O consultório do Freud mal-assombrado

Esta história já tem alguns anos. Somente agora é que senti apropriado narrá-la aqui.

Saí do elevador e tomei um susto. Bem de frente, sem a menor chance de fuga, uma sala com uma porta de vidro e, detrás dela, um quadro grande com uma foto conhecida de Freud a boiar na escuridão. Aquele era somente um prédio comercial, mas aquela sala parecia a entrada para um museu ou coisa similar. Era uma sala de espera, toda escura, muito escura e somente o grande pai Freud emitia luz. A única luz da sala era para iluminar aquele quadro. O resto ficava em segundo plano.

Em algumas pessoas aquilo talvez desse arrepios, pois ressoava também um pouco fúnebre.

Lembrava um pouco uma sala do Memorial Juscelino Kubitschek, em Brasília, em que jazem os restos mortais do ex-presidente. Trata-se de uma sala bem grande, toda encarpetada, fechada e bem escura. Ali parece que tudo é roxo escuro, ou preto, ou um vermelho sendo iluminado por uma luz negra. Enfim, o cenário cheira um pouco a terror. Sombrio, lúgubre e com os restos mortais do ex-presidente ali, jazendo na escuridão.

Não teve jeito: quando pela primeira vez estive nesta sala do Memorial, logo me imaginei passando a noite ali, sozinho, e tentando dormir. Que lugar diferente para passar uma noite, para tentar relaxar. Escuro e iluminado. Iluminação parecida com aquelas produzidas por luzes negras. Sensação dupla de desproteção: estar iluminado e no escuro ao mesmo tempo. Confusão dos sentidos.

Mas aí tentar reproduzir isso, com Sigmund Freud, em uma pequena sala de espera, já não é demais? Isso me despertou uma série de divagações. E pude ainda, depois, conferir que aquele quadro ficava ali, eternamente iluminado, e com a porta de vidro, sempre transparente, a exibi-lo. Era no mesmo prédio em que eu mesmo tinha meu consultório. Estive lá, em um final de semana, e pude comprovar: o freudão ficava lá, todo iluminado, 24 horas por dia, durante todos os dias do ano. Inacreditável: era uma luz eterna a iluminá-lo, um fogo de Zoroastro a nunca ser apagado. Reverência eterna, divina? Louvor? Os olhos de Freud estão em todo o lugar? Mas ele não vê nada, pois somente ele se ilumina. O resto jaz no escuro: o velho drama de Narciso, do narcisismo da própria Psicanálise, sua ameaça constante de ruína: a de às vezes se esquecer de que existem várias e boas possibilidades de tratamento psicoterápico nessa vida, e não somente a sua como via única de acesso ao inconsciente ou à saúde.

A grande impressão ali, naquela sala, era a de que o Freud do quadro não nos via. No início aquilo me simbolizava a grande dificuldade em que muitos psicanalistas, dogmáticos e fanáticos em seu ofício, tinham em lidar com a alteridade, a diferença. Como o Freud do quadro, de tão iluminado, “não era capaz” de ver o outro, ele nos detinha, nos controlava e nos punia com a gravidade de seu semblante e postura incólume, reforçados pelo tamanho do quadro e pela periferia do resto do pequeno mundo escuro à sua volta. Pois, não era ele mesmo, Freud, o qual dizia que toda vigilância já é uma forma de punição?

Não era difícil, também, ficar observando aquele quadro e imaginar uns olhinhos por detrás dele a espiar a sala, como naquele velho clichê de cinema, em que quadros com pessoas servem para vigiar, saber mais do que se deve, controlar, e fraudulentamente assombrar.

Minhas reações a este cenário foram variadas e ambivalentes. Um lado meu gostou e deu risadas e o outro também deu risadas, porém ficou questionando esse louvor pela figura de Freud. Perguntei-me o que muitos psicanalistas sentem em relação a esse grande pai, Freud. Ele os protege e os vigia? Pune? É onisciente? O que Freud falou está falado? Como amam Freud? E esse amor produz o quê, que espécie de felicidade? Freud se ilumina e apaga o resto? Como é que é isso? Que filhos os psicanalistas, os quais assim se intitulam (e se afiliam, se tornam “filhos”), desejam ser para este pai? Obedientes? Prediletos?
Protegidos? Rebeldes? Completamente identificados, cegos, e incapazes de qualquer confronto com o pai primevo?

