Subjetividade

Akemy Brandão;Alex Ribeiro;Gabriela Cotrim;Ian Vinhas;Nara Moraes;
Patrícia Vaz;Tacianne Rios

O presente trabalho busca identificar as possíveis diferenças e convergências no conceito de subjetividade entre duas correntes da Psicologia: Behaviorismo Radical e Psicanálise. Esta identificação dar-se-á pela apresentação sucinta e didática das duas vertentes em torno da subjetividade, sem deixar de analisar a possibilidade de diálogos produtivos entre o behaviorismo radical e a psicanálise.

INTRODUÇÃO

Segundo o dicionário Larousse Cultural (1999), subjetividade é o caráter do que é subjetivo, que, por sua vez, diz respeito ao sujeito definido como ser pensante, como consciência, por oposição a objetivo. De fato, a subjetividade engloba todas as peculiaridades imanentes à condição de ser sujeito, envolvendo as capacidades sensoriais, afetivas, imaginativas e racionais de uma determinada pessoa. Toda pessoa é uma complexa unidade natural e cultural. Mais que um corpo com funções biológicas e psicológicas com capacidades de transformar o seu meio pelo trabalho e pela linguagem, o ser humano é uma unidade de necessidades, desejos, sentimentos, angústias, temores, imaginários, racionalidades e paixões. Da mesma forma como não podemos considerar o homem apenas como um animal racional, também não podemos reduzir a subjetividade a uma dimensão meramente cognitiva, a uma consciência, desconsiderando todas as demais facetas da complexa interioridade de cada um.

Pela dificuldade e complexidade na definição de subjetividade, adotaremos neste presente trabalho que “subjetividade” refere-se às experiências particulares de um sujeito particular, que implicam não somente a sua relação passiva com o mundo e com o outro, mas também o seu engajamento ativo nestas direções.

Os estudos da subjetividade pautados exclusivamente na psicologia têm se mostrado insuficientes, deparando-se com freqüentes dificuldades e contradições. Desse modo, não é possível, a utilização somente da psicologia para o entendimento da subjetividade; são necessárias também as categorias da filosofia e da sociologia. Mesmo porque o sujeito, ao qual é associado o termo subjetividade, remete, simultaneamente, à universalidade e à particularidade. Nessa perspectiva, defende-se a idéia de que, para estudar a subjetividade, é necessário, para o psicólogo, além de seu saber específico, o conhecimento de noções de filosofia e sociologia, relacionadas com o seu objeto, e um bom contato com a literatura e com a arte de uma forma geral.

De modo global, estudar subjetividade é procurar no indivíduo as marcas da sociedade. Ou seja, dizer que o indivíduo é mediado socialmente, não significa que ele seja afetado externamente pela sociedade, mas sim que se constitui por ela, isto é, pela sua introjeção. Assim, a psicologia, para entender as questões que se referem à subjetividade, deve compreender as finalidades, as instâncias, os meios, pelos quais uma determinada cultura forma o indivíduo. Este argumento só pode ser efetivo a partir do momento em que se admite que a cultura modela a subjetividade, disponibilizando seus hábitos e costumes, valores e padrões de comportamento. Tais elementos que incorporamos ou que nos formam advém das várias experiências de sociabilidade pelas quais passamos: nossa família, a escola, nossos colegas e amigos, a comunidade local, a igreja etc.

DESENVOLVIMENTO

Como já descrito anteriormente, a investigação da subjetividade possui barreiras, principalmente quando estudada por um único campo de conhecimento. Contudo, abordaremos aqui como a subjetividade é tratada dentro das duas principais correntes da psicologia: Behaviorismo Radical e Psicanálise.

*BEHAVIORISMO RADICAL

Na perspectiva do behaviorismo radical, a subjetividade é vista como o conjunto de eventos caracterizados, em outras abordagens, como mentais, cognitivos e afetivos. Nesta abordagem, a subjetividade é estudada, geralmente, recorrendo-se à teoria de eventos privados.

