Filosofia e Psicanalise Lacaniana – parte V

Desta forma, compreendemos a importância de estabelecermos um diálogo com os achados de Lacan, ou com o que poderíamos chamar de filosofia de Lacan, ou sobre o uso que faz dos instrumentos fornecidos pela tradição filosófica. Este diálogo justifica-se, na medida em que a psicanálise subverte a questão do sujeito, tal como é filosoficamente formulada, em Hegel, por exemplo. A psicanálise lacaniana produz, assim, uma subversão da ingênua noção de um sujeito retro-cognoscente.

A psicanálise implica em redimensionar a compreensão da noção de consciência, tal como o foi classicamente estabelecido. Para além de uma superficial antropologia, ancorada num behaviorismo gnosiológico, isto é, com uma recusa inicial a compreender o dado para além de seu aspecto de fenômeno aparente, a psicanálise de Lacan nos traz uma nova perspectiva sobre o humano.

A subversão que Lacan quer indicar e debater é a subversão do sujeito cartesiano, com sua presumida identidade da subjetividade e do pensamento consciente. A ruptura instituída pelo saber trazido por Freud e que teve sua continuação com a psicanálise de Lacan, interrompe a marcha autárquica do saber grego e ocidental, com a vinda em cena da noção de Outra cena.

O prêmio, o objeto secreto e cobiçado pelo pensamento ocidental, a questão da verdade, com a ínsone atividade de produção de ferramentas no interior da oficina da filosofia para atingi-la, sofre assim, a partir do saber da psicanálise, uma difração considerável.

A questão da verdade, enquanto telos e justificativa da empreitada da filosofia, agora é considerada como somente sendo um processo que deve levar em consideração, inicialmente, que a verdade somente é acessível por um meio dizer, que ela não pode ser inteiramente dita porque, para além de sua metade, não há nada a dizer. Tudo o que se pode dizer é isto. Aqui, por conseguinte, o discurso se abole.

Para Lacan, não se fala do indizível, por mais prazer que isto pareça dar a alguns. Para Lacan, o elemento ficcional que nos impulsiona a perseguir o saber, como se estivéssemos no caminho de encontrar verdades eternas, deve ser localizado em nossa herança cristã. Este horizonte metafísico do cristianismo, que institui um mundo de essências a atingir, coloca e auto-legitima a marcha do arsenal do saber filosófico, em sua tarefa de, através do pensamento, produzir um saber sobre a verdade. Lacan radicaliza o estatuto do procedimento do pensar. Para ele os homens só pensam raramente. Neste sentido, é absolutamente pertinente sua crítica aos filósofos que desconheceram o fato de que a realidade humana é irredutivelmente estruturada como significante.

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