A sexualidade e a subjetividade contemporânea

Dentre tantas mudanças sociais temos o desenvolvimento das diversas formas de se tratar o termo sexualidade, mencionando também o avanço da medicina para o desenvolvimento de métodos que visam um nível maior de auto-reconhecimento da própria imagem, onde se pode “mudar” a realidade, tendo enfoque no progresso referente métodos que visam mudança de gênero.

Junto a estas noções temos a formação de uma nova forma de subjetivação e uma nova sociedade/grupo social, que se reconhece como tal e luta por melhorias e respeito por suas escolhas.

Diante de diversas mudanças nos vemos diante do que podemos chamar de crise da família e do sexual, mas não em sentido negativo, e sim como um ambiente de análise e formação de uma nova noção de família e sexualidade, assim como a produção de um novo modelo de sociedade que respeite as particularidades gerais e desejos de cada indivíduo, em contrapartida se tem as velhas noções subjetivadoras da nossa cultura.

Francisco Denílson Paixão Junior [1]
Rayanne Chagas Barbosa[2]
 

Resumo
 
Acreditando que os processos de subjetivação também fazem parte dos processos de desenvolvimento sexual, buscaremos com auxilio da Análise Institucional mostrar os principais instrumentos que formaram as bases da sexualidade da sociedade a qual estamos inseridos, com as teorias de Freud e até onde estas conseguem explicar os fenômenos sexuais modernos. Usaremos também noções de Vigotski que tratará da interiorização de signos sociais que embasaram as formas, pelas quais, as informações do mundo vêm a influir no imaginário do individuo. Após termos exposto esses princípios básicos, adentraremos em um dos questionamentos que vem sido a crise do gênero, por assim dizer. Trataremos dos casos transexuais, e de alguns acontecidos que vem colocando em cheque as noções de gênero e se realmente as suas definições são suficientes para suprir essa nova forma de ser homem e mulher, sê-los por desejo próprio e não por uma questão puramente predominada pelo biológico.
 
Palavras-chaves: Analise institucional, Processos de Subjetivação e Gênero.

A sexualidade e a subjetividade contemporânea: Uma breve análise
 
Introdução
 
Dentre tantas mudanças sociais temos o desenvolvimento das diversas formas de se tratar o termo sexualidade, mencionando também o avanço da medicina para o desenvolvimento de métodos que visam um nível maior de auto-reconhecimento da própria imagem, onde se pode “mudar” a realidade, tendo enfoque no progresso referente métodos que visam mudança de gênero.
           
Junto a estas noções temos a formação de uma nova forma de subjetivação e uma nova sociedade/grupo social, que se reconhece como tal e luta por melhorias e respeito por suas escolhas.
              
Diante de diversas mudanças nos vemos diante do que podemos chamar de crise da família e do sexual, mas não em sentido negativo, e sim como um ambiente de análise e formação de uma nova noção de família e sexualidade, assim como a produção de um novo modelo de sociedade que respeite as particularidades gerais e desejos de cada indivíduo, em contrapartida se tem as velhas noções subjetivadoras da nossa cultura.
 

Sexualidade em formação
           
Após a exposição de nossa sociedade as teorias de Freud a cerca da sexualidade podemos perceber que ela veio se constituindo de forma um pouco mais singular, no qual há a predominância de uma noção de homem e mulher muito forte. Essa se torna um dos constituintes ativos da subjetividade de gênero de nossa realidade social.

Conseqüentemente, acabamos nos remetendo a primeira instituição que nos forma um caráter social, a família, muito tratada também na psicologia social. A família é uma das instituições clássicas também tratadas pela Analise Institucional, pelo fato do caráter de se querer manter a solidez de sua imagem e tentando se mostrar como algo imutável, porém o que vemos é que nossa sociedade vem tomando novos rumos para o que se tem respeito a padrão de família, mas deixaremos este questionamento para mais adiante.
           