Os eventos públicos (observados empiricamente) e privados diferenciam-se por sua potencial disposição de influência sobre os indivíduos; isto porque, enquanto um dado evento público pode afetar mais de um indivíduo, um evento privado não apresenta esta probabilidade, afetando apenas o próprio indivíduo. Ou seja, se afeta apenas o próprio indivíduo, então apenas ele pode ter acesso aos eventos privados, pois só ele pode detectar sua ocorrência. Para Skinner, a diferença entre eventos públicos e privados não é, portanto, de natureza, mas de acessibilidade.

Ao falar de eventos privados, Skinner faz referência ao “mundo dentro da pele”. Embora admita a sua existência, Skinner considera que esses eventos possuem a mesma natureza que os eventos públicos, isto é, ambos são físicos, como afirma em seu livro Ciência e Comportamento Humano.

Segundo Skinner, com exceção do que é disponível pelo aparato genético, tudo o que se passa sob a pele (e aqui se está falando de subjetividade) é um produto social. Isso significa dizer que é a comunidade (e a comunidade humana é verbal, pois segundo Skinner, é através da linguagem que a subjetividade pode ser acessada) que instrui o indivíduo a nomear objetos que vê, a se referir ao que sente, percebe, pensa, e a viver, pensar e ser. Para este autor, o mundo privado do sujeito constrói-se socialmente; aquilo que da privacidade é conhecido depende de (ou está relacionado ao) quanto e como a sociedade lhe ensinou a relatar seu mundo privado. O indivíduo pode falar sobre o que sente, pensa ou sonha porque foi ensinado a relatar, aprendendo a interpretar o que lhe acontece encobertamente.

Admitir a acessibilidade, por um indivíduo, dos seus eventos privados não significa, porém, que eles serão necessariamente acessados e, caso o sejam, que o tenham sido acessados confiavelmente. Desta forma, Skinner coloca em questão o quanto o indivíduo tem acesso ao que lhe ocorre encobertamente, questionamento esse decorrente de um pressuposto: o de que o mundo privado do indivíduo é um produto social.

Por fim, o que uma pessoa conhece de si mesma depende das contingências às quais ela foi exposta durante a sua vida, ou seja, a condição para o autoconhecimento é dada pela comunidade à qual o indivíduo pertence.

*PSICANÁLISE

As análises teóricas de Freud causaram uma verdadeira inquietação à distinção burguesa fundamental entre o particular e o público, o indivíduo e a sociedade, revelando as raízes objetivas da dinâmica interna do indivíduo e iluminando a natureza também objetiva da subjetividade prevalecente. Suas análises constituem no seu conjunto uma postulação que pretende desvendar o sentido do que aparentemente não se vê, não se sabe, não se sabe que sabe, ou seja, a subjetividade.

De acordo com os escritos de Freud, estudar a subjetividade é postular de início que a “vida subjetiva” não é o reino do absurdo, do obscuro, da impossibilidade do saber. A “vida subjetiva” é objeto possível de compreensão racional. A vida psíquica não é autônoma, independente e absoluta frente à realidade objetiva que, da mesma forma, não o é com relação à subjetividade.

Através de seus procedimentos, Freud pôde captar e revelar que, apesar de os processos psíquicos e culturais fundamentais serem universais e condição para a humanidade, esses processos são subordinados às condições da particularidade histórica a da singularidade individual. Deste modo, ele admite que os mecanismos pelos quais os processos e as exigências civilizatórias se constituem são subjetivos.

A priori, não é difícil acreditar que o significado de subjetividade para Freud era o ego, conceito detalhadamente discutido nas obras do autor. O ego é qualificado como um subsistema que opera segundo determinado código (dirigido ao real ou não) e que, produz o trabalho do pensar consciente. Segundo Freud é possível ter certo grau de autoconsciência (subjetividade), porém esta, nunca abrangerá todos os sentimentos psíquicos, este sistema só se torna possível como resultado de um sistema que está em condições de abranger as operações inconscientes. Portanto, o ego não significa a totalidade de todo o mundo psíquico do sujeito.

A autoconsciência pode ser mais entendida como subjetividade no sentido de ser o centro do sujeito. Esta resulta das operações do inconsciente ao mesmo tempo em que não tem o controle completo de suas próprias operações. A autoconsciência no conceito psicanalítico corresponde a uma rede dos sistemas conhecidos como: o ego, o superego e o id. Na visão psicanalítica, a autoconsciência resulta de experiências feitas pelo sistema e suas conexões. Por fim, segundo a psicanálise, o sujeito é determinado pela sua subjetividade ou autoconsciência.