Logo me lembrei de um cartum do Quino em que o sujeito, já adulto, caminhava ao lado da mãe, portando um camiseta com o retrato dela estampado. Como diz a própria Psicanálise: reduzido à mãe, ainda preso na relação simbiótica, infantilizado, não castrado? Alguém que ainda não cresceu e pôde construir seu próprio caminho? A liberdade não conquistada? Ou a gratidão? O reconhecimento do outro na constituição do que somos? O respeito pela memória? O amor assumido? E afetado, exibido? Ou sem medo de mostrar que ama e a quem ama?

O que era aquela sala pra mim? Por que havia me mobilizado tanto? Fiquei durante dias obcecado pela sala do Freud mal-assombrado. Aquilo parecia uma assombração. O desejo daquele psicanalista era assombrar quem quer que saísse daquele elevador? Causar espanto e, em alguns, até horror? Por que não? E não era isso o que Freud muitas vezes produzia em seus contemporâneos, e até os dias atuais ainda produz em muitos de nós: espanto, horror? Também não me esqueço de certa passagem em que Wittgenstein fala das extravagâncias teóricas de Freud. Mas me esqueço em que livro de Wittgenstein eu li isso.

Lembro, porém, que ele acaba sugerindo uma coisa: Freud era um sujeito afeito a malabarismos teóricos.

E, sem dúvida, Karl Popper também não hesitou em conceber desta maneira: papai Freud adotava malabarismos teóricos para fazer valer seus postulados. O malabarismo teórico talvez tivesse sua relevância, segundo o próprio Popper, na fase da descoberta científica, na fase de preparação de hipóteses, as quais demandam até bastante criatividade. A coisa porém muda de figura quando passamos à testagem das teorias. E é aí que Freud, segundo ele, apelaria bastante para argumentos ad hoc. Ou seja, argumentos que, apesar de entrar em franca contradição com a teoria proposta, falseando-a, eram adotados por Freud como uma espécie de exceção ou argumentos que explicavam aquele caso em particular.

Isto, em grosso modo, é o resumão da crítica de Popper à Psicanálise. O pensamento freudiano seria amarrado de um modo a coibir a possibilidade de refutação ou falsificação. É impermeável à testagem. O que seria, segundo esta concepção, anticientífico. Pois é, Freud explica? Explica sim. Mas muitas vezes explica demais da conta. O que faz alguns dizerem que a Psicanálise seria boa demais para ser ciência.

Os malabarismos teóricos de Freud teriam, em muitos casos, por sua vez, o pendor à extravagância. Toda a circunvolução argumentativa para se falar do complexo de castração, por exemplo, pode dar muito bem a dimensão disso. Não há dúvidas, o legado de Freud para a cultura ocidental é relevante e em boa medida proveitoso. Mas como lidar com isso? De modo crítico ou somente fazendo parte do coro que reproduz todo e qualquer enunciado emitido por ele?

Sempre tive estas questões comigo e não sei se vale a pena fazer parte da massa fanática de psicanalistas que tem como mote de vida a defesa da Psicanálise com unhas e dentes, em função mais da sobrevivência da instituição psicanalítica e seus dogmas, do que a busca saudável da verdade.

Sim, eu estava horrorizado. A visão daquela sala tinha feito todo o real lacaniano despencar sobre minha cabeça. O simbólico despertado em mim pelo Freud mal-assombrado não cessava de acontecer e dominar meu mundo dividido entre amar e odiar a Psicanálise. E o impossível de tudo aquilo que não sou capaz de dizer aqui não cessava de não se escrever em minha cabeça. Talvez fosse meu próprio sentimento de amor e meu horror por idolatrias e tietagens a afetar um amor que não precisa ser obsceno ou exibicionista. Guardasse o Freud dentro do seu consultório, meu caro. Já não basta introjetá-lo fanaticamente? É preciso erigir mais um totem?

Havia em mim, também, o sentimento de que Freud conseguia traduzir realisticamente a crueza da existência com tanta sofisticação e, ao mesmo tempo, com todo o auto-engano que ele mesmo denunciava. O triste sentimento de que pessoas muito inteligentes e lúcidas eram também capazes de cometer atrocidades, e que a autodestruição, o auto-engano e o paradoxo se avizinham mesmo nos terrenos mais férteis da racionalidade. Sentimento este, o qual também não deixa de ser tipicamente psicanalítico.

