merece destaque, e que já foi mencionado em coluna anterior, refere-se ao fato de que o psicólogo é geralmente contratado temporariamente, em momentos de crise, e dispensado em seguida. Dessa forma o profissional acaba sendo visto mais como um intruso do que como um dos membros da comissão técnica e, portanto, todo profissional deveria analisar cuidadosamente as propostas recebidas no sentido de avaliar as condições de trabalho disponíveis.

Uma palestra ou uma dinâmica de grupo isolada não vai resolver a vida de ninguém. Uma fala convicta, permeada por apresentações “pirotécnicas” (abuso de tecnologias) pode gerar uma sensação fugaz de alívio ou de motivação. Devemos questionar até que ponto este tipo de intervenção produz resultados efetivos e duradouros. Há também mais um aspecto que deve ser mencionado e que diz respeito à imagem social do psicólogo: o de “médico de loucos”. Esta é uma herança que a psicologia do esporte, e outras especialidades da psicologia, trazem da psicologia clínica, quando esta estava diretamente associada à psiquiatria e intervenções em manicômios. Mesmo a psicologia clínica, atualmente, destina-se a uma população bem mais abrangente do que indivíduos com patologias psiquiátricas. Importante ressaltar que no trabalho da psicologia do esporte deve-se oferecer apoio e aconselhamento para os atletas e demais envolvidos, mas isso não significa que o psicólogo estará realizando psicoterapia. “Fazer” psicologia do esporte não é carregar um divã portátil que pode ser montado no garrafão ou próximo à trave.

Quando é constatada a necessidade de uma terapia, a pessoa deve ser encaminhada para um profissional especializado que irá atendê-lo no seu consultório. Além destas dificuldades que já estão instituídas há algo mais: a formação acadêmica e a experiência prática do psicólogo do esporte. A prática da psicologia do esporte visando tanto a saúde quanto a melhoria de desempenho não é nada fácil. Na verdade parece ser um objetivo bastante ambicioso, e que quem se propõe a tal fim deve estar devidamente preparado. É preciso conhecer e saber trabalhar tanto com psicologia quanto com esporte. O psicólogo que trabalha no esporte deve conhecer o fator primordial da área: a competição. Todas as ações, de todos os profissionais envolvidos, devem estar voltadas para a obtenção dos melhores resultados possíveis nas competições. Por que seria diferente para o psicólogo? Neste sentido a intervenção psicológica deve estar direcionada para a obtenção dos resultados, de forma integrada aos outros tipos de preparo (físico, nutricional, técnico-tático). Portanto o psicólogo necessita conhecer os tipos de competição e de preparo para elas, na (s) modalidade (s) trabalhada. Além disso, diferentes tipos de modalidades e de competições apresentam diferentes exigências para os atletas. É preciso conhecê-las muito bem para saber o que deverá ser esperado dos atletas e, aí sim, propor intervenções específicas e adequadas.

Mesmo contando com tão pouco tempo de existência a psicologia do esporte já pode oferecer uma gama relativamente diversificada de intervenções. Desde intervenções visando o desenvolvimento de um grupo, a sua transformação em uma equipe, até procedimentos específicos para o desenvolvimento de habilidades de concentração e motivação. Para o trabalho de desenvolvimento de grupos pode-se utilizar de dinâmicas de grupo temáticas e estruturadas, reuniões e palestras. Em todos os casos, do trabalho com grupos até as habilidades específicas, pode-se intervir no desempenho de modo direto ou indireto. Isto significa que os comportamentos-alvo das intervenções podem ser o próprio desempenho em competições como comportamentos relativos ao preparo para as mesmas. Em um ambiente marcado pela objetividade (os resultados esportivos são expressos em termos numéricos), não podemos deixar de considerar que de alguma forma é necessário pensar em formas de avaliar a intervenção psicológica. Isto é um problema para a psicologia, de um modo geral.

Como em grande parte do tempo interferimos sobre processos subjetivos, dificilmente observáveis diretamente, encontramos enormes dificuldades para medir mudanças nestes processos. Bom, se pretendemos interferir no desempenho de modo direto ou indireto, esta é a variável que deverá ser analisada. Mudanças de desempenho podem ou não estar atreladas às intervenções psicológicas. Para que se possa avaliar tais mudanças é preciso medir objetivamente o desempenho antes, durante e depois das intervenções. Somente assim, com rigor metodológico, poderemos analisar os resultados das intervenções e demonstrar sua eficácia. Este é um ponto importante para que o psicólogo possa fixar o seu lugar no esporte: mostrar resultados.

*adaptado de Cillo, E.N.P. (2003). Análise de jogo como fonte de dados para a intervenção em psicologia do esporte. Em Kátia Rubio (org.) Psicologia do Esporte Aplicada, Casa do Psicólogo, São Paulo/SP.

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