A interação social é de grande importância para formação do indivíduo que passa a integrar nosso meio e formará uma personalidade única na coletividade, os indivíduos unidos pela dupla relação biológica que permeará os primeiros momentos de mediação da tensão gerada entre o eu e o social, sendo esta a primordial transmissora da cultura que será internalizada e reinterpretada/adaptada aos seus desejos.
           
As teorias de Freud causaram e ainda são motivos de grandes inquietações, no entanto nos trás concepções de formação com os seus complexos regidos pela sociedade da época, o que hoje pode ser “natural” para nossa sociedade era motivo de grande discussão, passando a ter novas interpretações para o nosso contexto atual.
           
Pensar de como os novos meios de transmissões que veiculam essa cultura, formam nosso ideário, se torna um debate interessante para esta “adaptação” de conceitos; o que era de extrema polêmica para a época e o que se torna motivo de aflição para o dito século XXI; bem como pensar nos mediadores de Vigotski que passa a abranger outras dimensões “inimagináveis” para a época.
           
Guatarri nos trás a discussão desses novos meios em análise das intenções encobertas que é por nós internalizado. Podemos não nos deter aqui apenas a formação infantil, mas também a adolescência que é constantemente afetada pela mídia e as possibilidades desde novo tempo. Bem como pensar sobre os exemplos/modelos que são repassados nesses meios de veiculação. Assim como o seguinte trecho que trata de uma cultura que forma o homem pela sua vivência e não que, necessariamente, ele forje essa forma de subjetivação:
 
“mas estas sociedades não fazem nem cultura nem dança, nem musica.Todas essas dimensões estão completamente articuladas entre si em um processo de expressão, e articuladas com sua maneira de produzir bens, como sua maneira de produzir relações sociais” (Guatarri e Rolnik; p.31.2005)
           
Este conjunto de símbolos interiorizados; como o que é de menino (a), como se deve agir, do como se inserir na sociedade; do que é certo e o que é errado; as punições/impactos que atitudes diferenciadas poderão causar devem ser analisadas e postas de acordo com as novas posturas assumidas atualmente.

Podemos começar aqui uma breve análise dos signos que nos são de certo modo impostos, como normatizadores a crermos na existência apenas de duas formas de gênero sexual. Essa noção de sexualidade parte desde o inicio de muitos pais, na qual as cores do enxoval do neném é escolhido de acordo com sua sexualidade, sendo assim se começa a atribuir a certos objetos um significado que chega a ser até libidinal de uma escolha forçada de gênero. E mesmo que, até onde podemos dizer que há diferenças entre homem e mulher? Se busca uma igualdade entre ambos estes gêneros que podemos tratar, de certo modo, como primitivos por que ainda assim há varias cisões sociais entre ambos? Entra então o caráter cultural e normativo no qual passamos a interiorizar estas noções gerais de símbolos como nossas constituições de mundo.
           
Após a observação de algumas crianças em algumas instituições de ensino publico de Sobral Ceará, foi possível detectar entre algumas delas na idade de nove anos certo posicionamento que não condiz com as teorias freudianas, que é o caso da postura assumida de umas crianças acerca de suas sexualidade para além do caráter padrão, se pondo com homossexual. Diferentemente das noções que a instituição escolar se coloca a ensinar as crianças, como as filas que diferem entre homem e mulheres, como competições onde se coloca de um lado meninos e do outro meninas.

Porem o que é repassado não necessariamente é o desejado; Pino (1985:42), trás que “A ordem simbólica é constituinte do homem como indivíduo social, mas pode tornar-se uma ameaça para o homem quando se pretende fazer dela a negação do imaginário. É a dialética da lei e do desejo.” Encarar então este mundo de conceitos formados e se adaptar a ele não é uma tarefa fácil; Freud em seus estudos sobre a dinâmica da personalidade trás o Isso, o Eu e o super-Eu como as três partes da estrutura psíquica estão permanentemente em conflito cada uma querendo estabelecer o seu domínio; estabelecendo assim o equilíbrio, e componentes como o temperamento para as atitudes em sociedade.
           