Eu insisti em rir disso tudo, durante dias. Fiquei doente, enlouquecido com aquilo. Contei a história a várias pessoas. Mas várias pessoas mesmo. Algumas riam e fabulavam junto comigo:

“Nossa, mas que cara absurdo esse psicanalista…”; “Que sujeito ridículo”; “Esse cara não tem noção”; “É um panaca, um imbecil. Eu jamais faria análise com ele”; “Ridículo, cômico, grotesco. Ele pensa o quê? Pensa que vai intimidar seus pacientes com esta sala escura em que o freudão reina absolutamente pintão a oprimir o resto do universo cintilante e não cintilante?”; “O que esse cara pretende? Castrar seus pacientes antes mesmo que eles adentrem a sala? A sala de espera dele é a salinha da castração? Operação de fimose simbólica? Hospitalzinho do além (pois que mal-assombrado) ou do simbólico, que seja; cujo procedimento cirúrgico preliminar é esta assombração castradora e opressora?”; “Então é isso mesmo? Freud castra, castra demais, todos os seus discípulos (apóstolos?) e pacientes? Freud representa antes de tudo uma figura paterna onipotente e opressora? Esse cara baba muito o ovo de Freud. Psicanalista baba-ovo é um porre. Os apóstolos de

Freud… Haja paciência”.

Outras, porém, percebendo meu exagero, minha desmedida em implicar ou debochar do suposto psicanalista, atacavam. Foi o caso de uma grande amiga, também psicóloga, a qual não perdoou:

“Nossa, Adriano, como você é doente, invejoso. Você está é morrendo de inveja. No fundo, você gostou do que o cara fez, da coragem que ele teve, e queria
ter um consultório tão impactante quanto o dele. Aquilo te impressionou demais. Você ficou tocado, cara. Tá morrendo de vontade de ir lá e fazer análise com esse doidão aí.”.

A sala do Freud mal-assombrado na parede tinha, contudo, sua beleza. Uma beleza estranha e meio cômica. Era, apesar de exagerada, provocativa. Tal como um filme de Zé do Caixão? Tal como qualquer coisa que em um primeiro momento pode parecer ridículo, torto, tolo e desproporcional, mas o qual, depois, não tiramos da cabeça? Pelo menos em mim aquele absurdo estava produzindo algum efeito. E a fala de minha amiga, a dizer que eu desejava entrar naquela sala e conhecer o doido do psicanalista que armara aquele cenário, não devia ser desprezada.

O que fiz então? Um dia, saindo de meu consultório, resolvi dar uma passadinha por lá. A porta não estava trancada. Ou seja, o homem estava em casa. O clima, de fato, era taciturno. Aquilo era um memorial mesmo, um templo obscuro, um recanto insólito e apartado do mundo a buzinar lá fora. A música ambiente era clássica, temperatura e cheiro agradáveis, além de uma pequena fonte d’água, elétrica. Música clássica, no volume certo, e um ambiente sinistramente acolhedor. Onde eu estava me metendo? Ok, vamos esperar o doidão sair de sua sala…

Passaram-se uns dez minutos e a porta se abriu. Era ele e uma senhora, sua paciente. Abraçaram-se, com um carinho cordial e cúmplice. E ela se foi.

Tratava-se de um senhor, de idade, vestindo um chapéu
tipo boina, e suspensórios. Tinha um sorriso bastante singelo e simpático:

“Bom dia.”

“Bom dia” – repliquei bem rápido, sem conseguir falar direito, pois tive alguma vontade de rir, mas sem todo aquele impulso que eu havia antes imaginado. A imagem daquele velhinho com ares de bonachão simplesmente me desarmou. Seu sorriso era sereno. Havia tranqüilidade em toda a sua postura e expressão.

“Pois não?”

“Serei sincero com você. Um dia passei por aqui e vi esse quadro de Freud, no meio do escuro, e tive vontade de sentar e esperar que a porta se abrisse. Desculpe-me se pareço invasivo…”

A conversa se estendeu, bastante. Meu castelo recalcitrante de rejeição a quem eu simplesmente não conhecia desmoronou. Fiquei em análise com ele por um bom tempo, até seu falecimento. Devo muito ao homem que eu antes havia fabulado como o bizarro guardião do consultório do Freud mal-assombrado.

(Narrativa fictícia)

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