Filosofia e Psicanálise Lacaniana IV

(…)Uma relação que se pretenda estabelecer entre psicanálise e filosofia deve levar em consideração inicialmente, um diálogo com a linguagem atual da antropologia ou com os mais recentes problemas da filosofia do qual, muitas vezes, a psicanálise só tem a se beneficiar.
Urgente, em todo o caso, parece-nos a tarefa de destacar, em noções que se enfraquecem num uso rotineiro, o sentido que elas resgatam tanto de um retorno à sua história quanto de uma reflexão sobre seus fundamentos subjetivos. Quer parecer que não nos seria possível construir uma compreensão, uma abordagem do território onde se localiza o saber produzido pela psicanálise, caso não se operasse a partir deste terreno, deste topos transcendental ofertado pela atividade da filosofia. Frente a isso, para se pensar numa possibilidade de diálogo entre filosofia e psicanálise, devemos destacar, de início, que a psicanálise de Jacques Lacan nos indica que não há metalinguagem do Outro; não há metadiscurso da ordem simbólica; da linguagem, enquanto instância que envelopa o humano para que ele possa, enfim, sê-lo. Porém, haveria algo na linguagem, enquanto locus e ferramenta privilegiada do ato filosófico, que pemitiria falar desse inexistente, mas insistente, além da linguagem.

A necessidade de se instituir um diálogo entre psicanálise e filosofia estaria justificada em função do imperativo que nos comanda ultrapassar a ficção pré-freudiana de um sujeito idealmente mestre de seus pensamentos e de sua comunicação. Além disso, é fundamental destacar que o próprio Lacan encorajou ativamente o debate entre psicanalistas e filósofos, lingüistas, matemáticos, antropólogos, entre outros. Essa imbricação entre psicanálise e filosofia é, aliás, essencial na obra de Lacan, e ninguém ignora que o famoso retorno a Freud não se limita a um esforço filológico a serviço da ortodoxia, embora Lacan não os tivesse assim chamado filósofos como ele diz, estritamente em muito boa conta, pois para ele, filósofo é aquele que “livra a própria cara”. Devemos estar atentos, entretanto, para a necessidade de ultrapassar as ingênuas hermenêuticas epiteliais, epidérmicas e cosméticas da psicanálise que, apressadamente, inclinam-se a ver, nos efeitos fenomênicos recolhidos da cena do visível, a obtenção da sua própria chave de decifração.

O universo categorial trazido pela psicanálise de Freud e Lacan carrega consigo o estranho efeito de produzir um desconforto conceitual no campo totalizante do discurso filosófico, uma vez que o saber produzido pela psicanálise implica impossibilidade da produção de um saber sobre a totalidade, por compreender o sujeito-humano como um ser produzido por uma falta, por uma fratura. “[…] o sujeito não é aquele que pensa…”. “Quem é o sujeito? […] Atacar esta questão é atacar as próprias raízes da linguagem.” Dessa forma, minha hipótese é de que o lacanismo poderia ser lido como uma tentativa de constituição de uma ontologia transcendental, ou, dito de outro modo, a máquina categorial da hermenêutica lacaniana, decifratória do ethos do humano-ser, poderia ser efetivamente compreendida a partir do horizonte kantiano da plataforma do transcendental, não mais referido, contudo, às condições de possibilidade do conhecer, mas do Ser, isto é, da constituição, da produção e do aparecimento de um sujeito; da constituição da plataforma da subjetividade. Uma questão de relevância filosófica que deve e merece ser destacada, é que o projeto lacaniano tem semelhanças e diferenças com o projeto apeliano. A semelhança é que ambos apelam a uma instância terceira, garantidora e avalizadora da fala dos sujeitos envolvidos no discurso. A dessimetria, porém, reside no modo de constituição dessa instância terceira.

Enquanto, de um lado, Karl-Otto Apel nos fala de uma semiótica transcendental e de uma comunidade ilimitada de comunicação que opera como sujeito transcendental que deve estar presente ab initio, devendo ser incorporada na fala do sujeito que exerce o ato filosófico, de outro lado o projeto lacaniano nos traz a noção de grande Outro que, embora operando como instância terceira, é irredutível à manejabilidade consciente do falante. Assim, embora ambos: comunidade ilimitada de comunicação e grande Outro estejam incluídos na fala do sujeito falante, há uma opacidade constitucional do lado do Outro lacaniano. Estamos agora em condições de nos questionar sobre qual o campo ou espaço onde se instaura o território conceitual da psicanálise, uma vez que na pura presença imanente de seus conceitos não podemos decifrar seu sentido.

Devemos nos questionar, então, com qual categoria de conceitos se poderia manejar o campo conceitual da psicanálise. “A psicanálise é seus conceitos […] que são utilizados para descrever e atingir as realidades que ela pretende circunscrever. Enfrentar este tema supõe que possamos responder à questão sobre o que quer dizer e o que está implicado quando se diz que se sabe algo? O que quer dizer saber algo? Estamos aqui no campo de uma epistemologia do saber. Se, a partir da teoria lacaniana, compreendermos o humano como um ser possuído pela linguagem, um possível estatuto ontológico para o homem seria considerá-lo como estando situado entre o excesso e a falta, no sentido de que ele deve ultrapassar a ordem natural do mundo e das coisas, que ele deve estar em excesso frente a esta naturalidade e, ao mesmo tempo, em função mesmo dessa condição de excessividade, algo lhe falta. A falta é aqui compreendida como resultante do próprio co-pertencimento ao universo representacional do signo que, ao mesmo tempo em que possibilita a presentificação do objeto, não permite o acesso ao objeto. Quer nos parecer que, com sua tentativa de algebrizar o modus da ordem simbólica, enquanto instância que opera como condição a priori para o humano-ser, teria Lacan tentado, como um neo-Édipo resolver o enigma da esfinge, levando-a a suicidar-se.(…)

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