Podemos ainda dizer que este tipo de fato é um gerador de uma opressão velada, na qual a criança se tiver tendências e desejos homossexuais, passa a se sentir fora do grupo que é de extrema importância este contato com os demais; o processo de mediação iniciado na família, de dependências e rebeldia, na idade de iniciação escolar abrange grandes outros círculos onde o infante se depara com novas regras, idéias, modelos, que influenciarão fortemente em seu desenvolvimento e direções a serem tomadas posteriormente; bem como a necessidade de inserção em grupo que acabam por “moldar” certos comportamentos e gerando outros pelo fato de adequação daquilo que ela assume como modelo.
           
A mídia e os processos de veiculação de informação, citadas brevemente em momento anterior, entram ai como grande formador de modelos, onde concepções errôneas podem marcar profundamente as novas formas de encarar a realidade; podendo tornar algo “normal” e “anormal” através da polissemia de tais recursos e a carga cultural que ela já tenha internalizado.
           
Além de que endossa ainda mais a tensão entre o Eu e o outro, onde este outro pode ser desde familiares que investem um valor afetivo aos sonhos verbalizados a criança sobre casamentos e constituição de famílias padrões ou mesmo as brincadeiras que são interiorizadas e replicadas por seus coleguinhas, as quais, estas brincadeiras podem ter um teor pejorativo a noção de sexualidade dúbia. Sendo assim, a criança encontra-se entre as normas de valores sociais dos outros e seus próprios desejos.
           

Um novo modo de ser
 
Continuando a análise sobre a sexualidade, entraremos em diálogo com a nova forma de ser fazer sexualidade: a transexualidade, na qual o indivíduo (homem ou mulher) decide por meios estéticos da medicina moderna modificar seu corpo afim de que se produza maior semelhança ao gênero que se decide ter a partir de então.
           
Sendo assim, temos de início, uma quebra com a noção básica do que é um gênero sexual. Posto que o que foi instituído de mais “natural” é homem e mulher, assim como a não existência de um terceiro modo de ser. Podemos ver que historicamente toda forma de se criar uma nova forma de gênero era tido, pela sociedade ocidental pós-marxista-freudiana, como uma transgressão as leis morais e em alguns casos jurídicas.
           
Sendo criado em ambientes como este podemos dizer que não estamos livres destas noções preconceituosas acerca da noção de gênero moderno, assim como podemos ver nas falas de Foucault:
 
“[…]genealogia o acompanhamento do conhecimento com as memórias locais, que permite a constituição de um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais”(Foucault,p.171. 1976)
 
Podemos então ver que este conhecimento histórico que nos é impregnado pela vivência, pode tanto servir como um saber positivo que visa construir um conhecimento aplicável e de defesa das diferenças como pode ser, e em muito é, uma forma de subjetivação de massas, que sem querer nos mantemos nos preconceitos morais antigos, sem que respeitemos os desejos de um outro, que para as leis atuais se encontra livre para fazê-lo.
           
Neste ponto, se pode citar um caso ocorrido em Fortaleza Ceará, no qual um travestir foi barrado na porta de uma boate e após perguntar o motivo pelo qual ele foi interrompido de seguir passagem a resposta que ele recebe é de que não está devidamente vestido, por estar vestido de mulher. Então o jovem sente-se velado de um direito seu de ir e vir por conta de uma convenção social que o limita.
 

A nova família
 
No dia 23 de março de 2009, em certo site, foi veiculada a informação da gravidez de uma transexual e, esta, tendo parado seu tratamento hormonal de troca de sexo ao meio, para poder engravidar.
           