No âmbito prático, a subjetividade do analista (mundo interno, caráter, experiência, referencial teórico, conceitos, contratransferência) interage com a subjetividade do analisando, na relação transferencial, sendo esta interação o que vai produzir o primeiro fato objetivo em Psicanálise, a compreensão objetiva pelo psicanalista daquilo que se passa na transferência e será comunicado ao analisando. Desta forma, a interpretação da demanda do paciente dar-se-á pela objetivação do que é subjetivo.

No consultório, tudo que o psicanalista tem de objetivo (o referencial e a experiência) passa a compor sua subjetividade. A presença da teoria na interpretação somente vai se dar pela via indireta da intuição do analista, ou seja, através da interação de toda a sua subjetividade com a subjetividade do analisando, no choque intersubjetivo do setting analítico. É, no entanto, a subjetividade agregada ao conteúdo objetivo que diferencia o psicanalista do observador leigo.

CONCLUSÃO

O debate acerca do que se convencionou nomear amplamente de “subjetividade” é extenso e encontra diversas definições. O mais comum é contrapor com a “vida objetiva”, explicitando duas dimensões fundamentais da condição humana: a objetividade (externa, material, coletiva, prática) e a subjetividade (interna, espiritual, individual, emocional).

O que há de mais congruente nas diversas abordagens é que a relação entre indivíduo e sociedade implica a consideração da subjetividade e da objetividade na perspectiva da constituição recíproca de um e de outro. Em outra importante discussão conclui-se que não é mais suficiente entregar a subjetividade à responsabilidade e aos estreitos contornos da psicologia, e que não é possível continuar questionando socraticamente a psicologia para obrigá-la a confessar que não pode definir, por si, os fundamentos da subjetividade.

Com base nisso, o trabalho abordou que o Behaviorismo Radical percebe a subjetividade como um evento privado que só pode ser acessado através do comportamento verbal do próprio indivíduo. Contudo, esse comportamento verbal não é totalmente confiável e padronizado universalmente, devido a este ser aprendido culturalmente. Já a Psicanálise, focaliza a subjetividade como a autoconsciência e procura revelar o aspecto objetivo da subjetividade.
É interessante notarmos que tanto o Behaviorismo Radical como a Psicanálise afirmam que a subjetividade é constituída socialmente, numa relação recíproca entre o eu e o mundo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Particularmente para o grupo de trabalho foi muito interessante perceber que a subjetividade não é objeto de estudo apenas da psicologia, e como esta é insuficiente para tratar universalmente o tema.

É comum nos depararmos com uma visão leiga do que é ser psicólogo, onde se considera que o psicólogo é o profissional que tem obrigação de entender a subjetividade humana.

O presente trabalho proporcionou uma visão mais clara do objetivo da
disciplina Seminários Interdisciplinares além de corroborar com a negação do reducionismo referente ao objeto de estudo da psicologia disseminado pelo senso comum.

BIBLIOGRAFIA

LOPES, Carlos Eduardo; “Behaviorismo Radical e Subjetividade”, 2006. Disponível em:
http://www.bdtd.ufscar.br/tde_arquivos/13/TDE-2006-03-15T06:01:34Z-896/Publico/DissCEL.pdf

MOROZ, Melania; RUBANO, Denize e equipe; “Subjetividade: a interpretação do behaviorismo radical”, Psic. da Ed., São Paulo, 20, 1º sem. de 2005, pp. 119-135. Disponível em: http://scielo.bvs-psi.org.br/pdf/psie/v20/v20a07.pdf.

RESENDE, Anita C. Azevedo ; “Subjetividade e cultura: a contribuição da psicanálise ao debate”, UFG/UCG, anita.resende@pesquisador.cnpq.br
GT: Psicologia da Educação / n.20

SKINNER, B.F.; Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

One Response to Subjetividade

  1. Wagner da Matta 12 de Janeiro de 2016 at 13:02 #

    bom ter este site como recurso para aquisicao de conhecimento e trocas de saberes.