Em uma dada aula de Psicologia na Universidade Federal do Ceará, a professora propôs discutirem sobre o assunto e os alunos deveriam levantar questionamentos sobre os possíveis impactos sobre o social quanto aquele tipo de família que estava sendo produzido. Então, neste ponto, nos vemos de volta a formulação da crise que tanto é tratada em Analise Institucional. Temos em cheque uma das Instituições mais antigas: a família.
           
Mas devemos trazer esta crise não como algo que busca o fim desta, mas que se produza uma nova forma de gerar famílias, dentro das particularidades e realidades a que ela está disposta. Nas idéias de Lourau, seria a tese, com a família tradicional, e a antítese, as novas famílias que vem se formando, para que se produza uma nova forma de se fazer família e, tão logo, uma sociedade.
           
Neste ponto se criou o campo das incertezas, por assim dizer, posto que temos a noção já trabalhada por Freud que o tipo de família tido como normal seria um pai, uma mãe e os filhos, e como esta lógica foi sendo trabalhada a muito tempo se interiorizou a idéia de que outras formas de se fazer família seria errado e uma péssima forma de se constituir um indivíduo.
           
Porem se esquece de levar em consideração que a família é um dos meios de subjetivação e não o único, ou mesmo que existem diversas formas de se fazer família. Dentre os diálogos dentro de sala de aula, alguns alunos se posicionavam contra pelo fato de que a criança seria discriminada, de que ela não teria um referencial correto de mundo, dentre tantos. Porém estas falas estão completamente comprometidas com o que já foram debatidos neste texto, os preconceitos históricos aos quais estamos inseridos e é difícil não acabar tendo em nossa lógica esta pré-noções em nossos diálogos.
           
Sendo assim, entre as contra-argumentações se encontravam que existiam famílias de mães solteiras, crianças que moram com avós e mesmo de crianças que moram em orfanatos e não deixam de se constituir como cidadão corretos, logo não seria porque a família padrão não estava sendo seguida, mas sim o preconceito velado e às vezes nem mesmo percebido que se encontrava nas falas.
 

Considerações finais
 
Assim como foi tratado no título do artigo, este texto não busca por fim a este debate, mas poder dar as ferramentas básicas para se possa analisar de um modo novo e com referências vivenciais, ou por observadores / relatos de alguém que sofreu / observou algum problema por suas escolhas sexuais.
           
Pretendemos também trazer á debate a “atualização” / reinterpretação de certos conceitos que precisam ser “ajustados” a contemporaneidade que sofreu e sofrerá sempre grandes mudanças que continuamente precisarão ser revistas e adequadas. Do mesmo modo, ressaltar a importância e especificidades dos novos artifícios sociais para a construção da personalidade; mencionando também neste atual estágio a problematização das novas constituições familiares para a formação da sexualidade infantil.
 

Referências
 
CECCARELLI, Paulo Roberto. Sexualidade e preconceito. Out. 1999. Net. Disponível em: < http://www.fundamentalpsychopathology.org/art/set0/2.pdf>. Acesso em: 04 de maio de 2009.

COLE, Michael et al. A formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

DOMINGUES, Mariana Rosa Cavali; DOMINGUES; Taciano Luiz Coimbra. Adolescência: Mudança e Definição. Net. Disponível em: < http://www.unisalesiano.edu.br/encontro2007/trabalho/aceitos/CC21882553802.pdf>. Acesso em: 03 de maio de 2009.

FOUCALT, M. (1999) Vigiar e Punir. 21º edição. Petrópolis: Vozes.
FREUD, S. (1926) Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Editora Imago.

GUATARRI, F. & ROLNIK, S. (1986) Micropolitica: Cartografia do Desejo. Petrópolis: Vozes

LOURAU, R. (1995) A Analise Institucional. 2º edição. Petrópolis: Vozes.

[1] Graduando em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará
E-mail: plusfera@yahoo.com.br
[2] Graduanda em Psicologia pela Universidade Estadual da Paraíba
E-mail: rayannechagas@yahoo.com.br

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